Crítica | Invasores (2007)

estrelas 3

Depois de ganhar três ótimas adaptações, em 1956, 1978 e 1993, respectivamente, Invasores de Corpos, trama apocalíptica de Jack Finney foi levado aos cinemas para uma versão anos 2000. O filme funciona, empolga, flerta muito bem com as cenas de ação e deixa o tom de alegoria e crítica sociológica das versões anteriores de fora, tudo em prol de personagens perseguidos em momentos de pura progressão do suspense.

No filme a colisão de um ônibus espacial faz com que algo de ordem alienígena invada a nossa atmosfera e alcance o interior do nosso planeta. O problema está nos destroços, foco do inicio da contaminação. Todos que de alguma forma entram em contato começam a mudar o seu comportamento. A psiquiatra Carol Bennel (Nicole Kidman) e o seu colega (ou namorado?) Bem Briscoll investigam e descobrem que a epidemia se espalha quando as pessoas estão dormindo.

A tal epidemia causa alterações físicas, mas as pessoas se tornam insensíveis e sem qualquer traço de humanidade. O problema se espalha exponencialmente e o clima se torna claustrofóbico. Fica cada vez mais complicado saber quem está infectado. Para sobreviver e salvar seu filho, Carol precisará se manter acordada, mas será que diante de tantos momentos de aflição, ela conseguirá? Para saber, assista ao filme. Há problemas? Sim, mas nada que estrague a sua diversão e impeça uma boa reflexão sobre o mundo de guerras e conflitos em que estamos inseridos.

No que tange ao roteiro, escrito pelo iniciante Dave Kajganich, os problemas são vastos. Para o espectador em busca de empolgantes cenas de ação, o filme não fica devendo nada.  Nicole Kidman é charmosa, esbanja tranquilidade em seu personagem, mas os coadjuvantes que gravitam em torno da sua existência são pouco aproveitados, em alguns casos, nulos, tal como o personagem de Daniel Craig, deslocado e indeciso no bojo do tecido narrativo.

Nos aspectos técnicos, já que o roteiro falha, o design de produção capricha, bem como a montagem assinada pela dupla Joel Negron e Hans Funck. Os ambientes são bem aproveitados, a direção de fotografia alcança o ideal e a iluminação torna tudo muito elegante. Oliver Hirschbiegel, responsável pelo excelente A Queda! As Últimas Horas de Hitler assumiu o comando do filme, foi afastado depois do primeiro corte final, haja vista a lentidão narrativa segundo os famigerados executivos. Os irmãos Wachowski foram escalados para terminar o filme, pesaram um pouco a mão e exageraram na dose, mas não chegaram a comprometer a narrativa cabalmente.

O que se observa é a maneira como tudo é entregue pronto ao espectador, sem espaço para reflexões mais profundas. O tema já foi metáfora para o macarthismo (1956), para o desconforto do Watergate (1978) e o medo da epidemia da AIDS (1993). Nesta versão anos 2000,  a ação é o que prevalece, mas não podemos deixar de reconhecer o resgate histórico do sentimento imperialista estadunidense, a denúncia para alguns problemas de ordem social, mas o problema, entretanto, é a forma como tudo é dito.

Além do seu final covarde e adornado por cinismo, a sensação que se tem é a de que o interesse da produção era o entendimento massivo. Todos precisariam ir ao cinema e entender a mensagem quase panfletária do filme. Talvez se fosse melhor conduzido, Invasores teria sido uma das melhores versões do romance de Finney. Fora a forma como estes detalhes são apresentados, o filme tem os seus méritos.

É uma história com ritmo de suspense de fazer roer, suavemente, as unhas. Reflete o contemporâneo, uma era de excesso de informações, de pânico social constante, de pessoas mergulhadas na chamada “Cultura do Medo”. Invasores serve como alegoria para o século XXI e as suas guerras biológicas e profusão do terrorismo. No mundo globalizado em que estamos, os riscos e os medos são maiores, pois a publicidade dada ao assunto é inquietante.

Com 99 minutos, Invasores é um filme que diverte, mas no final das contas desperdiça uma excelente oportunidade de discutir, de maneira menos didática, questões importantes da contemporaneidade, tais como os conflitos de interesses, a dimensão geopolítica dos Estados Unidos e a perda da individualidade em um mundo cada vez mais egoísta. Há bons momentos, mas para os mais atentos é muito óbvio observar que muitas oportunidades foram desperdiçadas em prol da facilitação narrativa, tendo em mira não distanciar o público do filme. Um evidente sinal dos nossos tempos.

Invasores (The Invasion) – EUA, 2007.
Direção: Oliver Hirschbiegel
Roteiro: Dave Kajganich, baseado no livro The Body Snatchers, de Jack Finney.
Elenco: Nicole Kidman, Daniel Craig, Jeremy Northam, Jackson Bond, Jeffrey Wright,Veronica Cartwright, Josef Sommer, Celia Weston, Roger Rees, Eric Benjamin, Susan Floyd, Stephanie Berry, Adam LeFevre, Joanna Merlin, Rhonda Overby, Ava Lenet.
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.