Crítica | Introdução ao Documentário, de Bill Nichols

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Introdução ao Documentário é um livro intenso para leigos e estudiosos. Para quem nunca leu nada teórico sobre o assunto, o material é didático e utiliza uma linguagem longe do hermetismo. Para quem é da área, o texto de Bill Nichols se torna um guia para produção, com conceitos bem delineados e análise que dialoga com a estética e o contextual.  Publicado no Brasil pela Editora Papirus, com tradução de Mônica Saddy Martins, Introdução ao Documentário está em praticamente todos os planos de ensino ou artigos que discutem os desdobramentos da evolução histórica do documentário.

Segundo Nichols, todo filme é um documentário, pois evidencia a cultura que o veiculou enquanto produção. No entanto, há dois tipos de documentários: os de entretenimento (chamados de ficção) e os de representação social (não definidos como ficcionais). Simplificando: Era Uma Vez, de Breno Silveira, e Notícias de Uma Guerra Particular, de Kátia Lund e João Moreira Salles. Enquanto o primeiro é uma ficção que “documenta” a violência do Rio de Janeiro e a questão do tráfico, das drogas e do abismo entre as classes sociais, por meio de uma narrativa ficcional, inspirada no texto renascentista Romeu e Julieta, de Shakespeare, o segundo segue a mesma linha narrativa, mas com “personagens sociais”, reais, mesmo que representem por alguns instantes, compactuam com o contrato de representar fielmente algo de cunho social/real.

Nichols é enfático. Por mais que o documentário esteja dentro de uma tradição do real, pode também ser considerado um gênero de representação do mundo em que vivemos. Ao longo de suas 336 páginas, o leitor encontra um diálogo bem fundamentado com a semiologia, além da retórica e da política. Há ainda espaço para a antropologia e os estudos culturais. Conforme avançamos, percebemos que Nichols dialoga com a semiologia postulada por Christian Metz, teórico de linha francesa que aplicou elementos da semiologia de Saussure no processo de análise fílmica.

Sempre a salientar que não se deve confundir forma estilística com modo, define que os documentários podem ser pensados dentro de um esquema que oferta o modo expositivo (permeado por comentários e argumentação), participativo (reforça a interação entre cineasta e tema), observativo (praticamente voyeur, olha discretamente o tema representado), reflexivo (refletem as próprias convenções do gênero documentário), performático (a relação subjetiva do cineasta com o tema e a relação do público com este engajamento) e poético (enfático nas questões visuais e tonais).

Com afinco, o livro se organiza por meio de questionamentos sobre ética, tipos de vídeos e filmes, além da necessidade de compreensão dos elementos que diferenciam um documentário e um filme classificado como de ficção. O autor coloca que a tradição do documentário permitiu que a ideia de autenticidade no que era transmitido fosse ganhando raízes cada vez mais profundas, o que levou o campo de produção a se obrigar a refletir quando está diante de uma produção que se define como documentário, mas flerta deliberadamente com a noção de representação, o que reforça a ideia de representar como algo que se origina de um mecanismo construído, não natural e autêntico.

Numa ótica delimitada: uso de atores sociais, voz de Deus (narração), som direto e a lógica informativa. Estas seriam as características que geralmente definem um filme documentário. Para deixar as suas ideias mais amarradas, Nichols afirma que é preciso compreender que os documentários dialogam com cinco partes dos estudos retóricos: a invenção (os indícios que podem sustentar um argumento), a elocução (uso de elementos gramaticais e figuras de linguagens para expressar as ideias), a disposição (a ordenação das partes de um discurso retórico), a memória (a fonte memorialística do documentário) e a pronunciação (a forma como os gestos e vozes são expostos).

Dentre outros destaques, Nichols afirma que é importante refletir o entrelaçamento entre a história do cineasta, do público receptor e do filme em si. Ao tentar nos convencer e persuadir, os documentários surgiram do interesse da humanidade em explorar os limites possíveis do cinema e descobrir como apresentar novas formas ainda não testadas, algo gerado do desejo primitivo do cinema em focar na captação do cotidiano, tal como podemos ver nos “clássicos” A Chegada do Trem na Estação e A Saída dos Operários da Fábrica, dos Irmãos Lumiere.

As discussões éticas e políticas das intervenções sociais dos documentários na sociedade podem ser consideradas os principais pontos de contribuição do livro de Bill Nichols para o campo em questão. Há também um eficiente exercício de categorização que nos propõe um direcionamento ao estudar os documentários, gênero tão cheio de imprecisões quando adentramos no terreno da conceituação.

Introdução ao Documentário (Estados Unidos, 2010)
Autor: Bill Nichols
Editora no Brasil: Papirus
Tradução: Monica Saddy Martins
Páginas: 336

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.