Crítica | Inumanos – 1X08: …And Finally: Black Bolt

…And Finally: Black Bolt

Temporada

  • Há spoilers. Leiam, aqui, as críticas dos demais episódios.

Confesso que não sei exatamente por onde começar…

Mas deixe-me tentar daqui: em determinado ponto de …And Finally: Black Bolt, Maximus diz que seu plano é fazer uma segunda terrigênese e, então – e eu cito palavra por palavra -, “liderar toda Attilan até a Terra, como um exército conquistador”. Uau, bacana. Ameaçador, não?

No entanto, não demora muito e, quando a família real prepara a evacuação de Attilan, Medusa revela que a população inteira de lá é composta de 1.400 pessoas. Daí vem a conclusão clara de que o sensacional plano maligno de Maximus é atacar a Terra com 1.400 “soldados”, dentre eles mulheres, crianças, idosos, paredes e cachorros teletransportadores, certo? E se alguém mais afobado levantar a mão para dizer que eles têm poderes, o que lhes dá vantagem sobre os meros humanos, por favor revejam a temporada (se tiverem coragem ou forem masoquistas) e me digam então porque raios NINGUÉM, absolutamente NINGUÉM fora a família real inumana e Auran, demonstram algum tipo de poder na Terra ou mesmo em Attilan? Até a guarda de Maximus jamais demonstrou qualquer traço fora do normal, só sabendo usar armas de raio, além de apanhar como boi ladrão de qualquer um que passa por eles, especialmente o literal peixe fora d’agua Triton e suas faquinhas mais rápidas que pulsos de energia. Então não, não dá para, sequer por um segundo, emprestar uma nesga sequer de credibilidade para tamanha bobagem que esse episódio final tentou vender a seus espectadores incautos…

Mas vamos imaginar que isso aí tenha sido alucinação coletiva e que não aconteceu realmente. Finjamos que o plano de Maximus era simplesmente teletransportar os attilanianos para a Terra e reunir os novos inumanos que estão surgindo por aqui em uma lenta, mas certeira construção de um exército para um dia, quem sabe, colocar em funcionamento uma variação minimamente aceitável de seu plano imbecil. Bem, mesmo que fizéssemos esse esforço mental (e aviso logo que esse exercício dói…), o resultado do season finale ainda seria pífio. E isso para usar um eufemismo.

São tantos os problemas do encerramento da temporada que seria mais econômico se eu os enumerasse rapidamente abaixo, mas quem me acompanha aqui no site sabe que não sou lá muito capaz de escrever pouco, um defeito que tento corrigir, mas não consigo. Portanto, não tem jeito e terei que abordar o que incomodou tremendamente.

Para começar, Declan, que era o peão humano de Maximus, responsável por todas as experiências com os novos inumanos na Terra e pela almejada segunda terrigênese no irmão invejoso de Raio Negro, é morto sem dó nem piedade por um Gorgon na versão Mr. Hyde. Em outras palavras, um personagem particularmente importante – ou pelo menos era isso que fomos levados a acreditar que ele era – foi defenestrado da série como se ele nunca tivesse existido, em uma decisão narrativa que revela mais uma vez que Scott Buck não tinha um planejamento muito claro do caminho que queria seguir. Afinal, Declan é apenas o mais recente personagem a ser limado, já que o Loiro Hang Loose de Crystal, a morena genérica pegadora de Karnak e o novo inumano melhor amigo de Raio Negro sumiram, com Louise somente reaparecendo agora, neste episódio, com um objetivo tão surreal que só consegui rir dele, mas eu chego lá.

O próprio Gorgon enlouquecido é de trincar os dentes, uma vez que Eme Ikwuakor já havia levado o Troféu Ritter Fan de pior  ator da série, com chances de abocanhar o de pior ator da TV como um todo em 2017. Ele bufando como o Lobo Mau dos Três Porquinhos foi tão vergonhoso quanto a decisão estúpida do roteiro de fazer com que Karnak deixasse evidente que a câmara em que os dois estavam foi desenhada por ele para conter o mais poderoso dos inumanos, bastando duas ou três patadas de Gorgon segundos depois para todo o cenário de isopor desmoronar. Será que Buck ou Rick Cleveland e Scott Reynolds não têm o menor senso de construção narrativa? (a pergunta é retórica, apenas)

