Crítica | Intolerância (1916)

estrelas 5,0

Como muito bem explicou o Luiz Santiago em sua crítica de O Nascimento de uma Nação, não foi D.W. Griffith quem formalmente criou o que se poderia chamar de épico cinematográfico. Essa honra fica com o italiano Enrico Guazzoni e seu Quo Vadis, de 1912. No entanto, foi Griffith que com sua visão, qualidade técnica e sim, megalomania, estabeleceu as regras narrativas para esse tipo de filme que tem como objetivo maior deslumbrar por sua eloquência e detalhismo suntuoso.

Intolerância é uma daquelas obras que qualquer apreciador de verdade de Cinema, esse aí com “C” maiúsculo mesmo, precisa assistir pelo menos uma vez na vida. Não é um filme fácil de se ver e não é necessário gostar dele. Basta assistir e tentar compreender o escopo da empreitada de Griffith apenas um ano depois de seu polêmico O Nascimento de uma Nação. Na verdade, Intolerância nasceu muito menor, com uma história contemporânea apenas intitulada The Mother and the Law (A Mãe e a Lei), mas o gigantesco sucesso de seu filme anterior aliado às críticas severas que recebeu pelo inegável racismo contido na fita, fez com que o produtor, roteirista e diretor quadruplicasse sua ambição, que passou a conter quatro narrativas que reúnem 2.500 anos de História do Mundo em um trabalho magnífico de entrelaçamento e de estudo sobre a “intolerância” sob as mais diversas formas, algo que ele próprio entendia ter sido alvo em razão de seu trabalho de 1915. Mas há que se deixar muito claro que Intolerância não é e nunca foi um pedido de desculpas em razão de O Nascimento de uma Nação. Griffith afirmou isso em entrevistas à época e, de fato, não há nada em seu épico que “desfaça” o que sua visão impossível de aceitar legou para o mundo no ano anterior.

Mas, sob qualquer ótica, Intolerância é um triunfo narrativo, uma produção espetacular que consegue eclipsar até mesmo obras monumentais que viriam décadas depois como Cleópatra e Ben-Hur em termos de escala, suntuosidade e até mesmo técnica. No entanto, o espectador moderno, mesmo o mais ávido e eclético apreciador de filmes, precisa ter paciência e tranquilidade para assistir as quase três horas de projeção (há outras versões, algumas até 20 minutos mais longas, mas em razão da velocidade do frame rate da fita em si, não pela adição de conteúdo – a versão objeto da presente crítica é a “Killiam Shows”, de 176 minutos), além de uma mente programada para ver muito mais um momento marcante e fundamental da História do Cinema do que um “filme comum”.

As quatro histórias contadas de forma entrecortada ao longo de toda a duração do filme são, em ordem cronológica:

– Ano 539 a.C. – Na Babilônia, um conflito religioso leva à guerra entre o Rei Nabonido (Carl Stockdale) e seu filho, o Príncipe Belsazar (Alfred Paget) e Ciro, o Grande, da Pérsia (George Siegmann), o que resulta na Queda da Babilônia e o fim de sua independência. A história, baseada em fatos reais, é vista sob o ponto de vista da Moça das Montanhas (Constance Talmadge), levada por seu irmão para o “mercado de noivas” na cidade e que acaba se apaixonando pelo príncipe e lutando em seu exército.

– Ano 27 a.C. – A história de Jesus Cristo, o Nazareno (Howard Gaye) – do primeiro milagre até sua crucificação – que ganha enfoque reduzido.

– Ano 1572 d.C. – Massacre da Noite de São Bartolomeu, na França, em que Caterina de Médici (Josephine Crowell)  fomenta os católicos a assassinar os protestantes huguenotes.

– Ano 1914 d.C. – O foco principal do filme e única história fictícia, ainda que baseada em questões sócio-políticas até hoje relevantes. Nela, a Doce Menina e o Rapaz enfrentam o preconceito e a hipocrisia puritana para sobreviver e criar seu filho, depois que uma greve e suas consequências obrigam suas respectivas famílias a se mudarem de cidade.

Apesar de os primeiros 40 minutos de narrativa serem complicados e até cansativos, quando as quatro histórias finalmente engrenam, elas funcionam muito bem, uma comentando a outra, com direito a interlúdios que mostram uma mulher “eterna” (Lillian Gish, uma das mais famosas atrizes da época) balançando um berço que funciona como a passagem de tempo, a perenidade da civilização, a manutenção de seus erros e maneirismos e, também, um quê de esperança no futuro. Na medida em que o filme progride, o impressionante trabalho de montagem pelo próprio D.W. Griffith com seus parceiros James e Rose Smith, intensifica o passo, com transições que nos fazem “pular” de uma história para outra com mais constância, com uma cadência cada vez mais apertada, culminando em um clímax quádruplo que até hoje pessoalmente me espanta não só por ter sido sem precedentes reais na época, como até hoje ser difícil de encontrar algo que rivalize o resultado final alcançado aqui.

