Crítica | It: A Coisa (Com Spoilers)

Obs: Há doses cavalares de spoilers tanto do filme quanto do livro. Portanto, sigam em frente sob sua própria conta e risco. Se quiserem ler a crítica sem spoilers, cliquem aqui.

It: A Coisa, segunda adaptação americana (pois há uma série indiana com 52 episódios, podem acreditar) do clássico calhamaço oitentista de Stephen King é um triunfo duplo. Primeiro, o filme dirigido por Andy Muschietti, o argentino quase estreante em Hollywood, responsável antes por apenas um longa, Mama, de 2015, é capaz de ser um filme de horror de respeito, bebendo das melhores fontes do gênero. Segundo, e talvez mais importante, a obra captura a essência da obra original, retrabalha diversos elementos e entrega talvez a mais fiel adaptação de um livro de horror de King ou pelo menos de sua metade.

Afinal, a obra original, como tive a oportunidade de explorar em detalhes em minha crítica, lida com sete personagens em dois momentos temporais bem diferentes, 1958 e 1985, que vão sendo intercalados ao longo da narrativa, com crianças que se tornam adultos e têm que enfrentar por duas vezes a ameaça sinistra na cidadezinha e Derry representada por um ser que majoritariamente assume a forma de Pennywise, um palhaço de circo, e que mata crianças e adultos a cada 27 anos. Estruturalmente, o roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman lida, apenas, com a narrativa que acontece no passado, reunindo todos os capítulos do livro em 1957 e 1958 e situando-os em 1988 e 1989, mas sem deixar pontas salientes, pelo que este filme poderia facilmente ser compreendido de forma auto-contida, inexigindo-se uma continuação que, porém, claro, virá, se as previsões de bilheteria se confirmarem, ao mesmo tempo que se evita cair na armadilha em que a minissérie de 1990 caiu, seguindo fielmente demais a intercalação de épocas.

Com isso, o objetivo da presente crítica com spoilers é não só abordar o filme em mais detalhes do que é possível em uma crítica sem spoilers, como a que meu colega Guilherme Coral fez, como também traçar paralelos com o livro de King, pontuando suas similaridades e diferenças, algo que fiz também com A Torre Negra. No entanto, é importante ressaltar que eu sou o primeiro a defender que é essencial saber respeitar as diferenças entre mídias e uma boa adaptação não é necessariamente aquela que é escrava do material fonte, mas sim a que, sabendo extrair sua essência, cria uma versão com vida própria, que funciona independente de sua inspiração. De toda forma, encarem o presente artigo como um híbrido de crítica com Entenda Melhor.

Não é exatamente um filme de horror

Como o Guilherme Coral amplamente explorou no início de sua crítica sem spoilers do filme, It: A Coisa não deve – não pode – ser visto apenas como um filme de horror, apesar de o marketing do estúdio ter obviamente focado nesse elemento para maximizar a vendagem. E notem que meu colega não leu o livro de King, tendo mesmo assim conseguido capturar a essência da obra original tamanha é a eficiência do roteiro que procura muito mais lidar com a amizade incondicional das sete crianças que formam o chamado Clube dos Perdedores (ou, como nas legendas, Clube dos Otários, que também é uma tradução possível do original Losers Club) do que com os elementos de horror sobrenatural que permeiam a narrativa.

Afinal, a obra de King é um tratado sobre o amadurecimento, sobre crianças no limiar do momento em que se tornam adultos e o quanto o valor da amizade e do reconhecimento da maldade humana servem como marcadores dessa fronteira difusa. No filme, não há tempo hábil para uma construção narrativa que vagarosamente introduza esses elementos, pelo que o roteiro e a direção precisa fazer uso de atalhos que por vezes apressam a história, mas que, em termos gerais, cumpre a missão de fazer de It: A Coisa uma aventura de horror, por assim dizer, tendo como elementos focais, de um lado, a visão de crianças sobre o mundo e, de outro, o encapsulamento da maldade humana em um avatar que pelo menos em tese – nunca foi meu caso – relaciona-se com alegria, inocência e o “ser criança”.

