Crítica | Inumanos – 1X07: Havoc in the Hidden Land

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

O penúltimo episódio da primeira temporada de Inumanos mostra mais uma vez que o conceito por trás da história que vemos se desdobrar nas telinhas (e nas mega-telonas, se contarmos com os dois episódios costurados como um longa do IMAX, parte de uma estratégia de marketing completamente equivocada), tinha todos os predicados para render frutos, mesmo com seu baixo orçamento. O que realmente atravanca a série, mais do que o elenco limitado ou a bobagem que é arrumar desculpas esfarrapadas para ninguém usar poderes, são os roteiros que parecem ser escritos por estagiários ainda cheirando a leite que não têm o menor domínio da mídia para a qual escrevem seus textos.

Reparem nos dois plot twists do episódio: tanto Raio Negro quanto Maximus tinham planos secretos. Não só a repetição do artifício em si demonstra a limitação da imaginação de Quinton Peeples (ou melhor, de Scott Buck, o showrunner), como a execução das revelações é atabalhoada, completamente tiradas da cartola, como se lógica interna fosse algo que simplesmente não interessasse.

Raio Negro e sua trupe são “cachorrotransportados” para o conveniente bunker secreto que só o rei conhecia (aliás, repararam que, agora, Dentinho do nada tem precisão nos teletransportes e que Karnak magicamente ganhou seus poderes de volta?), depois de ele revelar que o desaparecimento de Triton ao longo de toda a série também fazia parte de seu nada mirabolante plano para reverter o status quo. Mas o melhor é que o bunker em si não serve para absolutamente nada, pois, se eles tivessem resolvido se esconder na suíte nupcial real, o efeito seria basicamente o mesmo. Mais ainda, nem bunker nem suíte eram realmente necessários, já que Raio Negro poderia ter feito tudo o que fez – inclusive infiltrar Triton na cidade – indo e voltando para a Terra.

Nesse mesmo diapasão, descobrimos que o inumano aquático é, basicamente, um black ops – ou talvez green ops, he, he, he… – que passou seis episódios se recuperando de um ferimento para vir à tona como uma prancha de surfe motorizada (vai, convenhamos que aquela cena dele chegando na praia foi um efeito prático digno de filme do Ed Wood) depois de ser chamado pelo ganido de um cachorro gigante e que consegue por uma cidade inteira abaixo sozinho em questão de horas sem que ninguém perceba um ser verde andando de um lado para o outro. Mas, como tudo cai debaixo do conceito de “plano secreto”, então qualquer coisa vale, mesmo sendo idiota, ilógica e, francamente, um insulto aos espectadores.

Mas os problemas não param por aí. O momento de negociação entre os irmãos foi uma construção anti-climática que chega a dar dó se fazia mesmo parte dos planos de Raio Negro. E isso, porque nem mesmo estou comentando os cenários espartanos risíveis que não escondem a premissa da ABC e Marvel de produzir Inumanos com o troco do cafezinho das reuniões dos roteiristas. Vemos umas duas dezenas de figurantes, algumas bandeiras, pedras brancas e pretas no chão e… só. Já vi direção de arte de série e filmes com orçamentos bem mais frugais com qualidade muito superior e, para isso, nem é preciso ir muito longe.

E a revelação da existência de um plano de contingência de Maximus, que ganha o mesmo nível de preparação do plano-mestre de Raio Negro, é outro momento daqueles de revirar os olhos, que poderia – deveria! – ter sido construído com mais urgência e força. Do jeito que ficou, são só dois irmãos no vestiário masculino competindo para ver quem tem o bingulim maior.

Mas uma coisa preciso salientar: a pedido ou não de Scott Buck, Peeples conseguiu inserir pelo menos dois momentos que mostram a auto-consciência da série sobre suas patéticas limitações. O primeiro deles é quando Medusa começa aquele discurso horroroso dizendo que ela é rainha, que precisa participar das decisões e blá, blá, blá. Em determinado ponto, ela solta que ela não é só a intérprete de Raio Negro o que, convenhamos, é exatamente o que ela tem sido desde o início da série. É algo assim: “Ih, o rei quer falar. Chama a carequinha ali para traduzir os gestos aleatórios debaixo daquela expressão facial de constipação total, já que ela só serve para isso mesmo”.

O outro momento auto-consciente é quando Declan olha para a câmara de terrigênese e diz que ela se parece com uma cabine telefônica. Esse foi o exato pensamento que tive segundos antes, com toda aquela história de Karnak convencendo Auran a ajudá-lo a reviver Gorgon com uma segunda terrigênese. E, para completar o momento cômico que me fez rir alto, Maximus retruca todo solene que “é muito mais do que uma cabine telefônica” ou algo do gênero. Afinal, claro, o Inumano cujo poder é ser humano (inserir risada histérica aqui) e que nunca colocou os pés na Terra saberia o que é uma cabine telefônica, não é mesmo? Se minha filha mais nova não sabe mais o que é uma, imagina um semi-extraterrestre?

Ah, caso alguém queira que eu comente em mais detalhes sobre a ressuscitação de Gorgon, pode esquecer. Aquilo ali foi a cereja podre no bolo solado. Toda a coragem demonstrada no já fraco The Gentleman’s Name is Gorgon foi para o ralo com essa brincadeira.

Sei que não parei de falar mal do episódio, mas, aqui, gostaria de voltar ao início, quando afirmei que ele mostra que a série tinha uma premissa que poderia ter dado certo se tivesse sido mais bem desenvolvida. Não é a primeira vez que digo isso, mas, quando Havoc in the Hidden Land acabou, essa certeza voltou forte à tona. Golpe de estado, família real super-poderosa exilada na Terra, um vilão cujos objetivos (antes da revelação de que ele não passa de um egoísta mimado) faziam sentido e colocavam em xeque a estrutura sócio-política de Attilan, manipulação genética da terrigênese, inconformidade com a herança genética e outros elementos me permitiram parar, fechar os olhos e reimaginar pelo menos esse episódio de forma completamente diferente, estabelecendo comentários sociais e políticos relevantes no embate entre os irmãos e trazendo questões morais, éticas e até religiosas sobre a proposta da segunda terrigênese, com a “escolha” de poderes. E esse exercício quase involuntário de alguns minutos após os créditos terminarem de rolar me deixou triste. Uma tristeza que fica ainda mais profunda quando lembro do material em quadrinhos relacionado com os Inumanos que existe por aí, mesmo nunca tendo sido um grande fã deles.

Havoc in the Hidden Land poderia ter sido uma luz no fim do túnel para a série, mas Scott Buck parece que tem como propósito emburrecer suas narrativas ao máximo possível. Espero que, um dia, vejamos a família real inumana ganhar a adaptação live-action que merece.

Inumanos – 1X07: Havoc in the Hidden Land (EUA – 03 de novembro de 2017)
Showrunner: Scott Buck
Direção: Chris Fisher
Roteiro: Quinton Peeples
Elenco: Anson Mount, Iwan Rheon, Serinda Swan, Eme Ikwuakor, Isabelle Cornish, Ken Leung, Sonya Balmores, Mike Moh, Nicola Peltz, Ellen Woglom, Henry Ian Cusick
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.