Crítica | Isca

estrelas 3

Nos últimos anos a natureza tem apresentado as ressonâncias de coisas provocadas pela ação humana ao longo da história da nossa civilização. Mas não é só da ação humana a origem destas manifestações. Há, por exemplo, os efeitos naturais. Os terremotos são alguns deles.  Tais acontecimentos ocorrem em decorrência do encontro de placas tectônicas, ou seja, blocos rochosos que possuem mobilidade, o que provoca tremores e em alguns casos, agitação das águas oceânicas, provocando, por sua vez, os tsunamis, ondas gigantescas e desordenadas que causam mortes, acidentes e toda gama de problemas sociais, econômicos e ambientais.

O cinema, como apontado por Michel de Certeau, foi um dos responsáveis por “inventar” a vida cotidiana, radiografando acontecimentos que a mídia cotidianamente nos noticia. Desta forma, através da representação, somos levados a discutir estas questões naturais, bem como as suas causas e consequências. Atentos ao potencial narrativo de tsunamis, manifestações da natureza tão poderosas como furacões e vulcões, os envolvidos na indústria cinematográfica acharam várias formas de representa-lo em gêneros diversos: dramas, aventuras e até mesmo no subgênero filmes de tubarões. É o caso de Isca, lançado em 3D em 2012.

No filme o salva-vidas Josh (Xavier Samuel) perde um grande amigo após um terrível ataque de tubarão. É uma época complicada em sua vida, pois o rapaz também perdeu a sua namorada Tina (Sharni Vinson), moça que recentemente encerrou a relação. Trabalhando como repositor em um supermercado, Josh leva a sua vida na busca da cura do luto, até que um dia ocorre um assalto no local de trabalho. Tudo fica mais amargo depois que Tina aparece com o novo namorado, entretanto, a coisa fica ainda pior quando um tsunami atinge o local e destrói quase tudo. Consegue imaginar tamanha miséria?

A coisa, por sua vez, fica muito mais aterrorizante: a onda gigante trouxe dois imensos tubarões. Xavier, agora, precisa abandonar o luto e batalhar pela sua vida. Ilhados no supermercado, o repositor, a sua ex-namorada, um casal de clientes, os dois assaltantes e o irritante gerente do local terão de se unir para vencer a situação. O problema é que o confinamento traz conflitos maiores, alguns de convivência, o que coloca a vida de todos em perigo.

O subgênero que já havia ganhado versão mexicana, italiana, indiana e brasileira, iniciou a sua estadia no campo do cinema em 1969, em Tubarão, estrelado por Burt Reynolds. Apesar de ter dado início ao modelo de narrativas com tubarões alimentando-se de humanos, o ponto nevrálgico desta indústria foi o ponto de partida de sucesso financeiro: Tubarão, de 1975, orquestrado por Steven Spielberg e a sua equipe técnica, leia-se, Verna Fields e o compositor John Williams.

Quase 40 anos após a incursão de maior sucesso no que tange aos tubarões como feras assassinas, a indústria cinematográfica continua ainda tenta repetir o primor narrativo da trama de Steven Spielberg, entretanto, sem sucesso garantido. As sequências que acompanhavam a família Brody fracassaram, bem como as suas numerosas cópias, tendo apenas em Do Fundo do Mar e neste, Isca, alguns elementos interessantes, mas ainda assim, devedores aos conflitos estabelecidos na trama de 1975.

Diferente dos demais filmes do subgênero, Isca possui um elenco acima da linha da miséria dramatúrgica, com efeitos especiais razoáveis que não incomodam, apesar de parecerem forçados em alguns momentos. O cineasta Kimble Rendall, responsável pelo slasher Cut – Cenas de Horror, conduz bem a proposta do roteiro, dando conta da aventura repleta de cenas de tensão e adrenalina.

Tal como Sharknado, seria injusto cobrar algo a mais de Isca, haja vista a sua premissa envolvendo tsunamis e tubarões. Honesto, o roteiro escrito a doze mãos deixa claro o seu argumento logo de início. Desta forma, cabe ao espectador estabelecer o pacto ficcional ou desistir. Sugestão? Apesar de crítica de cinema não ser guia de consumo, fica a dica: opte por se divertir.

Este filme possui material suficiente para bons sustos, além de ser uma ótima opção para os que curtem o subgênero. Algumas interessantes pitadas de conflitos sociais ajudam a narrativa a deslanchar e o resultado, apesar de levemente exagerado, está muito longe de ser ofensivo, tal como as variadas narrativas sobre tubarões exorcistas, fantasmas e feras de duas cabeças.

Isca – (Bait) – EUA, 2012
Direção: Kimble Rendall
Roteiro: John Kim, Duncan Kennedy, Shayne Amstrong, Shane Krause, Justin Monjo, Russel Mulcahy
Elenco: Richard Brancatisano, Alice Parkinson, Chris Betts, Sharni Vinson, Miranda Deakin, Julian McMahon, Dan Wyllie, Phoebe Tonkin, Damien Garvey
Duração: 93 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.