Portanto, Muschietti é muito feliz em construir uma expressão nostálgica das lembranças da infância ou, pelo menos, a expressão do arquétipo da infância cinematográfica americana que se espera, carregada de brincadeiras ao ar livre, de descoberta da sexualidade, de brigas e de confiança irrestrita. No entanto, o diretor não se entrega à linguagem padrão e, sem demora, mas sempre discretamente, enxerta singulares momentos de estranheza que emprestam àquela idílica e aparentemente perfeita vida em cidadezinha pequena aspectos sinistros e cada vez mais exasperantes.

E não falo, aqui, particularmente, do prólogo em 1988, em que vemos Georgie Denbrough (Jackson Robert Scott), alegremente brincando com seu barquinho de papel feito amorosamente por seu irmão mais velho Bill (Jaeden Lieberher), deparando-se, em um bueiro, com Pennywise (Bill Skarsgård), que arranca seu braço e o arrasta para a escuridão. Essa sequência, por mais arrepiante e icônica que possa ser, bebendo quase que quadro-a-quadro do que King escreveu, é apenas a versão explícita da estranheza que perpassa toda Derry, cidade fictícia do Maine onde o filme se passa. Quando mencionei os tais “aspectos sinistros” que Muschietti enxerta organicamente em sua história, queria muito mais falar dos vários momentos de negligência dos adultos, como a senhora que, por sua varanda, vê, desinteressada, Georgie olhando para o bueiro e, depois, apenas uma mancha vermelha na rua sem nem mesmo levantar uma sobrancelha. Ou quando o casal de idosos no automóvel passa, sem dizer um “ai”, por um Ben (Jeremy Ray Taylor) tendo sua barriga “autografada” por Henry Bowers (Nicholas Hamilton) e sua  gangue.

Mas o que não vemos também enerva. Repararam, por exemplo, que a cidade é vazia? Que as crianças que a populam parecem sozinhas nesse mundo? Nem mesmo na escola vemos uma presença maior de adultos, o que amplifica a sensação de abandono, indiferença ou negligência mesmo. O universo visual criado pelo diretor é de um paraíso caído em que as crianças são vítimas de um nefasto sistema predatório que se auto-perpetua. Essa foi a forma encontrada para substancialmente acelerar a construção do arco da maldade humana que é o pano de fundo sobre o qual a obra de mais de mil páginas de King é construída e que, de outra forma, jamais poderia ser desenvolvida para o cinema.

O Clube dos Perdedores (ou dos “Otários”)

Diante desse objetivo, a caracterização dos componentes do Clube dos Perdedores era essencial para o sucesso da história. Qualquer tentativa de se seguir  a estrutura paciente e episódica que Stephen King usou no livro seria mortal para o filme, por mais hábil que o roteiro fosse. Assim, no lugar de desenvolver cada um dos sete personagens separadamente, tomou-se a acertada escolha de já iniciar a projeção com um núcleo bem estabelecido: Bill, Richie (Finn Wolfhard), Eddie (Jack Dylan Grazer) e Stan (Wyatt Oleff) já são amigos na escola, prestes a começar as férias de verão.

Com isso, a interação entre os quatro, logo de início, permite que os conheçamos orgânica e  imediatamente, deixando os demais, Ben, Bev (Sophia Lillis) e Mike (Chosen Jacobs) para momentos específicos e, mesmo assim, tornando a reunião entre os dois primeiros quase imediata, com apenas o terceiro ganhando uma narrativa paralela que demora um pouco a convergir com a narrativa principal. Em linhas gerais, o espírito da reunião dos sete membros do inseparável grupo foi transposto fielmente às telonas, com o evento catalisador final sendo o cruel ataque da gangue de Bowers a um indefeso Mike, momento batizado na obra original de “Briga Apocalíptica de Pedras”. Além disso, o elenco parece ter sido magicamente escolhido, pois há uma química instantânea entre todos eles tanto quando aparecem como um grupo de sete completo, quanto em duplas em determinados momentos da histórias.

No entanto, há diferenças em quase todos os personagens, algumas sutis, outra nem tanto, mas várias sendo ditadas pela natureza da obra adaptada, o que abordarei por personagem:

Bill Denbrough

Ele é o líder tanto no livro quanto no filme, mas, no livro, os demais componentes do grupo demonstram uma reverência maior a quem eles chamam de Big Bill, apelido ausente do filme. Na obra de King, ele é quase que uma figura espiritualmente elevada, tanto que, ao final da linha narrativa de 1958 do livro, é ele quem, sozinho, entra no embate metafísico e extradimensional contra a Coisa. No filme, ele é decididamente apenas mais um do grupo, que apenas por uma conveniência necessária de roteiro, ganha o protagonismo.

