Crítica | It: Uma Obra Prima do Medo

Adaptar It – A Coisa, icônico livro de Stephen King, para qualquer mídia audiovisual não é exatamente uma tarefa fácil. Não somente o livro conta com mais de mil páginas (na atual edição brasileira), como ele se divide em dois tempos distintos que dialogam entre si, fator, esse, que se não for muito bem adaptado pode destruir o ritmo do filme ou série de televisão. It: Uma Obra Prima do Medo, minissérie de dois episódios, lançada em 1990, acaba se auto-sabotando justamente por seguir a estrutura criada por King em seu romance de terror, nos entregando mais de três horas de narrativa hesitante, que acaba configurando-se como uma história enfadonha com alguns pontos que merecem destaque.

Desenvolvida, em geral, simultaneamente no passado e presente, a minissérie nos conta a história de um grupo de sete amigos, que descobrem a presença de uma terrível entidade responsável pelas mortes e desaparecimentos que ocorrem na pequena cidade de Derry a cada trinta anos (por que o roteiro de Tommy Lee Wallace e Lawrence D. Cohen decidiu arrendondar os vinte e sete anos originais eu sinceramente não sei). Esse ser, chamado pelo grupo de “It” (ou a coisa) e autodenominado Pennywise (Tim Curry), que toma forma daquilo que eles mais temem, além de sua “padrão” aparência de palhaço, alimenta-se do medo e só pode ser combatida por eles todos juntos, caso contrário, irá acabar com eles um a um. Trinta anos após derrotar a criatura pela primeira vez, eles se reúnem, já adultos, para terminar o serviço.

Um dos principais aspectos do livro, que acaba se perdendo nessa adaptação, é como Pennywise representa toda a maldade do ser humano, que, no caso dessa cidadezinha, pode ser encontrada mais abertamente, com representações específicas de pedofilia, racismo, segregação social, dentre outras mazelas de nossa sociedade. Nessa minissérie, contudo, dá a entender como se tudo fosse, de certa forma, provocado pela Coisa, questão que é apenas levantada e jamais devidamente explorada, simplificando, pois, toda a história à um simples combate contra um monstro e, claro, o medo em si.

A inexistência de uma maior profundidade nessa narrativa, pois, elimina o amadurecimento dos personagens centrais – esses são bem-sucedidos em suas carreiras, mas, pessoalmente, não se diferenciam tanto de si próprios quando crianças. É perdido muito tempo com a arrastada introdução, que nos leva de personagem a personagem no presente e passado, deixando, portanto, pouco tempo para a construção, de fato, de cada um. No fim, sabemos que eles são amigos e só. Não bastasse isso, esse lento período pré-retorno a Derry quebra o ritmo narrativo sucessivas vezes, criando uma estrutura episódica que muito prejudica nossa imersão, dilatando a duração da obra como um todo, fazendo da primeira das duas partes da minissérie uma verdadeira provação.

A segunda parcela, por sua vez, funciona de forma mais fluida, com apenas breves e pontuais flashbacks, mas, a esse ponto, nosso interesse já foi parcialmente perdido. Não ajuda, também, o fato de que muitos desses trechos do passado são apenas repetições do que já vimos antes, o que nos leva a questionar a escolha de ter sido mostrado menos do presente no primeiro capítulo, sendo que a história poderia ser desenvolvida de forma mais engajante se ambos os tempos seguissem em paralelo por mais tempo ou se primeiro fosse feito um e depois o outro, sem qualquer flashback.

A obra como um todo é ainda mais prejudicada pelas tenebrosas atuações de praticamente todo o elenco, causando risadas espontâneas em determinados trechos, visto que alguns atores parecem simplesmente ter decorado suas falas sem empregar nenhuma emoção quando as dizem e, quando conseguem demonstrar algo, é de forma exagerada, excessivamente dramática. O único que, parcialmente, se salva é Tim Curry como Pennywise e digo parcialmente pois ele não transmite nenhum medo, embora nos entretenha com suas aparições aqui e lá. Aliás, em momento algum a minissérie justifica seu subtítulo, causando mais risadas do que tensão, de fato e nem mesmo Henry Bowers (Jarred Blancard) consegue trazer algum desconforto ao espectador.

It: Uma Obra Prima do Medo, portanto, nada mais é que uma péssima adaptação de livro de Stephen King. Embora seja capaz de entreter-nos com as aparições de Pennywise e com a aventura como um todo, não conseguimos deixar de lado os muitos deslizes que vão desde a narrativa hesitante até as péssimas atuações do “clube dos perdedores”. De medo não há nada nessa minissérie, que mais nos faz rir do que qualquer outra coisa, mostrando o quão difícil é adaptar esse livro específico do autor americano.

It: Uma Obra Prima do Medo (It) — EUA, 1990
Direção:
 Tommy Lee Wallace
Roteiro: Tommy Lee Wallace, Lawrence D. Cohen (baseado no livro de Stephen King)
Elenco: Richard Thomas, Tim Reid, Annette O’Toole, Harry Anderson, Dennis Christopher, Richard Masur, Tim Reid, Jonathan Brandis, Brandon Crane, John Ritter, Tim Curry
Duração: 192 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.