Crítica | It – A Coisa, de Stephen King

estrelas 4,5

It –  A Coisa, diferente do que muitos podem achar só olhando a capa e a sinopse, não é um livro sobre um palhaço assassino. Na verdade, minto. Trata-se sim de um livro sobre um palhaço assassino se o leitor assim o quiser, algo que pode ser ditado pela idade de quem lê a obra, afirmação que faço de coração aberto e sem um pingo de preconceito. Afinal, se lido quando mais jovem, o calhamaço de Stephen King provavelmente será isso mesmo, uma interminável obra que coloca sete pessoas – em 1958, quando crianças e em 1985, quando adultas – contra um estranhíssimo monstro assassino que mais comumente toma a forma de um palhaço sinistro (como, aliás, o são todos os palhaços…).

Eu sei disso, pois, curiosamente, na medida do que pode ser razoavelmente considerado como algo paralelo ao épico de King, li esse livro no original em inglês pela primeira vez lá pelo ano de seu lançamento ou, talvez, o ano seguinte, ao longo de um sem-número de intervalos que passava na biblioteca de meu curso de inglês. De pouco em pouco – muito por teimosia que continua sendo uma de minhas características mais irritantes e ao mesmo tempo mais úteis – lidava com as mais de mil páginas de descrições, detalhes e desenvolvimento desses sete personagens e lembro-me muito claramente de ter achado o resultado final algo que poderia ser resumido como “muito blá, blá, blá, para pouco terror”.

Corta para 2017 e resolvi encarar a releitura de It – A Coisa, mesmo não sendo o maior fã de Stephen King e mesmo depois de comprometer um longo tempo mergulhado no (não tão bom assim) Mundo-Médio com a também interminável saga A Torre Negra. Mais uma vez, minha teimosia engrenou e não consegui evitar essa volta à Derry, cidadezinha fictícia do Maine (claro, onde mais?) em que a história se passa substancialmente nesses dois momentos temporais que citei acima. E, para minha gratíssima surpresa, mas que, racionalmente, muito claramente é decorrente de meu amadurecimento, desta vez tive uma experiência completamente diferente. A idade e a memória pregam peças e, exatamente como no desenvolvimento dos sete jovens amigos que protagonizam a obra, mudam a percepção sobre a vida.

Afinal, It – A Coisa, que realmente tem um palhaço assassino, é fundamentalmente sobre isso: o amadurecimento, a memória e o poder da amizade; o crescimento e as lembranças nostálgicas do passado embrenhados em uma cumplicidade incondicional; o que significa ser criança e, também, o que é ser adulto. Mas It – A Coisa, também lida com outro conceito, algo mais difuso, mas que é uma constante histórica, mas que só percebemos mais adultos e que está cada vez mais presente em nosso dia-a-dia, bastando que, para isso, olhemos ao nosso redor ou simplesmente liguemos a televisão em um telejornal: a maldade humana e como nossa crescente compreensão desse conceito é um fator determinante em nosso amadurecimento.

Iniciando com uma sequência arrepiante, em que vemos o pequeno Georgie Denbrough, em 1957, com sua capa amarela, ao final de uma enchente na cidadezinha de Derry, brincando na rua com um barquinho de papel parafinado feito amorosamente por seu irmão mais velho Bill, que não pode sair de casa por estar doente. Quando seu brinquedo é levado pela correnteza do meio-fio e cai no esgoto por um bueiro, ele tenta alcançá-lo, surrealmente deparando-se com Pennywise, um aterrorizante palhaço com balões coloridos de gás que, da escuridão, atrai Georgie, assassinando-o violentamente em seguida.

Esse é o pontapé inicial apenas, pois Stephen King costura uma complexa teia de acontecimentos alternando entre 1958, quase um ano após a morte de Georgie e 1984 e 1985, quando novas mortes recomeçam, mas também abordando outras épocas na mesma cidade ao longo de interlúdios e outros artifícios que permitem que o leitor tenha uma fotografia panorâmica, mas suficientemente detalhada sobre os horrores que acontecem por ali há muito tempo. O que cria a liga aos dois principais momentos temporais é o grupo de sete crianças antes solitárias e deslocadas – o gago Bill Denbrough, o gordo Ben Hascom, a menina Bev Marsh, o falastrão Richie Tozier, o negro Mike Hanlon, o hipocondríaco Eddie Kaspbrack e o judeu Stan Uris – que se reúnem por fortes laços de amizade e que enfrentam a ameaça na década de 50 e têm que enfrentá-la novamente 27 anos depois, já adultos.