Além disso, sua gagueira, na produção, é muito mais suave do que no livro e isso se dá, claro, por uma necessidade narrativa, algo que King lida com parágrafos em terceira pessoa que “resumem” o que ele diz. Por outro lado, sua obsessão pelo desaparecimento de Georgie é muito maior no filme do que no livro, algo demonstrado por suas teorias sobre para onde o corpo de seu irmão menor poderia ter sido levado, com a construção de um modelo usando o túnel de plástico de seu hamster e os mapas do esgoto da cidade que ele pega das coisas do pai que trabalha lá. Isso se dá pois, no filme, o corpo de Georgie é puxado para o esgoto por Pennywise, deixando no ar (para Bill) se ele está mesmo morto ou apenas desaparecido. No livro, no entanto, o corpo sem um braço de Georgie é encontrado e não há essa dúvida.

Bev Marsh

Assim como no livro, Bev é a primeira do grupo que consegue ferir fisicamente a Coisa, ainda que a maneira como isso acontece seja completamente diferente e bem menos de caso pensado. Enquanto que, na fita, ela simplesmente surge do nada e enfia uma “lança” de metal pela cabeça da criatura, no livro ela usa um estilingue – por ter a melhor mira de todos no grupo – e uma bala de prata que Bill e Ben fabricam a partir de dólares de prata, já que a forma que a Coisa toma na casa da Rua Niebold é a de um lobisomem.

Mas a mais importante diferença entre as Bevs é que a do filme é substancialmente mais madura que a do livro. Percebemos uma autoconsciência sobre sua condição de jovem mulher e da pedofilia – não realizada fisicamente – de seu pai. Além disso, ela tem uma aparência mais rebelde e forte no filme, algo que pode afetar sua caracterização como esposa submissa a um marido violento 27 anos depois, na continuação, se o objetivo for manter a proximidade com o livro.

Ah, a sequência no banheiro, no filme, é radicalmente mais sanguinolenta do que no livro, o que é algo muito claramente ditado pelo apelo audiovisual que é um geiser de sangue saindo pela pia em uma sequência que funde ecos tanto de O Iluminado, de Stanley Kubrick e de Carrie – A Estranha, de Brian De Palma.

Ben Hanscom

É interessante como o roteiro constrói Ben no filme, retirando-lhe uma função e dando-lhe outra que, por vias transversas, afasta a função futura de Mike. Mas deixe-me explicar.

Ben é exatamente assim: um gordinho tímido apaixonado por Bev e que vive na biblioteca por não ter amigos. No livro, ele não é novo na escola, mas isso é um detalhe insignificante. O que realmente interessa é que suas habilidades, que futuramente o fariam ser um arquiteto renomado mundialmente, não são nem de longe exploradas. No livro, Ben, ao reunir-se com o grupo pela primeira vez, ajuda-os a construir uma represa no rio que é tão eficiente que consegue gerar refluxo de água nas casas da cidade, além de projetar uma sede subterrânea para o clube. Mas a inteligência que caracteriza o personagem no livro não é deixada de lado no filme: Ben, aqui, é o único do grupo que consegue estabelecer um panorama maior para a ameaça que eles enfrentam em razão de sua obsessão com o passado de Derry. Ele não só mostra que a cidade tem taxas de violência assustadoramente mais altas do que o restante do país, como também deduz o caráter cíclico dos surtos de mortes e desparecimento inexplicáveis. Em termos narrativos, essa característica de Ben é um atalho razoavelmente canhestro e conveniente do roteiro para tratar da Coisa como algo maior do que ela parece ser, o que acaba gerando os momentos mais artificialmente expositivos de toda a produção, que poderia ter se beneficiado de inserções mais naturais dessas descobertas detetivescas de dar inveja a Sherlock Holmes.

