Crítica | iZombie – 2ª Temporada

estrelas 4

Obs: Leia a crítica da temporada anterior, aqui.

Tendo apreciado a dinâmica da primeira temporada, mas conhecendo a irregularidade (para usar um eufemismo) da qualidade da produção audiovisual da The CW, especialmente no que toca adaptações de quadrinhos, como é o caso de iZombie, e tendo recebido a notícia de que a segunda temporada teria não 13 episódios como a anterior, mas absurdos e desnecessários 19, estava preparado para detestar o resultado final. E, talvez para mostrar que toda regra tem uma exceção, iZombie surpreendeu-me pela segunda vez.

Depois de assistir a nova temporada, maior e teoricamente mais inchada, tive a certeza de que os problemas das demais séries baseadas em quadrinhos da produtora em questão são seus showrunners, que acham que podem saciar a fome de seus espectadores pegando personagens clássicos da DC Comics e simplesmente colocando no ar episódio atrás de episódio no automático, sem qualquer controle de qualidade e sem aproveitar seus respectivos potenciais que são, diga-se de passagem, imensos. Basta ver os casos da cada vez mais tenebrosa Batman FalidoArrow, da não mais do que meramente razoável Ligeirinho e Seus AmigosThe Flash e da mais recente oportunidade desperdiçada, Cospobre da Liga da JustiçaLegends of Tomorrow.

iZombie, então, ironicamente, vem para provar que nem só de zumbis comedores de cérebros vive a produtora e que há sim vida inteligente por trás das séries infelizmente bobalhonas que parecem ser seu padrão. Quem diria!

Baseada nos excelentes quadrinhos homônimos de Chris Roberson e Michael Allred pela Vertigo Comics (selo mais, digamos, sério da DC Comics), Rob Thomas e Diane Ruggiero-Wright, responsáveis por Veronica Mars, adotam meramente o conceito da obra original – uma zumbi médica-legista que precisa comer cérebros para evitar que se transforme em zumbi monstruoso e, no processo, absorve as memórias do falecido – e dão outra roupagem completamente diferente à sua obra televisiva. Toda pegada fortemente sobrenatural de Roberson e Allred sai pela janela e, em seu lugar, entra uma estrutura de caso da semana com uma história maior por trás.

Sim, estou elogiando uma série que não só é da The CW, como tem quase 20 episódios e, como cereja no bolo, é baseada em um caso diferente a cada novo capítulo. Aqueles que acompanham minhas críticas aqui no site provavelmente estarão com vários pontos de interrogação flutuando em volta da cabeça, perguntando se eu não estaria doente ou, talvez, sob a influência de algum cérebro menos exigente.

Mas, justiça seja feita, iZombie é uma ótima série que só cresceu e melhorou em sua primeira temporada, apesar das três características acima serem, em princípio, negativas. E a chave é mesmo, como disse, o controle da série por uma dupla que realmente sabe escrever e tem o discernimento para entender que série voltada ao público juvenil e jovem adulto não precisa ser emburrecedora, pode – e deve! – oferecer desafios. E desafios é o que os roteiros jogam para seu público a cada novo episódio, normalmente na forma de ironia, sátira e muita, mas muita crítica social.

Na camada mais aparente, a série é mais uma de zumbis, a moda do momento. Mas essa qualificação simplesmente para por aí se o espectador souber olhar para debaixo do capô e usar sua massa cinzenta. iZombie fala do cotidiano das pessoas, de modas passageiras, de manias, de vícios, de vaidade, de inveja, de violência, de preconceito e sim, de amor, romance, coragem, altruísmo, mas tudo embalado em um conjunto harmônico caracterizado por textos levemente cômicos recheados com uma fartura de referências à cultura pop, começando pelos títulos dos episódios e permeando praticamente cada diálogo, cada pista visual, cada relacionamento.

E, no meio disso tudo, temos a jovem neozelandesa Rose McIver comandando o show praticamente sozinha. Como sua personagem – Liv Moore – absorve não só as memórias, mas também as personalidades dos donos dos cérebros que ingere, cada um de forma diferente que valeria um livro de receitas, a atriz, que precisa atuar na grande maioria do tempo com maquiagem que a faz ficar pálida e com cabelos brancos, vive uma pessoa diferente a cada episódio. Temos a Liv rabugenta, a Liv que só vê o lado positivo das coisas, a Liv cientista, a Liv fútil e até mesmo a Liv stripper, tudo praticamente só com a troca de figurino e com McIver usando de toda sua latitude para soltar diálogos com timbres de voz diferentes, com mais ou menos velocidade e com uma linguagem corporal impressionante. Deve ser um dos papéis de série de TV mais exigentes para um artista e a atriz recria sua Liv Moore completa e perfeitamente a cada nova personalidade adquirida. Um trabalho que merece reconhecimento, sem dúvida.