A alternância das histórias é elemento narrativo fundamental, assim como os termos qualificadores que usei antes do nome de cada um dos membros do chamado Clube dos Perdedores. King utiliza cada uma dessas características específicas de seus personagens para tecer uma rica história pregressa para cada um deles, sem pressa, sem qualquer ansiedade em chegar ao “final”. Nessa obra – como acontece com as melhores – o verdadeiramente importante é a jornada, é o longo caminho percorrido por cada um deles, no passado e no presente, para chegar ao clímax duplo, com a alternância temporal sendo cada vez mais constante, intensa e paralela, com King usando uma espécie de amnésia coletiva que é fluidamente trabalhada para deixar o leitor em suspense sobre os acontecimentos. Por isso é que a leitura desse livro em idade tenra pode gerar insatisfação pelo tamanho do texto e pelos mínimos detalhes que são descritos por King para cada uma de suas criações, com especial destaque para Bill que, adulto, é um escritor de sucesso e, queira ou não, é a representação do próprio autor dentro da história e que ele usa para fazer suas próprias críticas ao que ele percebe como sendo a elite intelectual que faz pouco caso para a literatura dita de “consumo fácil” que é o que compõe grande parte de sua própria bibliografia, mas que, arrisco dizer, não é o caso de It.

Mas suas críticas vão muito além do pessoal e King desfila um mundo de crueldades grandes e pequenas, reunindo propositalmente todo o tipo de violência nesse seu universo diminuto em algum lugar no Maine. Há bullying, representado pelos vilões humanos, o valentão Henry Bowers e sua gangue, assim como pedofilia, violência doméstica, preconceitos das mais variadas formas, notadamente o racial (Mike), o de gênero (Bev), o religioso (Stan) e o físico (Ben), além da negligência e pouco caso (às vezes é muito pior fechar o olhos para o que acontece ao redor…) e uma pletora de outros angustiantes exemplos que ajudam a construir histórias que, infelizmente, tocarão uma grande parcela dos leitores do livro, seja direta ou indiretamente.

É, porém, particularmente brilhante como King chega talvez ao seu ápice no mergulho na psiquê de crianças. Suas obras sempre contaram com uma importante presença de jovens, mas, aqui, ele lida com seus personagens em 1958 – todos por volta dos 11 e 12 anos – de uma forma tão rica, tão genuína que ele consegue facilmente dialogar com a criança dentro de cada adulto, tocando nas teclas das lembranças, da nostalgia, da saudade e do “ser criança” como poucos autores modernos conseguem. Claro que ele deve ter usado suas próprias experiências e muito do que ele aborda é “bem americano”, mas, independente da nacionalidade de quem lê esse épico de gerações, é impossível não fazer algum tipo de conexão, mesmo que seja somente apreciar o realismo com que ele aborda cada criança.

Até quando ele lida com seus personagens já adultos, também tecendo um ótimo panorama para cada um deles com quase 40 anos, ele o faz com um olhar ao passado deles. Seja pelo uso de um determinismo social às vezes deveras conveniente, com a versão adulta de alguns personagens não tendo mudado quase nada, como é o caso de Eddie Kaspbrack que se casa com uma mulher que é praticamente a sua mãe, em um Complexo de Édipo kafkiano ou de Bev Marsh, que aguentou a violência de seu pai somente para casar com um homem ainda pior. No entanto, o leitor reparará que há bem menos foco no presente pessoal de cada um do que no passado pessoal e coletivo deles e no presente coletivo, já que os agora homens e mulher são chamados de volta à Derry em razão de um juramento de sangue que fizeram quando criança.