No livro, essa função de pesquisador é a de Mike, mas não do Mike criança e sim do Mike adulto, o único do grupo que não sai de Derry para viver sua vida, permanecendo por ali pesquisando profundamente sobre a história do local e refazendo toda – ou quase toda – a trajetória da Coisa. É Mike, aliás, que, 27 anos depois, chama os Perdedores de volta à cidade para enfrentar a Coisa. Será interessante ver como isso será trabalhado na continuação. Será que Ben ficará na cidade e Mike tornar-se-á um profissional renomado (não necessariamente em arquitetura)?

Richie Tozier

Uma simpática “mala sem alça” desbocada tanto no livro quanto no filme, a grande diferença de Richie no filme em relação ao romance é que sua habilidade de imitar vozes é quase que integralmente extirpada da história. Isso não exatamente diminui a importância do personagem, mas torna o famoso “bip, bip, Richie”, que serve para calá-lo toda vez que fala algo inapropriado, algo completamente deslocado no filme. Além disso, vê-se que os roteiristas preferiram assim o fazer para evitar terem que lidar com as passagens mais politicamente incorretas do livro, com Richie – de forma benigna, devo ressaltar – dando voz ao preconceito de adultos com suas piadas que hoje seriam vistas como absurdas e, provavelmente, alvo de discussões acaloradas em redes sociais.

Assim como no livro, Richie é o único que não vê, separadamente, uma manifestação da Coisa antes dos eventos que os reúnem. Mas, no livro, a questão é mais inteligentemente inserida: não é que Richie não veja, mas sim que ele tenha sublimado um momento de seu passado recente quando teve que “sobreviver” ao ataque da horrível estátua de plástico de Paul Bunyan (do folclore americano e que está no filme, aliás, na sequência em que eles estão conversando na feira da cidade) que ganha vida e tenta matá-lo a machadadas. Ele descartara esse momento como um pesadelo e se recusa, até muito a frente no livro, a aceitá-la como parte do que a Coisa faz para assustar e matar crianças. Em outras palavras, ainda que seja fiel ao livro Richie não ter seu momento solitário com o monstro, é deveras estranho e equivocado sob o ponto-de-vista narrativo que isso passe completamente em branco. Afinal, se cada um dos Perdedores ganha seu momento solo de horror, não haveria explicação lógica para que Richie fosse o único a ficar de fora.

Eddie Kaspbrack

Eddie é o mais perfeitamente caracterizado personagem do Clube dos Perdedores em relação ao material fonte. Hipocondríaco, asmático psicossomático, dominado por uma mãe obesa, fazendo uso de placebos, vendo um mendigo leproso como sua manifestação pessoal da Coisa e tendo seu braço quebrado durante a aventura, é como ver as páginas do romance de King se materializarem completamente diante de nossos olhos.

Stan Uris

Stan, assim como no livro, é um dos personagens menos desenvolvidos no livro. Mas o que é mostrado no filme condiz perfeitamente com o personagem, especialmente o medo paralisante que ele tem da Coisa e sua maneira toda certinha de ser, representada pela forma como se veste e pela maneira como faz praticamente tudo, da limpeza do banheiro de Bev (ele é o único a metodicamente limpar a janela), até a forma como ele estaciona sua bicicleta (todo mundo joga no chão, mas ele usa o descanso). No entanto, seu hobby é completamente cortado do filme: Stan adora observar pássaros, sempre andando com um livro sobre o assunto no bolso de trás de sua calça. Curiosamente, apesar de seu medo e por ter uma compreensão maior sobre o que é a Coisa, é de Stan, não de Bill que parte o juramento de sangue dos perdedores ao final.

Mike Hanlon

Mike é outro personagem que, quando criança, não ganha muito desenvolvimento no livro, algo que, de certa forma, é refletido no filme. A morte de seus pais e seu trabalho no matadouro são novidades do roteiro, ainda que, no livro, seu pai lhe conte a história do Black Spot (mencionado no filme), bar criado por negros para negros em vista da segregação racial, e que é incendiado criminosamente pela Legião da Decência Branca, a KKK do norte dos EUA.

Como mencionei, o Mike adulto é de fundamental importância para a história, mas seu papel de historiador parece ter sido “usurpado” por Ben, o que pode alterar a caracterização dos dois na continuação, ainda que também seja perfeitamente possível que Mike assuma esse manto depois dos eventos do primeiro filme.

