Crítica | Invasão a Londres

estrelas 1,5

Se o predecessor de Invasão a Londres, Invasão a Casa Branca, não se apresentou nem de longe como uma produção para se levar a sério, seu apelo comercial, que resultou em uma bilheteria mundial de US$ 161 milhões, conquistou sinal verde para esta sequência, no mínimo tão dispensável quanto o longa original. Não se engane, aliás: trata-se do tipo de produção que, tal qual a anterior, segue, ou pelo menos parece seguir, uma receita plenamente ciente do que faz, o que talvez possa se considerar pior do que um trabalho que ao menos erra pela tentativa em acertar.

Na trama, o Primeiro Ministro britânico morre repentinamente, durante o sono. Com isso, líderes mundiais em peso são convocados para seu funeral. Como bom americano, o presidente Benjamin Asher (Aaron Eckhart) faz questão de marcar presença, apesar do desconforto de seu segurança, Mike Banning (Gerard Butler), com os riscos de uma viagem tão súbita. Não demora, de fato, para que a ansiedade de Banning se prove pertinente, quando uma série de ataques terroristas têm início na cidade, matando e destruindo líderes mundiais e monumentos ingleses a valer. Como bom profissional, Banning consegue garantir a sobrevivência do presidente à leva de ataques, mas os bandidos estão decididos a capturar o líder e a matá-lo ao vivo, para todo mundo ver na internet. Sozinho e sem comunicação, cabe, pois, a Banning sobreviver com o presidente em plena Londres.

Parece empolgante? Na certa, mesmo com tal viés político, poderia sê-lo, ou chegar perto disso, se o roteiro pelo menos se esforçasse para não ser tão idiota. Sim, idiota é mesmo a palavra ideal quando, na melhor das hipóteses, apresenta líderes mundiais estereotipados – o francês com ar de superior, o italiano e sua amante – e, na pior, rotula cada autoridade como mesquinha ou imbecil e os norte-americanos como os modelos a serem seguidos. É realmente triste sempre que um bom elenco, aqui com nomes como Morgan Freeman, Melissa Leo, Robert Forster, Jackie Earle Haley e Radha Mitchel, participa desse nível de produção. Na verdade, é mais fácil falar do pouco que funciona no longa, um ou outro momento interessante de perseguição automobilística. No mais, tudo leva a um grande desperdício técnico, inclusive em trilha sonora, que se tem poucos momentos de destaque, pelo menos cumpre sua função com competência.

O desenrolar da trama, por sua vez, não só é totalmente previsível como também o roteiro não é do tipo que parece se preocupar em identificar o público com um personagem sequer. Cada figura está lá meramente para levar a história adiante e apenas um ou outro elemento emocional é adicionado, do tipo: o segurança tem um filhinho para nascer e o presidente tem um na adolescência, e o filme parece querer que o público sinta-se ligado aos dois homens meramente por esse elo. Sem falar que muitos diálogos soam completamente artificiais, quando, por exemplo, os dois homens começam a falar dos filhos como se estivessem tomando chá, e não fugindo de um grande ataque terrorista.

Tem-se, ainda, um vilão que não parece minimamente ameaçador, apesar de toda a destruição que coordena, que quase não fala e sem personalidade alguma. Se tantos problemas, como dito, parecem ainda mais condenáveis por se tratar do tipo de produção plenamente ciente de seu cunho puro e simplesmente mercadológico, o texto do longa não esboça sequer quase nenhum talento para seu alívio cômico, apresentando tiradas típicas de pastelão que, se melhor pensadas, poderiam ao menos distrair um pouco o espectador de tanta idiotice.

Sim, idiotice mesmo, idiotice de um produto audiovisual que, ainda por cima, de forma especialmente descarada em sua conclusão, é do tipo que não está longe de lembrar uma propaganda armamentista. Um filme que, ele sim, é mais um terrorismo legítimo ao Cinema, e que, aliás, passa longe de fazer crer que qualquer outro ataque nele retratado realmente aconteceu.

Invasão a Londres (London Has Fallen, EUA – 2016)
Direção: Babak Najafi
Roteiro: Creighton Rothenberger, Katrin Benedikt, Christian Gudegast, Chad St. John
Elenco: Gerard Butler, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Alon Moni Aboutboul, Angela Bassett, Robert Forster, Melissa Leo, Radha Mitchell, Charlotte Riley, Jackie Earle Haley, Sean O’Bryan, Waleed Zuaiter, Colin Salmon, Patrick Kennedy, Bryan Larkin
Duração: 99 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.