Crítica | Internet: O Filme

estrelas 2

Peça fundamental na análise desse filme, o Youtube, fundado em 2005, foi responsável por popularizar o compartilhamento de vídeos, e, parafraseando a revista Time, fazendo milhões de pessoas se entreterem, se chocarem e até mesmo se educarem de uma maneira como nunca foi vista anteriormente. Em tempo, as celebridades provindas do Youtube (chamadas de webcelebridades, ou então, youtubers), foram capazes de popularizar ainda mais o serviço de broadcast. Elas conseguiram com uma boa (ou má ideia), uma câmera na mão e bastante carisma se tornar ícones para uma nova geração, “antenada”, que não queria mais ver seus ídolos uma vez por semana na TV, e sim, todo dia, na tela de seu computador e com uma possibilidade de interação que só a internet poderia dar.

No Brasil, nomes como os de Felipe Neto, PC Siqueira e Kéfera foram importantíssimos para que se abrissem as portas para que toda uma legião de personalidades digitais desse as caras e, consequentemente, para que toda uma geração de culto a essas personalidades fosse criada. Se em 2010, Felipe Neto reclamava das adolescentes apaixonadas pelas bandas teen, em 2017, há quem discuta se esses canais e figuras sejam saudáveis para as crianças e pré-adolescentes (público atingido pela maior parte dos vídeos e canais). Não é para menos que eventos de videogame têm, nos últimos anos, como atrações principais e fonte de boa parte do lucro, o comparecimento de youtubers focados em gameplays – tendo várias mamães e papais levando seus filhos até o inferno para tirar aquela selfie bacana com seu “gamer” favorito. Como mais um exemplo da youtubermania, tivemos disponível nas bancas até pouco tempo, um álbum de figurinhas de youtubers. Ilustra-se assim a força e influência dessas personagens.

Buscando uma diversificação na produção de conteúdo, essas webcelebridades ganharam seus próprios livros, sendo que algumas dessas obras tornaram-se best-sellers (mesmo com a qualidade duvidosa da maioria deles). Não contentes em apropriarem-se das livrarias de todo o país, as telonas foram o novo alvo de mais uma ação ousada desses famosos: protagonizarem seus próprios filmes.

Tomando como ponto de partida o fracassado, porém justificável, filme do grupo Porta dos Fundos, a segunda produção do gênero “filme de youtubers” foi É Fada, longa-metragem estrelado pela vlogger Kéfera Buchmann. Fora o fato de a produção ser risível, críticas vieram baseadas no por que youtubers estariam a brincar de atuar (o grupo Porta de Fundos é composto por atores)? Pelo menos, Eu Fico Loko, terceira produção desse universo compartilhado de dor e sofrimento, teve a coragem de colocar atores de verdade para interpretarem os papéis, com a adição de Christian Figueiredo, o youtuber no qual a história se baseia, como narrador.

Não demoraria muito para que uma quarta obra fosse anunciada, portanto eis que chega Internet: O Filme, a suposta reunião de todas as celebridades mais amadas pelos jovens. Antes de tudo, é preciso comentar do desserviço do título às décadas de história da internet. Embora eficiente para com o público que vai atingir, temos a preguiça em seu estado de resumo mais pleno. Mesmo assim, um olhar preconceituoso deve ser deixado de lado para que se possa analisar corretamente essa produção.

Utilizando-se de vários arcos dispersos, a trama gira em torno de vários youtubers famosos que são hospedados em um hotel para participarem de uma convenção. O primeiro arco apresentado é o de Uesley (Gusta Stockler), um youtuber arrogante que tem que lidar com uma possível ameaça à sua hegemonia sobre os outros canais. Gusta é, aliás, uma grande surpresa do filme, rendendo momentos hilários. Ele possui uma boa caracterização, tendo um desenvolvimento interessante e uma conclusão épica.

Em paralelo, Rafinha Bastos, também roteirista do longa, interpreta Cesinha Passos. Não se deixe enganar, contudo, que o roteirista iria dar um aprofundamento mais rebuscado para seu personagem. É inquietante ver Rafinha interpretando uma versão de si mesmo, no caso, em busca de redenção das atitudes, em termos mais vulgares, babacas que o fizeram ser conhecido. É como se fosse uma propaganda de seu próprio ego inflado. Felizmente, Paulinho Serra, interpretando o fã fanático de Cesinha, Adalgamir, é a alma do filme, possuindo a veia cômica necessária para que o mundinho de Bastos não ficasse monótono demais.

No entanto, a crítica envolta da personagem de Fabi (Gabi Lopes), jovem desempregada que se torna um sucesso após um vídeo seu popularizar na internet, é muito atrativa e bem feita. Mas, Internet: O Filme é uma obra composta por conjunções coordenativas adversativas e a performance de Gabi Lopes (que não está nada bem) acaba por ser ainda mais ofuscada quando Thaynara OG, interpretando uma fã obcecada por youtubers, contracena com ela. A snapper está muito bem, sendo que seu sotaque carregado contribui para deixar a sua personagem mais crível. O arco de Paulinho (Cellbit), jogador profissional de Street Fighter que busca seu tetracampeonato, é muito bem pensado e concluído de forma inesperada. A propósito, essa trama possui duas grandes reviravoltas bem instigantes que apenas tem de acrescentar ao filme.

