Crítica | Invasores de Corpos (1978)

estrelas 4

Ao longo da história do cinema os roteiristas, cineastas e demais profissões da realização fílmica adaptaram o vasto acervo literário produzido ao longo de uma tradição narrativa milenar. Há histórias que nunca envelhecem, tal como Hamlet e Macbeth, de Shakespeare, ou Invasores de Corpos, de Jack Finney. A obra rendeu quatro versões diretas para o cinema, além de outros filmes que flertam com as suas propostas. Prova Final, de Robert Rodriguez, por exemplo, é um deles, muito bem realizado, por sinal, haja vista a sua proposta descolada, pop e juvenil.

Sob a direção de Phillip Kaufman, a segunda versão do romance de Finney chegou aos cinemas em 1978 e alcançou sucesso nos aspectos críticos e financeiros. O filme agradou por conseguir captar o clima de paranoia e desespero da obra, ótimos ingredientes para o efeito catártico final, num dos desfechos fílmicos mais geniais do gênero. Com roteiro assinado por W. D. Ritcher, a obra é uma sucessão de acertos: direção cuidadosa, roteiro conciso e direto, sem cinismo, desempenhos dramáticos eficientes de seus atores e ritmo adequado no que tange aos aspectos da montagem.

No desenvolvimento do filme somos apresentados a Dra. Elizabeth Driscoll (Broke Adams), primeira personagem a desconfiar de que algo muito estranho está acontecendo na sua cidade, mas em especial, em seu casamento. O seu marido se comporta de maneira estranha, frio, distante e sem a capacidade de expressar qualquer sentimento. Ele parece ter sido substituído por outra pessoa. Ela leva a questão para o Dr. Matthew Bennel (Donald Sutherland), alegando que as coisas não vão bem, mas como é de se esperar neste tipo de filme, ele custa a acreditar, até que a epidemia está espalhada e o mal à espreita de todos.

A ação de desenvolve em São Francisco, com ótimo clima de suspense e perseguição. Apesar da manifestação ser bem interessante em ambientes menos cosmopolitas, a zona urbana torna-se um espaço funcional para o suspense que surge em progressão bem orquestrada. Phillip Kaufman fez a sua versão ciente da responsabilidade, haja vista o tom intocável de Vampiros de Almas, coisas que a crítica e o campo da cinefilia adoram reforçar. Por ser um clássico, o filme ganha uma aura que qualquer releitura se torna heresia. No caso de Invasores de Corpos, pode-se arriscar que o filme chega ao mesmo patamar do clássico.

O roteiro, excepcional, capta bem o clima de desconfiança e a busca pela sobrevivência. Num espaço em que não há a possibilidade de confiar em ninguém, o filme sufoca o espectador e causa todas as sensações necessários para o efeito adequado de uma boa narrativa fílmica: se tornar inesquecível, independente da experiência do espectador.

Novamente no que diz respeito aos aspectos semióticos, Invasores de Corpos possui um excelente trabalho de maquiagem e efeitos especiais. A trilha sonora, igualmente eficiente, aposta num clima de esquizofrenia e agonia, somada ao design de som que mixa muito bem os gritos estridentes dos envolvidos na conspiração alienígena. A manifestação destes seres é no desconfortável e assustadora, de acordo como deve ser, haja vista o seu ponto de partida, o claustrofóbico romance de Jack Finney.

Assim como as outras versões, o argumento do filme se torna mais interessante por não abordar, necessariamente, naves espaciais ou criaturas gigantescas. No filme, os alienígenas substituem os seres humanos, tornando-os cópias desprovidas de sentimentos e “humanidade”. Os esporos alienígenas vagam pelo espaço e adentrar a nossa atmosfera, sendo espalhado através das chuvas nas diversas manifestações de vegetação, situação responsável por catalisar a epidemia, e, por sua vez, a tragédia. .

Invasores de Corpos (Invasion of the Body Snatchers) – EUA, 1978.
Direção: Philip Kaufman
Roteiro: W.D. Richter
Elenco:Donald Sutherland, Brooke Adams, Jeff Goldblum, Veronica Cartwright, Leonard Nimoy, Art Hindle, Lelia Goldoni, Kevin McCarthy, Don Siegel, Tom Luddy.
Duração: 115 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.