Crítica | It: A Coisa

– Leiam, aqui, nossa crítica com spoilers e com comparações com o livro.

Quando podemos dizer que um filme provoca medo no espectador? Quando chegamos em casa, após a sessão e hesitamos ao apagar as luzes antes de dormir? Ou seria o medo sinônimo de jump scares, sejam eles provocados por rápidos inserts ou música alta? E quando é criada uma atmosfera de tensão, que nos oprime, deixando com o coração na boca? Acredito que todas essas possíveis respostas (e outras mais) enquadram-se como definições de medo, afinal, por se tratar de uma emoção, não há como defini-lo de maneira tão limitada, especialmente considerando as suas variadas formas: temer o escuro, por exemplo, é algo totalmente diferente de sentir medo de aranhas, fantasmas, etc.

Com essa questão em mente, como podemos limitar o que é um filme de terror? De imediato, seu objetivo primário seria causar o medo no espectador, independente da forma utilizada para tal. O grande problema disso é que, ao limitar todos os filmes do gênero dessa forma cometemos, no mínimo, uma injustiça. Afinal, qual é o objetivo de um drama? Certamente, considerando o que é esperado dele, existe uma maior manobrabilidade, já que não nos prendemos ao gênero em si, como no terror e sim à sua história, essa, sim, que define o que a obra deve ser. Enxergar o cinema através de moldes, ou gêneros, portanto, nada mais é que criar um pré-conceito baseado na receita de bolo com a qual estamos acostumados. Um filme é um filme e não um filme de terror ou um filme de suspense, ação, aventura, etc. Tais classificações foram inventadas com fins comerciais, seja para a facilitar o objetivo da campanha de marketing ou para possibilitar que as (falecidas) locadoras pudessem organizar suas lojas.

E por que disse tudo isso? Pois, se assistirmos It: A Coisa, mais nova adaptação do livro homônimo de Stephen King, na expectativa de ver um filme de terror, sairemos decepcionados do cinema. Esse não é um filme para provocar sustos ou até mesmo nos deixar tensos durante toda a projeção, ele vai muito além disso, nos entregando uma história de amadurecimento, que lida com pertinentes problemas de nossa sociedade, que vão desde o bullying até a pedofilia. Não temos aqui uma história de crianças que enfrentam um monstro e sim uma grande metáfora da maldade no ser humano, utilizando a infância dos personagens centrais para explicitar a podridão do homem, que é perfeitamente resumida na figura de Pennywise, o palhaço. Além disso, diferente da adaptação de 1990, que intercala entre dois momentos temporais como na obra de King, a nova versão foca apenas nos protagonistas ainda crianças, mas alterando a ação de 1958 para 1988.

A obra tem início com aquela que talvez seja sua mais emblemática sequência. Bill (Jaeden Lieberher) e seu irmão caçula, Georgie (Jackson Robert Scott), fazem um barco de papel, para que o mais novo possa brincar com ele na chuva do lado de fora da casa. Perseguindo  o barquinho pelo fluxo de água, o menino não consegue impedir que ele acabe caindo no esgoto e, ali no buraco de escoamento, ele conhece Pennywise (Bill Skarsgård), que pede para que o garoto se aproxime para que ele possa devolver o barco – mal sabia, a criança, que o palhaço não estava dando uma de bom samaritano. Um ano se passa desde o desaparecimento de Georgie e, junto com ele, outros casos de começam a aparecer. Determinado a encontrar seu irmão, Bill e seus amigos, o “clube dos perdedores” iniciam uma aventura para descobrir o que há por trás desses estranhos casos na cidadezinha de Derry.

De imediato It: A Coisa já começa a lidar com questões como a pedofilia e a inação dos adultos da cidade. O roteiro de Chase Palmer, Cary Fukunaga e Gary Dauberman sabe muito bem distanciar as crianças de qualquer figura mais velha, esses que somente aparecem para, de alguma forma, prejudicar a vida dos personagens centrais, seja através da simples falta de alguém para protegê-los ou de danos psicológicos e físicos diretos, como é o caso do pai de Beverly Marsh (Sophia Lillis), que conta com uma doente obsessão por sua filha, deixando no ar a possibilidade de abusos sexuais. Dessa forma, tudo pelo o que eles passam pode ser enxergado como uma válvula de escape, ora de forma sadia, pela convivência com os amigos, ora com os traumas aparecendo.

É nesse ponto que Pennywise entra. Ele é uma figura perturbadora não pelo medo que causa por si só, mas por aquilo que ele representa: tudo o que há de errado em Derry. Skarsgård sabe transitar, com maestria, entre a figura inofensiva do palhaço amigável, aparência realçada pelos olhos azuis levemente estrábicos, e o aspecto monstruoso da criatura, com suas feições alterando-se completamente, trazendo uma mistura de ódio e sadismo. Mesmo representando os medos de cada um dos membros do clube dos perdedores, esses diretamente ligados às figuras mais velhas de seu círculo social, há um quê de infantilidade nessa caracterização da “Coisa”. Ele parece genuinamente divertir-se com suas ações, mais brincando, de forma cruel, com os meninos e menina do que efetivamente tentando consumi-los, algo bem salientado pela sua recusa em se esconder – ele aparece quando quer, deixando as sombras de lado quando bem entende – questão que dialoga com os adultos da cidade, cujas ações constantemente abalam o psicológico dessas crianças, a tal ponto que, ao término da projeção, torcemos para que Pennywise destrua a cidade toda, deixando apenas os “perdedores” vivos, mesmo sabendo que isso não irá acontecer.