A gangue de Henry Bowers

Os antagonistas humanos do filme e do livro em sua parte no passado são Henry Bowers e seus amigos Victor Criss (Logan Thompson), Patrick Hockstetter (Owen Teague) e Belch Huggins (Jake Sim). Enquanto Bowers, vivido por Nicholas Hamilton, que curiosamente também tem um papel em A Torre Negra, é substancialmente similar à sua versão literária, como um bully que está na fronteira da psicopatia, fronteira essa ultrapassada graças a um empurrãozinho da Coisa, que o leva a matar seu pai, Victor Criss e Belch Huggins são apenas componentes de cena na produção, sem qualquer tentativa de desenvolvimento. Não que haja uma abordagem muito grande no livro sobre eles, mas o tratamento que o roteiro dá a esses dois capangas de Bowers é o mesmo que se dá a extras que aparecem no fundo de uma cena.

Mas há uma lógica por trás: há personagens demais no filme, se contarmos os sete Perdedores, Bowers e a Coisa. Não havia espaço para lidar com mais esses dois. No entanto, Hockstetter, assim como no livro, recebe um pouco mais de atenção, aqui como lá como outro bastante perturbado jovem, ainda que, no filme, suas…. experimentações com seu amigo Bowers tenham ficado de fora, substituídas pelo olhar fanático de Teague e por seu lança-chamas portátil. Seu fim no esgoto funciona bem no filme, talvez até melhor do que a revelação, no livro, de que ele é um matador de animais, colocando-os em um geladeira abandonada para eles morrerem ao longo de dias, o que acaba levando à sua própria morte quando a Coisa, sob a forma de sanguessugas aladas, saem do eletrodoméstico para dar cabo no rapaz de forma bastante aleatória e sob o olhar assustado de Bev, escondida por perto.

A grande diferença entre as duas mídias está mesmo no fim de Henry Bowers ou, pelo menos, o que parece ter sido seu fim na fita. Depois de atacar Mike covardemente e da luta que se segue, Mike acaba jogando-o no poço da casa da rua Niebold em uma decisão narrativa que me fez coçar a cabeça e não por ser radicalmente diferente do livro e sim por transformar um dos Perdedores em um assassino. Claro, foi uma reação de momento em auto-defesa perfeitamente compreensível, mas, mesmo assim, o que acontece quebra aquela pegada mais inocente que o filme vinha imprimindo até aquele momento. E, claro, se ele morreu mesmo (não consigo imaginar que não tenha morrido), seu papel já adulto, na segunda parte da história, terá que ser substituído por alguém de fora (possivelmente Tom, o marido abusivo de Bev), o que de certa forma afeta a reconexão dos Perdedores com seu passado. No entanto, claro, aqui já entramos no campo das especulações.

Os adultos

Com os dois lados do embate bem marcados na narrativa, o roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman, como mencionei, tratam de eliminar os adultos da história, amplificando a impressão de negligência ou pouco caso em relação às crianças que são invisíveis. No entanto, a trinca faz mais do que apenas isso, lidando com os adultos de uma forma só: são, todos eles, de uma forma ou de outra, personagens vilanescos ou tendentes à atos que poderiam ser vistos dessa forma.

Enquanto Zach Denbrough (Geoffrey Pounsett), pai de Bill, é o mais “normal” deles, no único momento em que o vemos interagir efetivamente com Bill é para brigar com ele de forma bastante raivosa pelos experimentos do filho sobre o possível paradeiro de Georgie. Enquanto que taxar Zach de algo próximo a “vilão” seria um exagero, fica evidente que o roteiro queria que o personagem pelo menos passasse um bom grau de hostilidade, o que amplifica a sensação de abandono de Bill por seus pais após a morte do irmão mais novo, algo também caracterizado por sua casa vazia e com uma fotografia tendente ao azul, conotando constante tristeza e pesar.

