Crítica | Irmãs Jamais

estrelas 3,5

Construtor de imagens instigantes e dono de uma retórica carregada de simbolismos, Marco Bellocchio é um dos cineastas mais importantes do cinema moderno italiano. As suas tramas orquestram dramas da vida cotidiana, com camadas extras de complexidade. Desde a sua primeira incursão, em De Punhos Cerrados, lançado em 1965, o cineasta toca em cordas sensíveis da sociedade.

Em Irmãs Jamais, Bellocchio alcançou o ápice do seu discurso político e sociológico no que tange às estruturas familiares. Com registros que vão de 1999 a 2008, o roteiro nos apresenta ao núcleo familiar do diretor, mesclando de maneira pouco convencional o documentário e a representação ficcional, fronteiras já problematizadas há tempos no bojo da teoria fílmica.

Irmãs Jamais é um tour que capta as relações familiares do cineasta, projeções das nossas, nos demonstrando os elos que unem essas pessoas, os fracassos e vitórias, as semelhanças e diferenças entre as pessoas, captadas através de atores e não-atores, imagens “reais” e “ficcionais”. Ao brincar com a linguagem, o filme nos mostra cenas que parecem, propositalmente, uma colagem de vídeos caseiros, numa proposta interessante de trazer para o centro da reflexão o caráter de representação que às vezes empregamos em nosso cotidiano.

Ao trafegar numa via tênue de discursos cinematográficos, a trama nos oferta personagens cativantes e expressivos. Há Sara, uma aspirante a atriz que deixa as suas filhas sob o cuidado de duas tias, entidades responsáveis por trazer dinamismo e humor para certas cenas. Giorgio é outro personagem cativante, interpretado pelo filho do cineasta, um parceiro de longa data em vários filmes.

No que diz respeito aos aspectos técnicos o filme abusa de recursos pouco atrativos, o que pode afastar o espectador pouco interessado em experimentalismos. Habilidoso na construção de personagens Bellocchio coloca os seus personagens para gravitar numa trama repleta de imagens escuras e de baixa definição, como se fossem captadas por câmeras semiprofissionais.

Outro ponto importante é a falta de direcionamento no foco narrativo. Não é um filme fácil, pois de acordo com as demandas do cinema contemporâneo, um período em que tramas didáticas explicam o seu passo a passo como se fossem slides de uma aula conteudista, Irmãs Jamais se prende ao estranho, ao incomum, ao pouco atraente.

Em um dos seus trabalhos mais intimistas, o filme consegue encontrar um pouco de fluidez em seu processo, mas não é algo entregue pronto ao espectador. É preciso decantar as imagens e consumi-las com a devida moderação e reflexão. Um filme instigante. Não é perfeito, às vezes se perde um pouco, mas não deixa de ser impactante.

Irmãs Jamais (Sorelle Mai) – Itália /2010.
Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio
Elenco: Pier Giorgio Bellocchio, Elena Bellocchio, Donatella Finocchiaro, Letizia Bellocchio, Maria Luisa Bellocchio, Gianni Schicchi, Alba Rohrwacher, Valentina Bardi, Silvia Ferretti, Irene Baratta. 
Duração: 105 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.