Ah, ainda falando de Karnak e Gorgon, repararam na inabilidade do roteiro em transmitir suas ideias de maneira econômica como exige um episódio de duração regulamentar de uma série? Um exemplo claro disso é a quantidade de vezes que Karnak diz, com tom pesaroso, quase querendo se chicotear, que ele fez uma segunda terrigênese em Gorgon sem autorização, como se cada membro de sua família não pudesse deduzir isso de imediato somente vendo o grandalhão cascudo agindo como o monstro de Frankenstein. Se ninguém contou, eu contei: foram quatro repetições de quase exatamente as mesmas frases, passando as mesmas informações, em um intervalo de 15 minutos. Obrigado, Buck  e companhia. Nós, espectadores burros, vamos agora escrever no quadro-negro a mesma coisa uma 150 vezes só para não esquecermos…

O que poderia ser o ponto alto do episódio, a interação belicosa entre Raio Negro e Maximus, continua na mesma linha do episódio anterior, com os dois se bicando como as crianças mimadas que são. Colocando em execução seu plano secreto descontrolado de ameaçar o irmão com a destruição da redoma que protege a cidade, Maximus é a antítese completa do semblante de um vilão de moral dúbia que Iwan Rheon começou a construir na série, permitindo que os espectadores até mesmo compreendessem seu lado, o que automaticamente colocava em xeque a monarquia de Attilan. No entanto, agora, Maximus é, tão somente, um vilão padrão que, para ficar completo, só faltou uma risada maníaca com as mãos na barriga.

Mas o pior é o outro segredo tirado da cartola de Raio Negro. Se eu já havia reclamado da ameaça de Maximus e do plano de contingência que só Raio Negro conhecia, usando um bunker antigo que mais parece uma loja de departamentos da Coréia do Norte, a revelação velada de que há um inimigo secreto dos inumanos que só o rei conhecia é um típico desenvolvimento barato de série mequetrefe pega-trouxa. No lugar de trabalhar essa informação vagarosamente desde o começo, ela surge literalmente do nada, somente para criar o cliffhanger para temporadas futuras que, espero sinceramente, nunca vejam a luz do dia. Fico até com preguiça de especular que ameaça seria essa. Krees? Skrulls? Celestiais? Dr. Gori? Esqueleto?

Há, ainda, um caminhão de outros problemas no episódio, todos eles pequenos se vistos isoladamente, mas que ficam enormes em seu conjunto. São coisas como (1) a constatação de que TODOS os cristais de terrigênese de Attilan estavam naquela maletinha mixuruca; (2) a patrulha de Maximus mostrar-se incrivelmente incompetente, pois deixam a família real fazer um discurso longo à luz do dia nas ruas da cidade; (3) Louise, com a ajuda de seu superior aleatório que menciona outro superior aleatório, conseguir providenciar literalmente em 15 minutos um lugar para 1.400 seres em tese super-poderosos se aninharem na Terra e (4) este mesmo superior aleatório espantar-se com um cachorro teletransportador em um mundo em que os Vingadores lidaram com uma invasão alienígena, Ultron destruiu Sokovia, o Hulk pôs o Harlem abaixo, inumanos novos surgem todos os dias e coisas do gênero.

E isso pois nem mesmo abordarei a (in)utilidade de Crystal e a revelação de que uma sílaba falada por Raio Negro pulveriza seus pais, mas que uma frase inteira dita por ele apenas põe abaixo a fachada de um prédio, pois estou me sentindo benevolente hoje. Mas uma coisa não poderia deixar de fora: foi Scott Buck quem copiou a frase “Attilan é seu povo” de Thor: Ragnarok ou vice-versa? Porque não foi coincidência. Será que Nova Asgard e Nova Attilan serão como bairros vizinhos flutuando sobre a Terra?

No fundo, no fundo, o pior de tudo mesmo é constatar algo que usei como abertura de minha crítica anterior: a premissa da série tinha potencial. Mesmo aqui, em …And Finally: Black Bolt, é perfeitamente possível entrever uma boa história sendo enlameada por um showrunner que não sabe o que tem em mãos e por roteiros amadores muito mais preocupados em tratar os espectadores como bobalhões do que apresentar algo que no mínimo estabelecesse uma razoável lógica interna.

A primeira temporada de Inumanos só não foi pior, pois foi curta. Imaginem vocês essa bobajada multiplicada por três se fosse uma temporada regulamentar. Seria uma competição duríssima com outra pérola televisiva, aquela com um sujeito que se veste de verde e pula pelos telhados de prédios atirando flechas luva-de-boxe em seus inimigos…

Inumanos – 1X08: …And Finally: Black Bolt (EUA – 10 de novembro de 2017)
Showrunner: Scott Buck
Direção: Billy Gierhart
Roteiro: Rick Cleveland, Scott Reynolds
Elenco: Anson Mount, Iwan Rheon, Serinda Swan, Eme Ikwuakor, Isabelle Cornish, Ken Leung, Sonya Balmores, Mike Moh, Nicola Peltz, Ellen Woglom, Henry Ian Cusick
Duração: 44 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.