No caso de Sonia Kaspbrak (Molly Atkinson), mãe de Eddie, essa “vilania” se faz bem mais presente. Não só sua aparência largada é um fator, como, especialmente, a maneira controladora com que trata seu filho, inclusive mantendo-o tomando remédios somente para exercer essa função de mãe protetora que, na verdade, sufoca Eddie. Mas, enquanto essas características de Sonia são reflexos do livro, a forma como a personagem é abordada no filme empresta-lhe uma característica maligna, uma influência realmente ruim na criança, algo que, ainda que possa ser a conclusão do que Stephen King escreve, não decorre diretamente da forma como ele descreve a relação entre os dois em seu livro. Mas a escolha do roteiro, aqui, faz pleno sentido lógico em relação ao que o filme se propôs.

Se Zach e Sonia andam na corda bamba entre um lado e outro, não há dúvidas sobre os pais de Bev e Henry. O primeiro (vivido por Stephen Bogaert) é um pedófilo em pensamento, prestes a efetivamente materializar aquilo que “deseja”, fazendo com que a filha viva em uma pocilga brilhantemente criada no filme de forma a parecer um labirinto de onde ela não pode escapar e, também, com uma iluminação escura, mas quente, com tons amarelos e vermelhos que tentam exprimir a putrefação do tipo de psicopatia sexual do pai. Diferente do livro, Bev parece não ter mais mãe. O pai de Bowers (Stuart Hughes), por outro lado, ganha poucos segundos de tela, mas vemos que ele é um policial local (também diferente do livro) que trata o filho de maneira desumana, o que explica os desvios psicológicos do próprio Henry.

E o mesmo pode ser dito da mulher que vê Georgie na rua e não faz nada, do farmacêutico Sr. Keene (Joe Bostick) que demonstra lascívia quando Bev usa seu charme para permitir que seus amigos furtem material para cuidar de Ben (curiosamente, o Sr. Keene do livro é completamente diferente, sendo a pessoa que revela à Eddie que ele toma placebos) e até mesmo do pai de Stan (Ari Cohen), mas aí de forma semelhante a Zach, tratando o filho de forma ríspida e seca em relação ao estudo do Torá. É como se os poucos adultos que existem na cidade fossem fantasmas ou encarnações de tudo aquilo que esperamos que eles não sejam.

A casa na Rua Niebolt

As grandes sequências de ação do filme, em preparação para o clímax no “quartel-general” de Pennywise, se passam na assustadora cada na Rua Niebolt, onde Eddie vê o mendigo leproso e onde, no roteiro, há um poço que parece ser o modo favorito de locomoção de Pennywise e a fonte simbólica de todo o mal na Derry histórica conforme as pesquisas de Ben. A fotografia de todo o filme, trabalho de Chung-hoon Chung, emula pessimismo e uma certa claustrofobia, algo que é uma de suas mais marcantes características em obras como Oldboy, Segredos de Sangue e A CriadaEssa abordagem se repete até mesmo nas tomadas ao ar livre na cidade, com tons levemente esmaecidos, mas que perdem completamente a vitalidade em ambientes fechados, seja a biblioteca onde Ben passa todo seu tempo livro, seja nos lares de Bill, Bev e Eddie, seja, claro, na casa mal-assombrada da rua Niebolt.

É, nesse cenário de completa desolação, que encapsula a maleficência da presença de Pennywise, que o diretor de fotografia esbanja seu talento, ainda que, por vezes, os efeitos especiais tomem de assalto as sequências, emudecendo todas as sutilezas de sua iluminação e paleta de cores. De toda forma, são duas sequência cinematograficamente eficientes que ainda funcionam para lidar com a separação dos Perdedores e o que isso significa em termos narrativos. Aprendemos, ali, que as sete crianças somente têm poder para enfrentar a Coisa se estiverem juntos e sua segregação pela entidade ancestral é uma estratégia para derrotá-los antes que eles possam ser uma verdadeira ameaça.

No livro, é nessa casa que a Coisa – na forma de um lobisomem – é ferida pela primeira vez pelos Perdedores, com Bev acertando-a com um estilingue e a última bala de prata. Há uma sensação de trabalho em grupo muito maior na obra de King do que na sequência no filme, já que apenas Bill, Eddie e Richie inexplicavelmente entram na casa em um primeiro momento, com os demais materializando-se convenientemente quando necessários para encerrar esse momento. Assim, quando Bev enterra uma “lança” de metal na cabeça da Coisa, há um estranhamento que nos desperta da imersão, já que a jovem surge do nada. Por outro lado, sua força e seu destemor abrem caminho para que o roteiro faça o necessário desvio da mais estranha sequência no livro de King, a orgia infantil.

