Crítica | Into the Badlands – 1ª Temporada

estrelas 3,5

Os nomes de Alfred Gough e Miles Millar me afastaram dessa série na mesma proporção que a sigla da AMC me atraiu para ela. Afinal, Gough e Millar, caso não estejam lembrados, formam a dupla responsável por Smallville, aquele acinte televisivo intragável e a AMC é simplesmente a produtora de Breaking Bad e Mad Men, duas das melhores séries já feitas, além de The Walking Dead, Humans, Better Call Saul e Halt and Catch Fire. Acabei sucumbindo à tentação e confesso que me diverti muito assistindo aos seis episódios que compõem a 1ª temporada de Into the Badlands.

A série, inspirada no conto chinês Jornada para o Oeste, do século XVI, é uma mistura de gêneros. Em termos macro, ela poderia ser vista como um sci-fi, mas, como ela se passa tantos anos no futuro na Terra que houve uma regressão tecnológica, esse aspecto se perde na narrativa. Há elementos fantásticos, o mais proeminente deles sendo M.K. (Aramis Knight), um menino com poderes misteriosos que ele não controla e que é alvo da cobiça de vários personagens, emprestando o aspecto fantasioso à narrativa. Mas, sem dúvida alguma, Into the Badlands foi imaginada como uma espécie de desculpa para se fazer uma série de artes marciais bem no estilo sessentista e setentista chinês e japonês, com membros cortados, cabeças decepadas, sangue jorrando como em chafarizes e muito malabarismo em coreografias espetaculares com e sem o uso do famoso wire-fu. Se existe um equivalente em termos cinematográficos, este seria Kill Bill – Volume 1, ainda que a obra de Tarantino, claro, seja muito superior ao trabalho de Gough e Millar.

No final das contas, essa aparente bagunça acaba funcionando graças a um design de produção cuidadoso e a roteiros que propositalmente lidam com um fiapo narrativo para abrir passagem para as lutas que são constantes e muito variadas, sempre com os punhos, pernas e armas brancas apenas, já que as armas de fogo, nesse futuro, foram convenientemente banidas. Em outras palavras, a série lida com essa liberdade criada pelo tal futuro distante para simplesmente não ter amarras históricas e não gerar expectativas no espectador, “inventando” regras na medida em que a história progride e, no processo, divertindo com a criatividade da pancadaria.

Nesse futuro, um vasto território que é presumivelmente os EUA, foi dividido em seis baronatos, o mais poderoso deles comandado por Quinn (Marton Csokas) que comanda a plantação, colheita e distribuição de papoulas e, portanto, drogas. Seu braço direito é Sunny (Daniel Wu), que tem o cargo de Regente, ou seja, o assassino-chefe do exército de Quinn, formado de Clippers. Enquanto o foco da narrativa é em Sunny e em M.K. que ele adota como seu Padawan (ou Colt, nesse universo), a geopolítica simplificada da série permite ótimas interações com os demais barões, especialmente a Viúva ou Minerva (Emily Beecham), baronesa não reconhecida como tal por seus pares por ter chegado a seu posto matando seu marido, o Barão, como seu apelido deixa entrever. O lado de empoderamento feminino é um tanto maniqueísta e óbvio, mas acaba combinando bem com as também simplificadas e pouco ambiciosas versões das consequências do uso do trabalho escravo, da divisão em feudos, da hierarquia familiar dentro do baronato de Quinn, da relação amorosa proibida de Sunny com Veil (Madeleine Mantock) e assim por diante. Em termos de “criação de universo”, os roteiros, todos eles escritos por Gough e Millar com ajuda de outros três especialistas, são suficientemente eficientes para tornar crível a experiência. Os anacronismos são interessantes e a lembrança de um passado longínquo e a promessa mítica de uma terra fora das chamadas badlands empresta, ainda que de maneira discreta, uma riqueza “tolkeniana” ao trabalho.

Mas talvez o mais interessante, além das lutas, seja a estética sofisticada da série. Belos figurinos – uma fusão de estilos, desde vestidos coloniais até uniformes de couro, passando por túnicas -, eficientes, mas espartanos cenários – também uma mistura entre o novo e o antigo e o novo-antigo, como a casa estilo sulista pré-Guerra Civil de Quinn e família – e o uso constante de uma fotografia que ressalta a paleta de cores primária, com os vermelhos vivos das papoulas refletido nos vermelhos opacos dos uniformes dos Clippers, sempre muito iluminada, garantem um apelo visual muito grande que encanta e de certa forma disfarça a repetição dos poucos cenários e o uso às vezes canhestro dos efeitos especiais para amplificar a sensação de vastidão desse mundo.

E, claro, o carro-chefe da série é mesmo sua coreografia de lutas. Criadas pelo produtor executivo Stephen Fung e o coreógrafo veterano de lutas de Hong Kong, Ku Huen-chiu, a intensidade de tudo o que vemos é realmente impressionante. Mas o espectador tem que estar ciente que estamos diante de uma espécie de revival dos clássicos “filmes de kung-fu” chineses de outros tempos, com pancadaria altamente estilizada, com golpes aparentemente destrutivos que causam poucos efeitos nas vítimas quando assim é de interesse do roteiro. São chutes, socos, corpos atravessando paredes e uma variedade quase infinita de armas brancas, das tradicionais espadas e facas até correntes e picaretas, além de shurikens em formato de borboletas, de forma que, a cada combate, uma novidade seja introduzida. Apesar das habilidades dos atores e dublês envolvidos – vale especial destaque para o americano de ascendência chinesa Daniel Wu e a anglo-americana Emily Beecham -, que efetivamente emprestam veracidades aos golpes, há muito wire-fu em uso, algo já tradicional nessa indústria e que gera momentos tão bons quanto risíveis, sempre dentro do espírito desse tipo de obra. Em termos comparativos, as lutas são tão destrutivas e poderosas e tão exageradas e impressionantes quanto em O Grande Mestre (Ip Man – 2008), que conta a história ficcionalizada do mestre de kung fu que treinou Bruce Lee.

Com apenas seis episódios, a narrativa é apressada, com muitos pequenos arcos sendo apresentados e resolvidos em sucessão, mas com um final completamente aberto em todas as suas frentes. Os vários cliffhangers, diria, são artifícios useiros e vezeiros em séries que, ainda em seu começo, querem firmar-se como uma alternativa ao que vem sendo ofertado por aí. No final das contas, Into the Badlands mostra potencial como um divertimento escapista, cortesia da fusão dos roteiros costumeiramente rasos de Gough e Millar e do apuro técnico marca da AMC.

Into the Badlands – 1ª Temporada (EUA, 2015)
Criadores e showrunners: Alfred Gough, Miles Millar
Direção: David Dobkin, Guy Ferland
Roteiro: Alfred Gough, Miles Millar, Justine Juel Gillmer, Michael Jones-Morales, Justin Doble, Michael R. Perry
Elenco: Daniel Wu, Orla Brady, Sarah Bolger, Aramis Knight, Emily Beecham, Oliver Stark, Madeleine Mantock, Ally Ioannides, Marton Csokas, Ellen Hollman, Stephen Lang, Lance Henriksen
Duração: 258 min. (aprox.)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.