O design de produção, que também ficou ao encargo de Griffith (ele era um daqueles diretores que micro-gerenciavam suas obras), e que conta com a direção de arte de Walter L. Hall, é de fazer o queixo cair. Foi o filme mais caro de sua época, batendo o recordista anterior que, não surpreendentemente, era O Nascimento de uma Nação. Custou a bagatela de 2 milhões de dólares, contou com 4 mil extras e cenários construídos em tamanho real que permaneceram montados um bom tempo após o filme fracassar retumbantemente na bilheteria, tornando-se um dos primeiros flops multimilionários de Hollywood. Mas vê-se muito claramente onde foi cada centavo do dinheiro. Desde figurinos de época extremamente detalhados até cenários de dezenas de metros de altura (o mais famoso deles ilustra a presente crítica e foi reconstruído, em parte, como elemento decorativo de um shopping center aberto em Hollywood (o Hollywood & Highland, complexo onde apropriadamente encontra-se o Dolby Theater, que sedia a cerimônia do Oscar e que também contém o Chinese Theater, um dos mais icônicos cinemas da cidade, onde há as famosas “pegadas” e “mãos” no cimento de atores e atrizes das mais variadas épocas), tudo foi pensado em minúcias que permitem a imersão completa do espectador em um inebriante espetáculo de grandiosidade e exagero.

Mas espetacular mesmo é a fotografia de G.W. Bitzer, o favorito de Griffith. Usando constantemente a profundidade de campo completa ou, como é mais comumente conhecida, o “foco profundo”, Bitzer amplifica a sensação que o diretor quer passar com seu épico. Se Orson Welles um dia faria Cidadão Kane, sua obra máxima, ele muito deve ao diretor de fotografia de Intolerância por seu hercúleo esforço em manter tudo em foco o tempo todo, seja o primeiro, segundo, terceiro até quarto planos. Reparem em cada cena, com calma, como tudo chama os olhos e como são sutis os sinais do que prestar mais atenção. A objetiva é fechada em determinados momentos, o que torna tudo  mais fácil, mas a angulação da câmera e linhas naturais quase invisíveis chamam a atenção de nossos olhos, demonstrando o completo controle da câmera por Bitzer e um extremo detalhismo de Griffith que, apesar da riqueza de cada sequência, não se perde e não deixa o espectador se perder.

É particularmente incrível as sequências em que, com câmera parada posicionada exatamente em cima do muro da Babilônia, Griffith e Bitzer nos mostram os dois lados da guerra. A aparente confusão histérica no interior e a organização militar no exterior. Lembram das batalhas épicas na Trilogia O Senhor dos Anéis? Pois é dessa fonte aqui que Peter Jackson bebeu. Mas essa fonte também inspirou fortemente o cinema americano e europeu, com os grande Erich von Stroheim e King Vidor, além de outros, tendo feito pontas no épico, algo que certamente pavimentou suas respectivas carreiras. Até mesmo o russo Sergei Eisenstein, o grande cineasta e teórico do Cinema que revolucionou de sua maneira a Sétima Arte foi influenciado diretamente por Intolerância, mesmo com seu fracasso financeiro que Griffith carregaria como um fardo psicológico e efetivo o resto da vida.

Intolerância é, sem dúvida alguma, um dos mais importantes filmes já feitos. Uma obra de tirar o fôlego e capaz de colocar em perspectiva muita coisa que se faz no Cinema hoje em dia. Deixar de ver esse filme é fechar os olhos para uma importante fatia da história da Sétima Arte.

Intolerância (Intolerance: Love’s Struggle Throughout the Ages – EUA, 1916)
Direção:
 D.W. Griffith
Roteiro: D.W. Griffith, Anita Loos
Elenco: Lillian Gish, Mae Marsh, Robert Harron, Mary Alden, Fred Turner, Miriam Cooper, Walter Long, Tom Wilson, Margery Wilson, Eugene Pallette, Spottiswoode Aitken, Ruth Handforth, Allan Sears, Josephine Crowell, Constance Talmadge, Elmer Clifton, Alfred Paget, Seena Owen, Tully Marshall, George Siegmann, Howard Gaye, Lillian Langdon, Bessie Love, George Walsh, Douglas Fairbanks, Erich von Stroheim, King Vidor, Mildred Harris, Tod Browning
Duração: 177 min. (versão restaurada e versão “Thames Silents”), 176 min. (versão “Killiam Shows”), 197 min. (versão “Kino”), 163 min. (versão “Public Domain Flicks”), 210 min. (versão original)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.