Orgia infantil

No livro, as crianças têm entre 11 e 12 anos apenas, potencialmente um pouco mais novas do que no filme. A idade é importante, pois é ela que faz com que a escolha de Stephen King em colocá-las em uma orgia no esgoto algo ao mesmo tempo ousado e equivocado. A ousadia vem da própria coragem em escrever a sequência, em que Bev, do nada, percebe que, para mais uma vez reunir o grupo quando eles estão perdidos no subterrâneo da cidade, precisa transar com todos eles, um sinal de união definitiva entre os amigos. Assim, um garoto de cada vez transa com Bev, que reage de forma diferente a cada um deles, especialmente a Bill e Ben. O problema da cena não é ela ser estranha e nem por ser sexo entre pré-adolescentes, mas sim por ela estar completamente deslocada na progressão narrativa de King, parecendo algo gratuito e perdido na história.

Era óbvio, portanto, que não haveria nada disso no filme, por mais que as crianças pareçam um pouco mais velhas, talvez com 14 ou 15 anos. E é nesse ponto que a coragem de Bev em empalar a Coisa na casa da Rua Niebolt é usada de forma inteligente pelo roteiro. Ao não demonstrar medo, ela se torna o elo que congrega os Perdedores e Pennywise percebe isso, raptando-a e levando-a a seu esconderijo sinistro. Essa ação inexiste no livro completamente e o local onde a Coisa vive é bem diferente. De toda forma, a função do rapto de Bev é a mesma da orgia de King: reunir os personagens mais uma vez para o embate final. Com isso, o roteiro consegue passar bem ao largo de qualquer coisa com semblante de sexualidade, ainda que o fato de Bev ser a única menina no grupo é abordada na fita, mas sempre de forma mais leve e até jocosa, como na sequência em que os seis babões a veem tomar sol depois de eles mergulharem no lago da pedreira.

Pennywise

Dentre todas as escalações, a de Bill Skarsgård como Pennywise foi a que mais me causou espécie. Ele me parecia novo demais para viver uma criatura elemental como o palhaço assassino e também pouco talentoso para o trabalho. Mas meus temores logo se dissiparam quando as primeiras imagens do personagem saíram, em que provavelmente nem a mãe do ator o reconheceria debaixo da excelente maquiagem e figurino da produção.

Como um figurino de arlequino renascentista, o caráter ancestral do monstro ficou muito bem estabelecido, algo que é amplificado pela pintura de seu rosto, seus dentes protuberantes e sua testa desproporcional. O que na minissérie de 1990 era apenas um palhaço ganhou um ar efetivo de ameaça e de estranheza. No entanto, a produção fez uma escolha: Pennywise, em momento algum, seria um personagem que poderia passar-se como um palhaço de verdade. Optou-se por um monstro pura e simplesmente, sem que nem mesmo o prelúdio com Georgie soe convincente em termos de atração de uma criança, algo que, convenhamos, faz pleno sentido diante do inusitado (para usar um eufemismo) que é deparar-se com um palhaço no esgoto. Com isso, as limitações dramáticas de Skarsgård nem de longe atrapalham o personagem que tem apenas uma nota: ser ameaçador.

No entanto, Pennywise é uma presença maciça e constante no filme e, de certa forma, isso acaba diluindo a eficiência com que sua monstruosidade afeta o espectador. Lá pela metade da projeção, é perfeitamente possível considerar o palhaço assassino como um personagem que conhecemos tão bem quanto qualquer um dos Perdedores ou Henry Bowers e seu mistério se perde no processo, especialmente quando a porteira dos efeitos especiais é aberta e o vemos sair da projeção de slides, atacando o grupo. Mesmo considerando as diferentes formas com que ele se manifesta, a constante volta à forma de palhaço não nos deixa ter qualquer sombra de dúvida sobre a unicidade da ameaça. Se pensarmos na forma como Stephen King escreve as aparições de Pennywise, lembraremos que, no conjunto geral da gigantesca obra, sua presença é relativamente rara e seus avatares monstruosos mantém, por bastante tempo, a dúvida se estamos lidando com apenas uma ou várias ameaças.