Reparem, porém, que tomei o cuidado de afirmar que McIver comanda o show “praticamente” sozinha. E fiz isso para não deixar de fora seus coadjuvantes que, graças a roteiros que sabem equilibrar, na maior parte do tempo, suas presenças em tela, conseguiram se superar aqui. E Malcolm Goodwin, que vive o detetive de homicídios Clive Banineaux que recruta os serviços de Liv já que acredita que ela é “psíquica”, é quem realmente merece ser destacado aqui, por não ter conseguido sair da sombra da protagonista na primeira temporada. Antes meramente um personagem simples e clichê, praticamente recortado em cartolina, Clive ganha mais profundidade aqui e Goodwin não se faz de rogado ao subir a qualidade de sua representação para algo que, se ainda está longe da naturalidade de McIver, pelo menos equipara-se ao resto do elenco principal, aí incluindo Rahul Kohli como o Dr. Ravi Chakrabarti, chefe de Liv no necrotério, nerd e alívio cômico constante que não desiste de procurar a cura para a zumbificação, Robert Buckley como o impossivelmente batizado Major Lilywhite, ex-noivo de Liv transformado em assassino de aluguel e um dos personagens mais trágicos da série e David Anders, como o sinistro, mas divertido Blaine DeBeers (bem, pelo menos esse é um dos nomes dele…), agora como humano normal e dono de uma funerária.

Com a segunda temporada começando pouco tempo depois do explosivo término da primeira, os roteiros souberam continuar a história sem recorrer a artifícios comuns de séries assim, especialmente a rápida volta ao status quo anterior, depois de uma aparência de mudança. Muito ao contrário, as alterações determinadas pelos vários cliffhangers deixados anteriormente realmente mudam o jogo e, com isso, a série evolui a olhos vistos. Os casos da semana continuam, mas eles passam a ficar um nível abaixo da trama principal que é desenvolvida em simplesmente todos os 19 episódios algo que, confesso, é raríssimo de se ver por aí. Novos personagens são introduzidos – o traficante mafioso Stacey Boss (Eddie Jemison), a agente do FBI e interesse romântico de Clive Dale Bozzio (Jessica Harmon) e o capanga de Boss e interesse amoroso de Liv Drake Holloway (Drake Finley) – sem que eles pareçam marretados na trama e realmente contribuindo para seu desenrolar com seguidos twists na narrativa que enriquecem a experiência.

Além disso, a narrativa envolvendo a empresa Max Rager, seu inescrupuloso dono Vaughn Du Clark (Steven Weber) e sua filha e assistente Gilda (Leanne Lapp, introduzida também nessa temporada) e o desenvolvimento de uma nova versão de sua bebida energética, ganha intensa e estreita ligação com o resto da narrativa e abrindo caminho para uma potencialmente interessante terceira temporada (já autorizada e em produção). Em poucas palavras, Rob Thomas e Diane Ruggiero-Wright costuraram uma história inesperadamente coesa e gratificante que faz sentido, flui bem e faz o melhor uso de seu elenco e das possibilidades de críticas e comentários sociais.

Claro que tudo poderia ser feito com menos episódios, pois é às vezes sensíveis algumas reviravoltas inseridas na trama apenas para alongá-la, mas, diferente do que normalmente se vê por aí, não há um episódio sequer que possa ser facilmente rotulado de filler. O ritmo que os showrunners mantém por todos as 19 partes criam uma cadência gostosa à narrativa que faz o espectador engajar-se mesmo no mais bobo caso da semana.

O impossível aconteceu e uma série de zumbis baseada em quadrinhos, voltada para o público adolescente e produzida pela The CW conseguiu efetivamente evoluir de uma já boa temporada, para uma ótima temporada. Nada como um pouco de cérebro por trás da direção da história, não é mesmo?

Que venha a terceira temporada!

iZombie – 2ª Temporada (EUA – 2015/16)
Desenvolvimento e showrunners:  Rob Thomas, Diane Ruggiero-Wright (baseado em quadrinhos de  Chris Roberson e Michael Allred)
Direção: vários
Roteiro: vários
Elenco: Rose McIver, Malcolm Goodwin, Rahul Kohli, Robert Buckley, David Anders, Aly Michalka, Steven Weber, Leanne Lapp, Jessica Harmon, Eddie Jemison, Greg Finley
Duração: 546 min. (19 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.