Crítica | Irmão Urso

“É que eu não sou um urso. Detesto ursos.

Então você é um castor gigante.”

Irmão Urso é uma animação de tempos posteriores ao ápice de um estúdio voltado à magia, mas, agora, dentro do contexto em questão, com uma pegada no humano extremamente forte, na busca pelo entendimento de vertentes particulares da composição de um caráter pessoal. O interesse em abordar valores, na realidade, mostrou-se crucial para a existência de obras como Lilo & Stitch, traçando comentários acerca do significado de uma família, assim como Uma Nova Onda do Imperador, comentando, afiadamente, sobre humildade e o que define uma pessoa nobre. Irmão Urso é uma animação interessada, obviamente, na irmandade, mas, muito além dessa faceta superficial, ainda relevante para a carga dramática-emocional da fita, os responsáveis pela obra decidiram investir em um discurso sobre a dualidade entre o homem e o urso, entre o monstro e a criatura indefesa. Uma animação com possibilidades imensas para um ápice de grandiosidade argumentativa.

O longa-metragem, contudo, não consegue se equiparar às melhores produções da Disney. A aventura narrada, por exemplo, não é das mais energéticas, muito pelo contrário, extremamente redundante até, além do contorno dramático ser cheio de equívocos – uma relação inicial pouco sentida, embora com caráter trágico, diferentemente de outra, aberta mais para frente, em decorrência de uma reviravolta, muito superior. Uma comparação clara, com a troca da irmandade pela paternalidade, é a de Irmão Urso com a aclamadíssima obra-prima O Rei Leão. A ausência de um lado musical, substituído por composições não-diegéticas, como a famosa, única composição verdadeiramente marcante, canção “On My Way”, diminui o potencial do mágico, característica, curiosamente, presente em cena, entre planícies de montagens cantarolantes para evidenciar qualquer aprofundamento de encantamento. O senso de aventura, ao menos, é sentido parcialmente – o pé na estrada eu vou botar.

A narrativa não possui entornos de complexidade, mas não precisaria possuir, permanecendo em uma simplicidade adocicada, mesmo que, comicamente, por exemplo, decida inserir dois alces completamente destoantes do enfoque, necessários apenas para uma condição pontual do terceiro ato. Uma reiteração é sentida pela jornada, onde, após Kenai (Joaquin Phoenix), o protagonista da história, ser transformado em um urso, a trama caminha em direção a uma montanha, localidade onde o personagem poderá, novamente, retomar sua forma humana, deixada para trás quando, em um estado de vingança, assassinou um urso indiretamente responsável pela morte de seu irmão mais velho – um acontecimento sensível, no entanto, de maneira consideravelmente frágil, sem o poder do falecimento, por exemplo, de Mufasa, em O Rei Leão. A obra também possui um terceiro ato extremamente dramático, sem qualquer guia lúdico envolvente, além da comédia arrastada e problemática.

Irmão Urso encontra-se situado em um cenário primitivo, sucessor a uma era glacial, dando origem, portanto, a uma ambientação maravilhosa, adequada à animação como técnica. A qualidade artística é questionada raramente – como mamutes de pano de fundo -, mas, mesmo sem muita grandiosidade, um ar contemplativo é observável, como nas sequências de transformação de urso para homem e homem para urso. A grande característica da obra, no final das contas, é justamente essa, ainda mais com a introdução de Koda (Jeremy Suarez), criatura dócil e simpática ao público, apesar do protagonista comportar-se de maneira distanciável dele por boa parte do longa. A reviravolta envolvendo o personagem, porém, é pesada o suficiente para nos carregar rumo ao desfecho, piegas, mas sensível. O discurso permanece: quem é quem, nessa narrativa sobre distintas espécies de animais? A criatura indefesa é aquela com garras ou aquela com lanças? O debate é válido e universal.

Irmão Urso (Brother Bear) – EUA, 2003
Direção: Aaron Blaise, Robert Walker
Roteiro: Tab Murphy, Lorne Cameron, David Hoselton, Steve Bencich, Ron J. Friedman
Elenco: Joaquin Phoenix, Jeremy Suarez, Rick Moranis, Dave Thomas, Jason Raize, D.B. Sweeney, Joan Copeland, Michael Clarke Duncan
Duração: 85 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.