Crítica | Invictus

“Você está arriscando o seu futuro como líder.

O dia que eu tiver medo disso será o dia que eu não mais deverei liderar.”

As discussões presentes em Invictus, obra dirigido pelo cineasta Clint Eastwood, no auge de seus 80 anos, entendendo-se, portanto, uma maturidade profissional, em contrapartida, absorvem um considerável amadorismo, enquanto evidencia problemáticas de uma sociedade posterior à segregação de antes. O mundo atual, por exemplo, possibilita, frequentemente, pensamentos como o racismo inverso, entre outras polêmicas, as quais, em uma sociedade conversando sobre o depois inteligentemente, não sobre paródias desintencionais de execráveis visões racistas, entre outras intolerâncias, dariam margem a um maior entendimento do mundo por nós caminhado. Um futuro existe, nunca possível de “alcançarmos” utopicamente, ainda mais se os nossos filhos cometerem os mesmos erros antecedentes. O presente sendo trabalhado, olhando-se para o passado, movimenta um cíclico destino para os pecados do homem mundano, retornando. Nelson Mandela, por menos tempo que merecia possuir conosco, um dos grandes líderes da humanidade, ao menos, garantiu, paralelamente a outros seres, um perpetuar no progresso. O longa do cineasta americano, contudo, destrincha, um dos momentos mais importantes da jornada dessa personalidade inestimável, de uma das formas menos interessantes possíveis. Quando o certo está sendo dito, mas não nos agarra profundamente como deveria, a ponto de injustificar, parcialmente, a existência de uma peça artística.

O contexto encaminha o seu público para uma nação reconstruindo-se no início da última década de um século de revoluções. O icônico Nelson Mandela (Morgan Freeman) é, inicialmente, solto da prisão onde manteve-se enclausurado por um longo período de tempo, tornando-se, posteriormente ao seu reencontro com a liberdade, o primeiro presidente negro da história da África do Sul, nação, na ocasião, ainda extremamente jovem para questões de desigualdade racial, encaradas, até então, como normais para um mundo branco e preto. Uma invertida é sentida para o futuro. O primeiro plano do longa-metragem já demonstra – mesmo que claramente, ainda requintadamente – a ordem das críticas que estarão preenchendo o cerne narrativo da obra, sobre um presidente ansiando por um mundo reconciliador e não uma substituição de quem está no poder – consequentemente, de quem será privilegiado. Qualquer movimentação mais interessante como essa, onde a câmera caminha por quadras desportivas completamente distantes, apresenta-se, em passagens posteriores, como raridade em qualidade, pela substituição de uma honestidade por uma agressiva redundância, mais cansativa do que verdadeiramente impactante – provavelmente, a intenção equivocada do cineasta. O racismo não poderia ser trabalhado de uma maneira mais sugestiva, tornando-se intrínseco ao que representa essa criação artística? A resposta, aparentemente, é negativa.

A câmera quer se aproximar demasiadamente. Uma família de brancos comenta sobre os discursos do presidente, enquanto uma empregada doméstica, negra, os escuta com incômodo. O cineasta não quer saber de uma composição enriquecida, porém, desmonta uma vertente sutil para evidenciar estratosfericamente o que está acontecendo em cena, desencaminhando de uma contradição ao espectador, mais poderosa, para tornar-se uma obviedade relegada ao descaso. Um trabalho mais amador de um cineasta no auge de sua idade, justamente em uma cinebiografia das mais relevantes já desenvolvidas. Os problemas vão além. Um garoto negro, em outro caso, recebe uma camisa verde e amarela, por ocasião de donativos, mas a recusa veementemente, correndo impulsivamente do cenário respectivo. A roupa é referente à equipe de rúgbi que representa a nação, composta, quase integralmente, por brancos, portanto, símbolo do apartheid que muitos querem esquecer. O presidente, protagonista da obra, não quer a reformulação do que se é um time – logotipo, cores e nome -, mas quer aqueles jogadores, incluindo o capitão François Pienaar (Matt Damon), ovacionados por todos os sul-africanos, unificando a nação. O pretexto citado é de conhecimento do espectador no momento dessa cena, que, porém, necessita-se, erroneamente, de uma retificação, pelo texto, do porquê o menino recusar a camisa. O público é subestimado.

O cineasta poderia, por exemplo, direcionar-se ao caso pelo seu término, enxergando, primeiramente, o garoto correndo para, então, mostrar, apenas com imagens, o objeto que recusou com extremo asco. O sentimentalismo imerge em considerações pobres e a emoção parece ser manipulada, embora, para uma questão com essa, a humanidade está justamente em nossas percepções menores, mas mais relevantes. As sugestões somem completamente, originando os comentários mais vastos – contudo, mais vagos – sobre tangentes da temática-cerne. O breve começo da obra, em contraste, é muito melhor trabalhado, ainda que sem qualquer marca sugestiva mais encorpada. As discussões dentro dos bastidores presidenciais, como a chegada de seguranças brancos e a saída de funcionários igualmente brancos, são interessantes por si só, apesar da insistência em entrecortes de diálogos expositivos, desnecessários. As interações entre os seguranças, na realidade, são, majoritariamente, muito boas mesmo, melhores do que a obra a que pertencem. O roteiro, um dos gigantescos culpados pela invitalidade do longa, porém, assegura o funcionamento da superfície desta cinebiografia – além da direção com, obviamente, alguma competência de Eastwood: a criação do vínculo entre o presidente e o capitão, dois homens presentes em um cinema sobre liderança e reconciliação, temática recorrente da filmografia do cineasta.

A produção, dirigida por mentes tão habilidosas, mesmo que falhas, possui seus momentos – as panorâmicas impressionam, assim como a competente cinematografia. O espectador, diante de um enredo de previsibilidades, também está engajado a ultrapassar duas horas de duração. O certo endeusamento do protagonista, curiosamente, aumenta-o, porque uma personalidade simpática e querida origina-se, entretanto, ainda com mais camadas do que, meramente, uma celebração descompromissada – a família renasce como um demônio do presente. O passado é notado, paralelamente, remetendo a um desenvolvimento de personagem, do homem que nada teve, mas, para todos, tudo queria. A sequência no estádio, também no começo da produção, apresenta um protagonista que enxerga os seus arredores integralmente, mas apenas às questões relevantes atenta-se com objetivo. Morgan Freeman, ofuscando o seu parceiro em cena, complementa-se em Nelson Mandela, contemplativo, cuidadoso, generoso e paciente, em reverência permanente. Os pequenos equívocos ao seu entorno – o africâner no contexto errado – não o afeta exteriormente, por serem apenas pequenos equívocos. Os confrontos são outros. Um homem que conseguiu superar os infortúnios do seu passado, o ódio latente a injustiças individuais, mas também coletivas, para ser melhor em um presente esperançoso. O mestre de seu destino. O capitão de sua alma.

Invictus – EUA, 2009
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Anthony Peckham
Elenco: Morgan Freeman, Matt Damon, Tony Kgoroge, Patrick Mofokeng, Matt Stern, Julian Lewis Jones, Adjoa Andoh
Duração: 133 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.