Crítica | Invasores de Corpos, de Jack Finney

estrelas 4

A terra invadida por alienígenas sempre foi um tema fértil para a produção cultural estadunidense. Em 1955 o escritor Jack Finney entregou ao público uma versão visceral, contundente e inovadora: nada de máquinas de tamanho exorbitante ou seres deformados. Em Invasores de Corpos, o mal se espalha que nem um rizoma, adentrando na sociedade e tomando espaço de maneira rápida, mas discreta.

O material literário, de tão eficiente, rendeu quatro versões oficialmente adaptadas da obra, além de outras releituras inspiradas no conto aterrorizante que se tornou um clássico da ficção científica. No romance, em Santa Mira, interior da Califórnia, um tenebroso acontecimento está causando pânico social. Os moradores não se dão conta que estão se tornando cópia de si mesmo.

Ao passo que a narrativa avança, somos informados que vegetais alienígenas atravessaram o espaço durante bastante tempo, tendo em mira um planeta que pudessem se reproduzir, substituindo os seres vivos na história da humanidade. Certo dia eles encontram o planeta Terra e será aqui, espaço da abundância, mas também da arrogância, do colonialismo, dos conflitos sociais e políticos que estes “esporos” vão se estabelecer.

Estes organismos se desenvolvem de dentro de vagens gigantes e criam clones humanos com características peculiares: desprovidos de emoção, são impostores, sem sentimentos típicos dos seres humanos, tais como amor, cólera, ódio, saudade etc. Os humanos que são vítimas deste processo de transformação tem a sua metamorfose enquanto dormem, daí a famosa expressão “Don´t sleep”.

Ao se transformarem em clones, estas pessoas se tornam pó, deixando o planeta morto, constituídos por estes seres aberrantes, alegorias para os problemas sociológicos envolvendo a sociedade da época. Diferente do que H.G. Wells e seus seguidores faziam, Jack Finney preferiu a metáfora ao explícito, assustando mais, promovendo maior extensão catártica ao longo do enredo, o que preencheu a obra de momentos de pressão, suspense e horror, sem necessariamente apelar para os excessos que geralmente estão presentes neste tipo de narrativa. Ao escolher estas estratégias para contar a sua história, aproximou a literatura de horror do campo da ficção científica, abrindo novos caminhos para ambos os segmentos.

O protagonista é o Dr. Miles Bennel, um homem que percebe estranheza nas declarações dos seus últimos pacientes. Alguns reclamam do comportamento de seus familiares, agindo diferente do convencional. Inicialmente, Dr. Bennel acredita ser uma crise de esquizofrenia, mas o número de casos aumenta exponencialmente, e o perigo de mostra eminente.

Invasores de Corpos é considerado uma alegoria para a paranoia estadunidense acerca da suposta manifestação de ideais comunistas, algo que para muitos era considerado uma ofensa aos valores nacionais. Era um momento de ameaça a perda da subjetividade, sendo assim, causava pânico e horror social. Esses problemas contextuais fizeram parte dos anos 1940 e 1950. Foi o período em que se consolidou o anticomunismo no país: toda e qualquer pessoa classificada como comunista era considerada espiã e perseguida, o que as fazia perder espaço na conjuntura social.

O filme Trumbo – Lista Negra, por exemplo, nos mostra que esta paranoia era endossada por gente como John Wayne e Hedda Hopper, uma influente e bem sucedida colunista de fofocas no meio de produção cultural estadunidense da época. Ela, inclusive, foi uma das responsáveis por entregar muita gente. Diante destas afirmações, compreende-se os conflitos sociais que gravitavam em torno daquela sociedade, e assim, podemos ter uma compreensão ainda mais ampla de Invasores de Corpos, um romance escrito num período tenebroso que não está tão diferente do que vivenciamos nos últimos tempos na vida política e social brasileira, salvas as devidas proporções.

Inicialmente Invasores de Corpos era uma série da coleção Collier´s Magazine, lançada em 1954 e transformada no romance em 1955. O legado é gigantesco, tendo com destaque as várias ressonâncias cinematográficas. O tema foi tão reciclado que hoje pode parecer clichê, mas na época foi uma revolução no bojo da cultura: alguns consideraram um tiro no pé, haja a vista a coragem do escritor em sair do esquema de alienígenas corpulentos e naves espaciais, de outro lado, os mais otimistas, enxergaram no livro um material extremamente potente e atemporal.

Entre as duas vertentes opiniáticas, torna-se óbvio apontar que a segunda se estabeleceu. Mesmo tendo ganhado tantas adaptações, o material ainda pode render muita coisa, principalmente na era da reprodutibilidade técnica além das telas do cinema. Ganhou também uma versão no Especial do Dia das Bruxas em Os Simpsons e segundo registros históricos, inspirou George W. Romero na realização do clássico A Noite dos Mortos Vivos.

Invasores de Corpos (Invasion of The Body Snatchers) – EUA, 1955
Autor: Jack Finney
Publicação: Editora Abril – Série Grandes Sucessos, 1984
Páginas: 180

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.