Crítica | Invocação do Mal

Quando estreou em 2013, Invocação do Mal fez um favor ao campo dos filmes de terror. Oxigenou o gênero e ainda trouxe uma representação bem concebida de uma das vertentes do rentável segmento: a possessão e o exorcismo. Lili Taylor, em entrevistas, afirmou ter assistido ao clássico O Exorcista, tendo em vista buscar a inspiração para as cenas de maior impacto, próximas ao desfecho dos conflitos narrativos deste filme dirigido por James Wan, com base no roteiro de Chad Hayes e Carey W. Hayes.

Ao longo de seus 112 minutos, o filme nos leva ao seio da família Perron, comandada por Carolyn (Lili Taylor) e Roger (Ron Livingston). Eles se mudaram para uma fazenda distante em 1971 e pretendem viver intensamente com os seus filhos, mas alguma coisa muito estranha na casa impede que a família viva harmoniosamente. É a partir deste momento que o casal Ed (Patrick Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) é convidado para averiguar a situação em busca de soluções para a mobília constantemente arrastada dos lugares de origem, os lamentos constantemente presentes como canções de ninar e a onipresença de uma sombra que paira em torno do ambiente.

O que será a presença sombria responsável por assustar os moradores desta casa que existe desde 1736 e traz muitas memórias? Por meio de uma cuidadosa investigação, segredos serão revelados e viradas narrativas demonstrarão que os filmes com exorcismos em suas estruturas ainda funcionam bem, quando dirigidos e narrados com competência. Para a construção da atmosfera aterrorizante, a equipe contou com o design de produção de Julie Berghoff, bastante eficiente, em especial, na composição dos cenários de Sophie Neudorfer, espaços cuidadosamente erguidos para nos fazer conservar a sensação de medo e dominação demoníaca.

Tais elementos funcionam ainda melhor por conta da direção de fotografia centrada de John R. Leonetti, juntamente com a condução musical de Joseph Bishara. E assim, equipe técnica e elenco se unem em prol do sucesso de um bom filme. São as portas que rangem, correntes de ar uivantes, responsáveis por dar ao ambiente uma atmosfera misteriosa, cadeiras de balanço que se movem freneticamente e sozinhas, além dos habituais sustos originados pelo que James Wan considera a receita para um filme de terror bem sucedido: a manipulação do som, elementos que nos faz “ver” o “invisível”.

Na época do lançamento muita gente inconveniente reclamou da reversão do enredo em relação ao histórico de Bathsheba, mulher acusada de bruxaria, mas que teve uma vida simples, diferente do inventivo processo de possessão diabólica, quando supostamente o seu marido a pegou no flagra quando iria fazer um sacrifício do próprio filho em nome do “mal”. A história conta que ela subiu numa das árvores e se enforcou. É parte do roteiro que permite a realização de uma das cenas mais assustadoras do filme e ainda cabe ressaltar que numa obra de ficção, a liberdade narrativa corre solta, não precisa ser “exorcizada” em decorrência da busca por uma verdade absoluta dos fatos.

Paralelo aos acontecimentos na fazenda, Invocação do Mal ainda consegue trazer a história de Annabelle, no filme, representada por uma boneca de pano da linha Raggedy Ann, mais assustadora que a versão original. Segundo os demonólogos Ed e Lorraine Warren, a boneca é uma espécie de portal de conexão entre os humanos e demônios. No desfecho, Lorraine recebe um telefonema com solicitação de ajuda para um caso ocorrido em Long Island, situação que como nós sabemos, se refere aos acontecimentos em Amityville, introdução ao também eficiente filme que dá continuidade à franquia.

Durante as filmagens de Invocação do Mal, Lorraine esteve bem próxima dos bastidores. Orientou Vera Farmiga, deu sugestões e observou tudo como espectadora, dando o aval em relação ao material, algo bem próximo das coisas que ela alega ter acontecido no encontro com a família Perron. Considerada como uma das melhores produções de terror da geração contemporânea, o universo de Ed, Lorraine, Annabelle e dos demais membros desta batalha entre as forças celestiais, humanas e demoníacas, ganhou produções derivadas, tais como podemos observar no irregular mediano Annabelle, Annabelle 2 – A Criação do Mal, na eficiente sequência de Invocação do Mal e no sombrio A Freira.

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA – 2013)
Direção: 
James Wan
Roteiro: Chad Hayes, Carey Hayes
Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Ron Livingston, Lili Taylor, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King, Mackenzie Foy, Kyla Deaver
Duração: 112 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.