Muschietti também não resiste em usar a entidade para tentar dar sustos no público, recorrendo a cansativos e desnecessários jump scares que quebram a atmosfera dramática mais do que funcionam efetivamente. É como se o diretor tivesse que reiterar que o filme é sim de horror e não um drama, enquanto que os melhores filmes de horror são justamente dramas repletos de tensão constante e não de pulos da cadeira.

O confronto final

Conceitualmente, o embate final entre a Coisa e os Perdedores é o ponto de maior divergência entre o material fonte e o livro. Os roteiristas, mesmo deixando claro que Pennywise é uma criatura sobrenatural, se esquivam de lidar com isso nos momentos finais, resultando em um clímax substancialmente mais mundano que o que King escreveu. No entanto, essa escolha tem relação direta com a separação das histórias paralelas em dois filmes, um exclusivamente no passado, com as crianças, e outro exclusivamente no presente, com os adultos.

No livro, as narrativas de um e outro momento temporal são paralelas, entrecortando-se e complementando-se. Na medida em que a obra vai chegando ao seu final, os pulos temporais vão se tornando mais constantes e até mesmo frenéticos até que vemos Bill, no passado e no presente, mergulhando em um transe e ingressando em uma viagem interdimensional e metafísica em que ele se depara com as forças do bem (representadas pela tartaruga Maturin, de A Torre Negra, que, aliás vemos duas vezes no filme, uma menção no lago da represa e, depois, uma escultura em Lego no quarto de Georgie) e com a verdadeira forma da Coisa, que é denominada, apenas, de deadlights, luzes alaranjadas difusas que causam uma sensação de horror. Fica fácil ver porque isso não funcionaria no filme: teríamos, possivelmente, um clímax muito parecido na continuação, quando ela for lançada, quebrando a surpresa e a expectativa do espectador. Com a separação dos filmes, era essencial que os finais fossem substancialmente diferentes e esse primeiro final, que coloca cada um dos sete Perdedores dando sua contribuição física para a “morte” da Coisa, foi a maneira que o roteiro encontrou para simbolizar a união do grupo.

Mesmo que tenha se procurado honrar a obra original, inclusive com uma versão das deadlights sendo usadas para colocar Bev em transe hipnótico que só é quebrado por um beijo (de amor verdadeiro?) de Ben, a questão é que a execução da cena de batalha é uma grande confusão em que não entendemos exatamente o que está acontecendo. Claro, o conceito está claro: eles não sentem mais medo e, portanto, a Coisa não tem mais o mesmo efeito sobre eles. No entanto, o embate físico é mal manejado pela montagem de Jason Ballantine (O Grande Gatsby) e parece ser simplista demais para a ameaça toda-poderosa que vinha sendo construída.

O futuro

A grande verdade, porém, é que a obra de Andy Muschietti transcende seus problemas e felizmente resulta em um filme coeso que desafia a forma como o gênero do horror tem sido tratado ultimamente. Fechado em si mesmo, mas deixando brechas para a inevitável continuação, o filme é uma das melhores adaptações de material de Stephen King, o que é uma surpresa diante do recente A Torre Negra e da natural complexidade que It – A Coisa (o romance) apresenta em termos de construção de personagens.

A escolha em se dividir o filme em duas histórias, uma no passado, outra no presente, é provavelmente o ás na manga que deu espaço para a captura à perfeição dos conceitos que o autor do livro costura em sua obra: os valores da amizade, o que é amadurecimento e o que significa reconhecer a maldade humana como componente do crescimento. Está tudo lá nessa bela abordagem bem feita e bem pensada do Clube dos Perdedores que abre caminho para uma continuação de tom mais sério e potencialmente pesado. Resta saber se haverá coragem em se continuar mantendo os filmes tão próximos assim da obra original, o que exigirá o mergulho no lado metafísico/interdimensional e algumas dolorosas perdas. Mas isso é o futuro. O presente é, para todos os efeitos, excelente.

It: A Coisa (It) — EUA, 2017
Direção:
 Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman (baseado no romance It – A Coisa, de Stephen King)
Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Stuart Hughes, Geoffrey Pounsett, Pip Dwyer, Molly Atkinson,  Steven Williams, Megan Charpentier, Joe Bostick, Ari Cohen, Anthony Ulc
Duração: 135 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.