Crítica | Invocação do Mal 2

estrelas 4

É difícil pensar em bons exemplos de continuações de terror que deram certo. Geralmente temos um primeiro filme impecável, quase um clássico, que logo é seguido por uma série de sequências que jamais alcançaram o brilho do original: O Exorcista, A ProfeciaPoltergeistA Hora do Pesadelo e Tubarão são apenas os exemplos mais memoráveis, com apenas algumas boas ideias aqui e ali; podendo tomar a linha inteligente de James Cameron em transformar a claustrofobia apavorante de Alien, O Oitavo Passageiro em uma ação tensa com seu impecável Aliens, O Resgate como uma rara exceção. Bem, vai ser fácil lembrar de James Wan agora, já que Invocação do Mal 2 é um digno sucessor do ótimo filme de 2013.

A trama vende-se novamente na promessa de uma adaptação de fatos reais, puxando mais um caso tenebroso do extenso arquivo do casal Ed e Lorraine Warren (vividos novamente por Patrick Wilson e Vera Farmiga). Batizado de “Amityville da Inglaterra”, o Caso Enfield é um dos mais registrados e videografados eventos paranormais da História, tendo início quando uma família em Londres passa a ser atormentada por um espírito agressivo à noite, fazendo com que o casal viaje para a Inglaterra para investigar. Além de lidarem com a apreensão de Lorraine em mergulhar fundo novamente em suas visões, o casal ainda precisa lidar com as acusações de que as atividades paranormais teriam sido forjadas pela filha mais nova, Janet (Madison Wolfe).

Mencionei no primeiro parágrafo como Cameron foi inteligente em transformar o terror em ação com seu Aliens, e até a franquia espanhola REC seguiu essa lição com o capítulo 2 da franquia de zumbis demoníacos. Porém, Wan merece ainda mais créditos por manter os pés dentro do terror, sem mergulhar na ação ao colocar metralhadoras nas mãos de Ed ou Lorraine em uma empilhadeira enquanto luta boxe com demônios. Wan traz de volta sua impressionante habilidade de construir suspense e tensão, tendo provado-se como um especialista em provocar medo – com sustos vindo como uma consequência natural e exacerbada. Sua câmera é ágil e viaja pelos cômodos e ambientes através de elaborados planos sequência, dando ao espectador a noção espacial apropriada ao mesmo tempo em que nos apresenta à locais chave com planos plongée, holandeses e travellings aéreos.

Quando o assunto é deixar o espectador inquieto, Wan aposta em longos planos no qual algum personagem caminha por ambientes escuros, onde a fotografia de Don Burgess e o trabalho requintado da equipe de mixagem de som se sobressai. Assim como no primeiro, temos uma dolorosa criação de expectativa: às vezes uma longa sequência em que algum personagem nota algo de estranho, mas não temos nenhum tipo de revelação. Wan é especialista em manter o público em suas mãos, preparando o terreno para a revelação de suas ameaças. A cena em que Ed entrevista a jovem Janet rende um dos planos mais brilhantes do ano, quando Ed fica em primeiro plano – de frente para a câmera – e o fundo onde a menina está sentada desfoca-se, e acompanhamos uma longa cena de diálogo no qual podemos enxergar com dificuldade o rosto e o corpo da jovem deformando-se para algo mais sinistro, juntamente com sua voz.

Mas talvez o grande atrativo do filme não seja seu aspecto de horror (algo que, por sinal, o primeiro filme ainda mantém supremacia), mas sim o fortíssimo drama de seus personagens. Em especial o casal Warren, que novamente ganha um excelente retrato por Vera Farmiga e Patrick Wilson, e agora lida com o esgotamento emocional após toda uma vida de investigações paranormais. É belo como o roteiro assinado por Carey Hayes, Chad Hayes, David Leslie Johnson e o próprio Wan usa a relação afetiva do casal para proteger a assustada família, rendendo cenas muito intimistas como aquela em que Farmiga tem uma conversa sobre seu passado com a Janet de Madison Wolfe (aliás, que atriz mirim incrivelmente talentosa) ou quando Ed acaba cantando uma música de Elvis Presley para distrair as crianças. Pequenos momentos assim fazem a diferença, e deixam o público muito mais investido em seus personagens; mesmo diante de clímaxes e corridas contra o tempo que já vimos um milhão de vezes.

Talvez o grande problema do filme esteja na estrutura do roteiro, que toma emprestada demais os pontos de virada do antecessor, que já vinham de clássicos do gênero. O fato de este filme dar menos medo do que o anterior é uma opinião subjetiva (como o riso), já que cada um tem medo de uma coisa diferente, mas vale ressaltar que as ameaças deste filme são menos sinistras: a Freira de Joseph Bishara (responsável também pela trilha sonora) rende bons momentos e tem um visual marcante, mas não chega a assustar. O Homem Torto surge como uma versão hadcore do monstro do Babadook, e a técnica de CGI simula um divertido efeito de stop motion, mas também não assusta. Porém, créditos pela inesperada reviravolta que envolve o outro espírito que assola a residência de Enfield, onde Wan e sua trupe de roteiristas opta por algo além do horror.

É um milagre que Invocação do Mal 2 seja algo no nível de seu ótimo antecessor, comprovando mais uma vez a habilidade de James Wan em dominar filmes de terror, colocando-o no posto de melhor realizador do gênero da atualidade. Com o sucesso que este filme certamente irá provocar, não seria nada sobrenatural se tivessmos mais uma aventura tenebrosa do casal Warren nas telonas.

Com Wan no comando, não temos nada a temer. Ou melhor, felizmente, temos…

Publicado originalmente em 8 de junho de 2016.

Invocação do Mal 2 (The Conjuring 2, EUA – 2016)
Direção: James Wan
Roteiro: Carey Hayes, Chad Hayes, James Wan, David Leslie Johnson
Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Madison Wolfe, Frances O’Connor, Lauren Esposito, Benjamin Haigh, Patrick McAuley, Simon McBurney, Joseph Bishara, Bob Adrian, Franka Potente
Duração: 133 min

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.