Crítica | Invocação do Mal

estrelas 4

Por meio de Jogos Mortais, James Wan garantiu um novo suspiro ao gênero do terror, através deste thriller psicológico, que, infelizmente, acabou se tornando uma franquia de filmes de violência gráfica apelativa. Seu segundo projeto de destaque veio apenas nove anos após, com Sobrenatural, que, apesar de seus defeitos, consegue cativar o público, deixando aquele medo que se instaura após o término do longa-metragem, quando as luzes se apagam. Mais importante ainda, vimos sua primeira obra estrelada por Patrick Wilson (o Coruja de Watchmen), cuja atuação garante uma tonalidade única para tais filmes. Invocação do Mal é o segundo trabalho da dupla, onde é dado um passo adiante em relação ao seu anterior.

Onde, porém, se encontra essa diferença deste filme de terror em relação a seus similares? Se analisarmos superficialmente, a obra conta com os exatos mesmos elementos presentes em qualquer longa do gênero – desde a família que se muda para uma casa antiga e isolada, até a crescente ameaça do mal ali presente. Até mesmo os aspectos técnicos, como os enquadramentos mais subjetivos, ocultando exatamente onde podemos esperar o perigo, o susto. A trilha sonora também não é inovadora, fazendo uso do silêncio nas horas de suspense e apresentando volumes mais elevados para criar o choque no espectador. Até mesmo o velho “inspirado em fatos reais” se faz aqui presente, ousando se tornar o mais clichê possível. Novamente, portanto, voltamos à pergunta: o que dá destaque a este filme, aparentemente, tão comum?

A resposta está dividida entre o roteiro de Chad e Carey Hayes, direção e própria atuação, sem falar, é claro, na própria escalação dos atores. São os detalhes que James Wan imprime em seu trabalho que, no fim, cativam a audiência. Comecemos pela trama. Como disse no parágrafo anterior, temos a clássica casa assombrada. Somos apresentados a esta família, Perron, que se muda e prontamente sofre com uma espécie de espírito ali presente. O foco, porém, oscila entre este grupo e mais dois personagens, Ed (Wilson) e Lorraine Warren (Vera Farmiga, de Bates Motel) investigadores paranormais que atuam como uma espécie de caça-fantasmas. Aqui temos já um ponto destoante, ao passo que somos apresentados a alguns casos anteriores solucionados pelo casal. O destaque vai para a boneca Annabele, que, inclusive, ganhará um filme próprio. A autoridade da dupla perante o sobrenatural é garantida aqui e já nos identificamos através do carisma de Patrick e Vera, que contam com uma química praticamente única.

A direção, todavia, não deixa fácil para estes dois ou até mesmo para o espectador. A primeira visita desses ghostbusters à casa da família Perron é retratada de forma quase caricata – são duas figuras claramente exageradas que logo aparentam verdadeiros golpistas ali atrás do dinheiro destas vítimas. Aqui, o trabalho de Lili Taylor e Ron Livingston, os pais da família, garante um realismo ainda maior, ao passo que soam verdadeiramente indefesos perante aquela força desconhecida. É através da progressão da trama que enxergamos a sinceridade de ambas as partes, novamente visível graças às atuações da equipe. Com essa composição formada, rapidamente remetemos a O Exorcista, que funciona através de focos similares, também dando ênfase ao processo de “cura” e não só da própria assombração, como é o caso, por exemplo, de Atividade Paranormal.

Após este primeiro contato dos Warren com o problema em questão, o longa assume uma nova perspectiva, inserindo uma falsa sensação de segurança no espectador que passa a confiar na experiência do casal. Quando a situação começa a fugir ao controle, somos colocados novamente na zona de risco, partilhando este espaço com os personagens da trama. Wan sabe trabalhar em cima das expectativas criadas, desconstruindo-as e criando novas. Em diversos momentos caímos no velho clichê, mas como chegamos a eles é onde se encontra a criatividade do roteiro. Aliado a estes fatores temos a construção do universo ao redor de Ed e Lorraine, inserindo na trama, inclusive referências a outros filmes, como Horror Em Amityville, outro dos casos investigados pelo casal. No fim temos uma forte construção do terror psicológico na mente do espectador, que perdura mesmo após o término da projeção.

São esses pequenos detalhes, aliados a um roteiro bem conduzido, marcantes atuações e precisa direção que fazem de Invocação do Mal um destaque perante as obras do gênero. A parceria Wan e Wilson novamente funciona, fisgando a audiência que, prontamente, passa a acreditar em cada um dos personagens introduzidos. Volto aqui a reiterar as diferentes camadas presentes no filme, que pedem um olhar mais aprofundado para diferenciar este de outros filmes de terror. A experiência, porém, mesmo sob uma visão menos atenta, irá chamar a atenção e certamente deixará aquele medo após as luzes se apagarem.

Publicado originalmente em 7 de junho de 2016.

Invocação do Mal (The Conjuring, EUA – 2013)
Direção: 
James Wan
Roteiro: Chad Hayes, Carey Hayes
Elenco: Patrick Wilson, Vera Farmiga, Ron Livingston, Lili Taylor, Shanley Caswell, Hayley McFarland, Joey King, Mackenzie Foy, Kyla Deaver
Duração: 112 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.