Crítica | Invasão Zumbi (2016)

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estrelas 4

Invasão Zumbi (2016), filme do diretor sul-coreano Sang-ho Yeon — que também em 2016 lançou uma animação com a mesma temática, chamada Seoul Station — é uma obra que deve mudar a opinião de muita gente que afirma que “essa coisa de morto-vivo já deu o que tinha que dar“. Bem… o diretor Sang-ho Yeon prova que não. O gênero ainda consegue nos presentear com longas muito bons e, como vemos aqui em Invasão Zumbi, discutir os ingredientes clássicos desse Universo, ao mesmo tempo que os manipula, satiriza e ironiza, como o diretor faz com todas as regras consolidadas e utilizadas à exaustão pelo cinema de Hollywood desde a sua primeira contaminação, em Zumbi Branco (1932) e desde a sua largada morta-viva vitoriosa para o gosto popular, a partir de A Noite dos Mortos Vivos (1968).

Neste filme sul-coreano, o espectador não tem um momento de descanso. Sang-ho Yeon tem um domínio impressionante da direção em quase toda a totalidade do filme (ele se perde apenas em um conjunto de sequências no final, quando pega um atalho para o clichê americano e não resiste em fazer algo que parece visitar Guerra Mundial Z) e, mesmo na [aparente] lenta forma de iniciar a história, há um tipo de tensão no ar, deixando claro que algo muito ruim está para acontecer a qualquer momento. Com uso pontual de trilha sonora — e com uma orquestração simples, grave, sob medida para criar uma expectativa macabra –, essa atmosfera se estabelece rápido. O protagonista é apresentado e, já de início, nossa imensa antipatia por ele é ativada, algo que o roteiro jogar para um lado mais humano, na reta final, porém, não retira dele a péssima impressão de arrogante, orgulhoso e egoísta com a qual nos acostumamos.

Um dos caminhos mais impressionantes é como a crítica social que o Universo dos zumbis nos traz ganha espaço no filme sem nenhum tipo de artifício demonizador para o vilão (vivo ou morto-vivo), e como ideias de exclusão de outrem a partir do medo ou mesmo da má fé, pode fazer de cidadãos comuns verdadeiros bandidos segregadores. Aos poucos, ideias como resistência à contaminação (desejo de não perder a identidade) e sentimento comunitário são dissecados pela fuga dos personagens, tendo como linha central um trem para a cidade de Busan, onde Seok Woo está com sua filha Soo-an. O conflito familiar trabalhado na abertura (ele está levando a filha para ver a mãe em outra cidade, apesar da resistência inicial em se encontrar com a ex-mulher) passa de repente pra uma zona neutra e a luta pela sobrevivência, às vezes a despeito da vida dos outros, é iniciada.

A direção de fotografia faz milagres com as tonalidades de azul, verde e amarelo, as duas últimas, indicando contaminação, algo apodrecido, supurado, a que as cidades e o trem estão expostos. À medida que mais zumbis aparecem, com seus movimentos propositalmente teatrais, um pouco cômicos, a fuga se torna frenética, a montagem valoriza todo tipo de rota ou movimentação interna e externa aos planos — a cena que se utiliza de uma das fraquezas dos zumbis, a dificuldade de enxergar no escuro, é primorosa! –, e a direção consegue extrair muita coisa do cenário claustrofóbico que é o interior dos vagões, onde a maior parte da ação acontece. A ideia de “viagem pela vida” é fixada e se torna mais desesperadora a cada cidade que o trem chega e os passageiros percebem que foi contaminada.

Em um cenário catastrófico de contaminação e extermínio, é legítimo dizer que a maioria das pessoas perde todo tipo de escrúpulo e apego aos outros? A luta pela própria vida suplanta a defesa dos que estão próximos? A lógica do “antes você do que eu” é a vencedora nesse tipo de ocasião? Tais perguntas vão sendo respondidas passo a passo, como se o diretor quisesse nos fazer ver a descida de todos ali aos seus infernos particulares, depois serem apresentados a um inferno na Terra. A dualidade entre aspirações pessoais, uso de autoridade ou manipulação de autoridade para conseguir o que quer são algumas das respostas imediatas. A obra deixa claro que nenhuma fórmula, mesmo que use personagens icônicos para representar os tipos recorrentes em filmes de zumbi, é imutável, e que um bom roteiro e direção podem se utilizar de coisas já cristalizadas na História do Cinema para fazer o público temer, pensar e, por quê não, rir com um novo fôlego para algo já conhecido.

A alteração no ritmo narrativo — e também da direção, que passa de planos mais fechados para ambientes cada vez mais abertos, enxugando-os novamente no desfecho — não foi a melhor ideia do diretor, que como já apontei, se aproxima mais do modelo que tão bem subverteu por quase duas horas.

Quando a fita chega à sua sequência final, é como se o cineasta risse da plateia, fazendo-a pensar em dois cenários possíveis para o fim. Essas duas possibilidades nos atormentam e certamente acenderá bons debates sobre qual escolha seria melhor. Penso que o jogo dual entregue pelo roteiro, aqui, tenha sido o ideal para se chegar a um ponto de interrogação pelo que acontece “depois dali”. O corte final vem no momento certo. Ele define destinos, mas não o resultado final de toda a guerra, que fica para as hipóteses do público.

Enquanto os créditos sobem, nós nos damos conta de que estamos respirando normalmente pela primeira vez, desde o começo do filme e constatamos que acabamos de ver um dos melhores exemplares do gênero.

Invasão Zumbi (Busanhaeng) — Coreia do Sul, 2016
Direção: Sang-ho Yeon
Roteiro: Sang-ho Yeon
Elenco: Yoo Gong, Soo-an Kim, Yu-mi Jeong, Dong-seok Ma, Woo-sik Choi, Sohee, Eui-sung Kim
Duração: 118 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.