Crítica | Isolados (2014)

estrelas 2

O que acontece com um filme quando a tentativa de referenciar grandes clássicos passa dos limites? Isolados, produção brasileira de suspense psicológico, lançada em 2014, é cheia de pormenores que tornam tudo menos interessante do que de fato poderia ter sido. Primeiro, referenciar os ótimos O Iluminado, O Anticristo e Ilha do Medo não é aposta suficiente para dar qualidade ao filme. Segundo, sempre nos envolvemos na mea culpa do cinema brasileiro ter investido pouco na seara do suspense, terror e horror, e por isso, qualquer suspiro dos gêneros é algo visto com positividade.

Lançar um filme deste gênero e conferir ao Brasil o status de produtor de filmes que saiam do eixo favela, sertão e BOPE, foi uma atividade audaciosa dos envolvidos, mas infelizmente Isolados não engata. A trama é curiosa e garante boas doses de suspense, mas falta ritmo e dinamismo, bem como menor tentativa de deixar as coisas complexas demais. O cinema brasileiro se desenvolveu tanto nos últimos anos, apresentou temáticas tão diversificadas, que esta chance dada aos filmes que tentam ousar no terror por aqui nem dá para se utilizar como desculpa.

Em Isolados, a dupla Tomas Portella e Mariana Vielmond entregam o seguinte roteiro ao público: o casal Lauro (Bruno Gagliasso) e Renata (Regiane Alves) viajam para uma região interiorana no intuito de remendar os estilhaços de suas vivências contemporâneas. Ele é um médico psiquiatra e acredita que uma viagem distante dos centros urbanos do Rio de Janeiro possam aliviar problemas de saúde da esposa, abalada psicologicamente por acontecimentos recentes.

Os sinais de que algo de muito errado vai acontecer não está apenas na abertura com itens sangrentos. Próximo ao local há um dono de um bar que informa sobre ataques brutais ocorridos nas últimas semanas pelas redondezas. Lembra, e muito, uma das cenas emblemáticas do primeiro episódio de Sexta-Feira 13, quando uma das monitoras caminha até o acampamento e pede informações em uma lanchonete local. Não afirmo que há uma relação direta, mas em termos intertextuais, proposital ou não, a cena está lá.

Lauro, receoso diante da condição psicológica da esposa, resolve omitir as informações. Mais adiante, como é de se esperar, os problemas surgirão. Ruídos, gritos, perseguições, algum sangue e surpresas oriundas do tão comum plot twist das narrativas cinematográficas, que em muitos casos, por óbvia falta de qualidade, apelam para finais mirabolantes, tendo em mira permanecer com maior eficácia na memória do espectador.

Os problemas do filme não são de ordem visual. A equipe técnica desenvolveu um trabalho exemplar. A direção de arte constrói um ambiente de angústia e claustrofobia, graças aos enquadramentos e movimentos de câmera, ao tratamento da iluminação e aos objetos em cena. O desempenho da dupla protagonista também é um ótimo catalisador para o bom clima de suspense do filme.

Ainda no que tange aos aspectos visuais, o uso constante de cores opacas e o abandono do clima quente de certas paletas dão o clima apático e doentio do filme, além da maquiagem, também bem sucedida, tudo isso, quando somado ao ambiente rústico, transforma-se numa equação audiovisual bem realizada. Somente os ferrões musicas surgem como uma muleta dos produtores, numa necessidade absurda de impactar com famigerados estrondos sonoros.

Isolados pode não ser tão eficiente como filme de terror, mas serve para provar ao público a versatilidade de Tomas Portella, cineasta que algum tempo antes havia mergulhado na comédia, tal como Qualquer Gato Vira-Lata, um gênero que no Brasil, às vezes é uma via de mão única para alguns profissionais, pois boa parte dificilmente consegue se desvencilhar. Com apontou o cineasta, “o desafio era encontrar dentro de uma estrutura clássica de suspense uma forma de enganar, surpreender e tirar o chão do público”. De boas intensões, no entanto, o inferno está cheio. Não foi desta vez.

Isolados Brasil, 2014. 
Direção: Tomas Portella
Roteiro: Tomas Portella, Mariana Vielmond
Elenco: Juliana Alves, Regiane Alves, Bruno Gagliasso, Silvio Guindane, José Wilker, Ney Murce, Orã Figueiredo, Carol Macedo, Edimilson Barros, Fernanda Pontes.
Duração: 85 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.