Crítica | Inumanos – 1X05: Something Inhuman This Way Comes…

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Inumanos parece ser não muito mais do que um repositório de clichês mal utilizados e mal desenvolvidos. Considerando o assunto macro da série, um golpe de estado que exila uma família real lunar super-poderosa no Havaí, seria de se imaginar que os roteiros tentassem trafegar por caminhos menos óbvios do que a raspa do tacho da narrativa televisiva. Mas não, pois, aparentemente, a Marvel/ABC acredita que oferecer algo um pouco mais complexo e sutil seria exigir demais de seus espectadores.

Something Inhuman This Way Comes…, título retirado de um compilado que reuniu histórias dos Inumanos que tematicamente se relacionam com o episódio, só não é mais um fracasso total na série em razão da direção do sempre ótimo Kevin Tancharoen, que consegue imprimir algum ritmo à narrativa fragmentada da série. No entanto, ele não consegue fazer milagre com o roteiro dolorosamente amador de Scott Reynolds que insiste em ser didático ao extremo e em criar situações desconcertantes para os personagens.

Reparem, por exemplo, na quantidade de vezes que a relação dos primos Karnak e Gorgon é mencionada. Entendo perfeitamente que esse seja o tema principal do episódio, mas daí a Reynolds sentir a necessidade de pegar na mão do espectador e fazê-lo ouvir repetidas vezes que Karnak é o cara que não erra e Gorgon é o cara que só faz besteira – ou imbecilidade mesmo, pois aquele flashback da bandeira americana na lua foi de lascar -, com o primeiro se contorcendo para aceitar sua nova condição menos do que perfeita e o segundo tentando ser como o primeiro, é uma postura de revirar os olhos. E isso tudo, claro, debaixo da asa do relacionamento amoroso mais desnecessário que a História das Séries de TV já viu.

Mas como se não bastasse o cuti-cuti entre Karnak e uma moça genérica que, no final das contas, mesmo ferida e perdida na mata, o abandona sem cerimônias, há a trama envolvendo os plantadores e traficantes de maconha. Primeiro, a transformação de um deles em um assassino serial enfurecido não faz o menor sentido. Segundo, a chegada dos traficantes é conveniente demais na estrutura do episódio e isso sem contar com o grau de violência dos sujeitos. Afinal, temos que lembrar que estamos falando de maconha, não algo mais sofisticado ou caro como cocaína ou heroína. E tudo isso em uma trama auto-contida que não avança em nada a história maior a não ser para servir de palco à reunião de quase toda a família real finalmente.

Falando em quase toda, será que eu preciso dizer o quão ridículo é o quase namorico de Crystal com o surfista malhado? Agora que o amor da vida de Karnak o deixou, será que teremos que aturar a patética tentativa de se reeditar o relacionamento entre Crystal e o Tocha Humana nos quadrinhos? Porque sério, vamos concordar que o Garotão Hang Loose Carpe Diem ali não lambe as botas de qualquer versão de Johnny Storm, não é mesmo?

Independente de meus comentários jocosos, repararam, porém, como o uso de clichês é algo recorrente? Precisamos mesmo de um segundo relacionamento assim tão cedo na série? E o mesmo vale para personagens descartáveis como Locus. Sua função era tornar mais claro ainda para nós que Maximus, o vilão, não é exatamente tão vilão assim. Afinal de contas, é por intermédio dela que aprendemos que, graças à ditadura da terrigênese, os poderes obtidos determinam o futuro da pessoa, arrancando-lhe qualquer possibilidade de livre arbítrio, algo que Maximus, aparentemente, quer mudar e que, mesmo o roteiro fazendo malabarismos para relativizar, não consegue nem de longe. Ou seja, ou Raio Negro é um completo incompetente em seu reinado ou ele concorda com o determinismo biológico imposto pela casta dita superior. Ah, e uma vez passada a informação, Locus imediatamente morre, pois é assim que se faz quando não se tem ideia do que fazer com determinado personagem, depois que ele é usado como um guardanapo descartável…

Finalmente, acho que cabe um comentário sobre a escolha narrativa de se impedir – com exceção de Gorgon – que os Inumanos usem seus poderes. Sim, isso acontece para “humanizá-los” se pensarmos dentro da história e, principalmente, para manter o orçamento controlado se procurarmos entender o fator exógeno principal para a escolha narrativa. No entanto, o problema com esse tipo de clichê – “seres super-poderosos perdem seus poderes e têm que se virar sem eles” – é que, para ele funcionar de verdade, temos que ver tais seres super-poderosos sendo super-poderosos. Humanizar significa trazer para o nosso nível personagens que, para nós, são deuses. Se, porém, não sabemos o que exatamente é ser um deus, se não os vemos agindo de acordo, toda a construção narrativa torna-se vazia. Imaginem vocês se, por exemplo, no primeiro filme do Superman, ele perdesse seus poderes logo no início? Ou se Homem de Ferro 3, que é sobre o homem por trás da armadura, fosse o primeiro filme da franquia? Jamais saberíamos o que esses personagens tinham e perderam e é exatamente isso que acontece aqui, o que acaba tornando esse artifício algo muito obviamente criado para manter a série dentro de uma patamar financeiro bem modesto, o que é refletido a cada novo episódio.

Com isso, o que poderia ser grandioso, torna-se rasteiro. O que poderia ser instigante, torna-se morno e cansativo. O que poderia ser diferente, torna-se clichezão mal feito, óbvio e batido. Uma pena, pois havia contornos de uma boa história por trás de toda a premissa da série.

Inumanos – 1X05: Something Inhuman This Way Comes… (EUA – 20 de outubro de 2017)
Showrunner: Scott Buck
Direção: Kevin Tancharoen
Roteiro: Scott Reynolds
Elenco: Anson Mount, Iwan Rheon, Serinda Swan, Eme Ikwuakor, Isabelle Cornish, Ken Leung, Sonya Balmores, Mike Moh, Nicola Peltz, Ellen Woglom, Henry Ian Cusick
Duração: 42 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.