Considerando que o livro foi idealizado ao final dos anos 70 e King começou a escrevê-lo em 1981, para lançamento cinco anos depois, não é surpresa notar que ele não foi contaminado pela praga do exacerbamento do politicamente correto que, hoje, assola o mundo e que, em muitos casos, tolhe a liberdade de expressão. Aqui, vemos os garotos se tratarem como garotos, com um linguajar que soa preconceituoso, mas que exala afeto, especialmente levando-se em consideração que a ação deles quando criança se passa ao final da década de 50. Richie Tozier é o maior exemplo disso, pois ele, quando criança, adora fazer vozes – o que o levaria à sua profissão de disc jockey e radialista – e contar piadas sem perdoar ninguém: a gordura de Ben, a etnia de Henry, a gagueira de Bill, a hipocondria de Eddie, a religião de Stan e o gênero de Bev (bip, bip, Richie!). Há uma grande naturalidade nessa abordagem de King, que sabe contrastar a benignidade de Richie – e também seus amigos – com a malignidade de Henry – e vários outros, crianças e adultos -, além de deixar muito claro que o oceano de maldades e perversidades é muito, mas muito maior do que a problematização de brincadeiras entre amigos.

Como em um grande número de livros de Stephen King, o autor não foge do elemento sobrenatural perpassando toda a sua história, especialmente, claro, no que diz respeito à “Coisa”. Diria que, quando ele tenta racionalizar o grande vilão, dando-lhe uma explicação, ainda que propositalmente omitindo detalhes, King acaba retirando um pouco da culpa dos homens por toda a violência que ele aborda. Mas é importante entender, primeiro, que a “Coisa” não justifica os atos, apenas dá vazão ao que parece ser algo inerente em todos nós (queiramos ou não aceitar essa afirmação que pode sim doer) e, portanto, não pode ser usada como a única razão para as mazelas por que os personagens passam e por que nós passamos também na extrapolação do que o autor escreve para o mundo real. Além disso, essa racionalização da “Coisa” permite o desenvolvimento dos finais duplos – em 1958 e 1985 -, que ganham um lado bastante interessante dentro desse conceito sobrenatural que ele aos poucos estabelece, fazendo até mesmo ligação com A Torre Negra (mas é uma ligação que, para quem não leu a saga do Mundo-Médio de King, não afetará em nada a história).

Esses finais, aliás, apesar de, de certa forma, destoarem do tipo de narrativa que o autor constrói ao longo de quase mil páginas e de ser, portanto, menos interessantes do que a jornada que os antecedem, encerram de maneira quase perfeita a história. Meu único senão em relação aos momentos em que os sete – quando jovens e quando adultos – lidam com a “Coisa” – é um desvio para um estranho lado em que King usa o sexo como uma forma de reunir os personagens. Não que eu seja pudico ou moralista, muito longe disso, mas considero que a inserção desse momento não decorre do que ele estabelece antes em sua história, parecendo-me algo sem função maior do que a sequência em si mesma. Mas o autor compensa o que vi como um deslize desnecessário ao escrever um belíssimo e comovente epílogo que talvez seja a perfeita fusão de toda as temáticas que ele aborda. Chega a dar aquela vontade de pegar um álbum de fotos da infância e viajar para esse passado em que cada um de nós estava à beira de tornar-se adulto, ansiando por isso, mas ainda completamente sem consciência do que nos esperava, do que exatamente é ser adulto e todas as maravilhas – e também dissabores – que o amadurecimento traz.

It – A Coisa tem palhaço assassino, sem dúvida. Mas tem muito mais do que isso. A leitura dessa grande obra de Stephen King – quiçá sua melhor – é mais do que recomendada, pois o tempo empregado nela será recompensado com muitas reflexões boas, mas também ruins, sobre passado, presente e futuro. Pennywise assusta, sem dúvida, mas a vida pode assustar ainda mais, ao mesmo que mostra como ela é bela.

It – A Coisa (It, EUA – 1986)
Autor: Stephen King
Tradução: Regiane Winarski
Editora original: Viking Press
Data original de publicação: setembro de 1986
Editora no Brasil: Editora Objetiva (selo Suma de Letras)
Data de publicação no Brasil: 1º de agosto de 2014 (edição nacional atual)
Páginas: 1.104 (edição nacional atual)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.