Para finalizar ainda temos Vepê (Teddy) que em uma aposta com seus amigos tem de seduzir Barbarinha (Polly Marinho), uma youtuber famosa. Tendo seu vídeo íntimo com Barbarinha divulgado na internet, Vepê e o roteiro de Rafinha Bastos nos brinda com uma história bagunçada, reforçada por más atuações (não que eu esperasse que Júlio Cocielo fosse Leonardo DiCaprio) e principalmente de mau gosto. Só não é pior que o arco envolvendo o cachorro Brioco. O cachorro é bacana, não há de se negar. Mas o desenvolvimento da história é mal feita, e pior de tudo, sem graça. Com exceção de um pequeno momento onde há a aparição de Fluffly, carismático apresentador do canal do Youtube, Treta News. Embora a meu ver a aparição tenha sido bastante engraçada, a referência é um problema se a pessoa que estiver vendo o filme não tiver conhecimento desse canal e da mitologia que o acerca.

O filme é claramente inspirado em besterois americanos, sendo que várias piadas são reciclagens de materiais já utilizados anteriormente. A utilização do nome do cachorro Brioco como arma para criação de jogos de palavras obscenos é de certa forma bastante estúpida, e não condizente com a classificação etária do filme. Aliás, a classificação etária desse filme não faz sentido algum. Jovens entre 10 a 16 são o público alvo desse filme, mas no final, temos um filme com classificação indicativa para maiores de 14 anos, o que esbarra no item citado anteriormente. A escatologia funciona muito melhor para esse público, mas as insinuações sexuais e os palavrões não. E, aliás, esse filme é muito boca suja. E enquanto arcos como o de Fabi e Uesley são um pouco mais afinados e debochados, o de Brioco e de Vepê não. Há uma forte inconsistência no teor da comédia. Não obstante, o mesmo não pode ser dito da linguagem do filme.

A direção de Filippo Capuzzi Lapietra sabe utilizar muito bem do material que têm em suas mãos. Há uma clara intenção do diretor em remeter a estética do filme à do Youtube, mais jovial e dinâmico. A inclusão de memes e um edição mais ágil é perfeitamente encaixada no longa, que tem desde a sua abertura um público alvo determinado. Auxiliado com o roteiro de Rafinha Bastos, algumas piadas mais referenciais são bem engraçadas. A participação de PC Siqueira, no arco de Cellbit, é muito bem feita. O mesmo não pode ser dito de Cauê Moura, que tem uma colaboração automática no filme. A inclusão de memes mais antigos como a presença ilustre dos cantores da versão original de “Para Nossa Alegria”, é uma jogada de risco, que funciona exatamente por ser arriscada. Mas no geral, o filme pode lhe arrancar uma quantidade razoável de risadas, ainda mais se você estiver enraizado nessa cultura e for capaz de entender todas as referências.

Internet: O Filme não é a bomba que eu estava esperando. Fui para o cinema ver um monte de youtubers brincando de atuar e tentando divertir o espectador com piadas sem graça e acabei por ver um monte de youtubers brincando de atuar e tentando divertir o espectador com piadas que algumas vezes funcionam. O fato de ao final do longa as diversas tramas não se unirem em um único ponto, faz com que o filme soe como sendo esquetes de 15 minutos picotadas em 1 hora e meia de duração e não um filme propriamente dito. Mas quem sou eu para dizer o que é cinema? Releva-se esse fator, e é possível que o filme como um todo, seja mais satisfatório, pois há qualidades que tornam esta produção melhor que todas as outras deste universo cinematográfico de youtubers juntas.

O elenco é horrível, mas alguns atores conseguem se sobressair em seus papéis, como Paulinho Serra e Gusta Stockler, além de ser possível identificar qualidade técnica no trabalho de direção, que invoca uma natureza familiar para que se possa atingir o público alvo do filme. Seus problemas são inúmeros. Há uma forte incoerência narrativa, incoerência de tom e incoerência financeira, visto que a classificação indicativa não faz sentido. Mas esse filme também não faz. E isso não é de todo ruim.

Internet: O Filme — Brasil, 2017
Direção:
 Filippo Capuzzi Lapietra
Roteiro: Rafinha Bastos
Elenco: Rafinha Bastos, Gabi Lopes, Paulinho Serra, Teddy, Polly Marinho, Gusta Stockler, Cellbit, Thaynara OG, Felipe Castanhari, Pathy dos Reis, Palmirinha, Júlio Cocielo, PC Siqueira, Cauê Moura, Mr. Catra, Christian Figueiredo
Duração: 96 min.

GABRIEL CARVALHO . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidades, movido por uma pequena loucura chamada amor. Já paguei as minhas contas e entre guerra de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia. Eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar, não é mesmo?