Existe, portanto, um ar de tragédia e abandono, que permeia a narrativa do início ao fim, que nos faz enxergar Derry como um lugar em decadência. Esse aspecto trágico da história é muito bem representado pela figura de Henry Bowers (Nicholas Hamilton), o bully da escola, que persegue o clube dos perdedores de forma bastante violenta. Enquanto ele próprio desestabiliza ainda mais o emocional dessas crianças, não podemos deixar de enxergá-lo como outra vítima de seu meio, mais um caso de péssima criação por parte dos pais e, claro, da própria instituição educacional, que, em momento algum, busca frear as violências cometidas dentro ou próximo do colégio. Em razão disso, por muito tempo, sentimos como se sequer houvessem adultos nessa cidade, ponto que gera ainda mais desconforto, quando somos lembrados que eles estão ali, mas não fazem nada ou só somam às maldades mostradas no texto.

O roteiro muito bem contrapõe toda essa construção com os trechos que mostram as brincadeiras e aventuras dos amigos os quais acompanhamos. Tais momentos configuram-se como necessários alívios dentro dessa problemática sociedade, que, assustadoramente, assemelha-se com a nossa. Trechos cômicos inesperadamente se fazem presentes, além de melodias oitentistas, que praticamente nos fazem esquecer do terror que esperávamos ver. São nessas ocasiões que Pennywise aparece, como a lembrança de que aquela diversão é passageira, assombrando as crianças como a trágica realidade querendo destruir de vez suas vidas. O “terror”, portanto, se faz presente nessas ocasiões, o que é deixado bem claro pelo maior uso da escuridão, que não visa nos assustar, mas evidenciar o risco corrido pelos personagens centrais. Aos poucos, contudo, a fuga transforma-se em enfrentamento, representando o amadurecimento dos jovens, que cansaram de ser aterrorizados pela maldade presente em suas vidas. Nisso o texto deixa bem claro o poder dessa amizade, que dá força a cada um deles, de forma que um sustenta o outro, possibilitando, pois, que saiam por cima, desvencilhando-se de tudo aquilo que os aflige.

Por vezes, sentimos determinado exagero na duração das cenas mais “tranquilas”, questão que prejudica um pouco o ritmo da obra, fazendo-a soar mais longa do que verdadeiramente é. Esse exagero também se aplica a algumas superexposições. Enquanto Pennywise funciona plenamente, tanto pela interpretação de Skarsgård quanto pela sua caracterização – as roupas com toque renascentista foram um belo acerto, denotando a ancestralidade da criatura -, outras manifestações do medo de cada um não funcionam tão bem, em especial a mulher do quadro, que representa um excesso de computação gráfica. Além disso, é preciso notar como o diretor, Andy Muschietti, por vezes, abandona o que ele estava fazendo durante todo o filme e tenta realizar alguns jump scares, que simplesmente não funcionam, quebrando, pontualmente, a identidade visual do longa.

Outra forte ressalva que devo levantar é em relação aos momentos finais do clímax, que se transforma em uma verdadeira bagunça, com direito a todos os problemas que afligem filmes com maior teor de ação: câmera tremida, planos muito próximos e cortes em excesso. Isso, sem dúvidas, prejudica nossa visão geral da obra, mas nada que nos distancie dos outros (muitos) acertos do filme, nos deixando mais com um sentimento de pena, querendo ver um desfecho digno de tudo aquilo que o antecedeu.

No fim, a ideia que permanece conosco é que It: A Coisa não é um filme de terror e sim um longa-metragem sobre amadurecimento, que utiliza elementos de terror para simbolizar a própria maldade do ser humano. Decepcionar-se com essa obra por ela não ter causado muito medo ou sustos é simplesmente ignorar tudo o que foi construído ao longo desses cento e trinta e cinco minutos, que nos mostram que o ser humano pode ser muito mais assustador que um palhaço assassino.

It: A Coisa (It) — EUA, 2017
Direção:
 Andy Muschietti
Roteiro: Chase Palmer, Cary Fukunaga, Gary Dauberman (baseado no romance It – A Coisa, de Stephen King)
Elenco: Jaeden Lieberher, Jeremy Ray Taylor, Sophia Lillis, Finn Wolfhard, Chosen Jacobs, Jack Dylan Grazer, Wyatt Oleff, Bill Skarsgård, Nicholas Hamilton, Jake Sim, Logan Thompson, Owen Teague, Jackson Robert Scott, Stephen Bogaert, Stuart Hughes, Geoffrey Pounsett, Pip Dwyer, Molly Atkinson,  Steven Williams, Megan Charpentier, Joe Bostick, Ari Cohen, Anthony Ulc
Duração: 135 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.