Crítica | Já Sinto Saudades / Já Estou com Saudades

estrelas 2,5

O grande pecado de Já Sinto Saudades / Já Estou Com Saudades, o primeiro nome usado no material de divulgação do Festival do Rio 2015 e, o segundo, nos posteres nacionais à época do Festival, é desperdiçar as particularmente boas atuações de Drew Barrymore e Toni Collette como inseparáveis amigas de infância aos 40 anos. Falta ao filme uma definição sobre o que exatamente quer ser e, com isso, as interpretações diluem-se em uma pegada ora de chick flick, ora de filme para fazer chorar copiosamente que não são completamente realizadas.

Mas seria uma injustiça dizer que a produção é descartável. Não é. Serve, em primeiro lugar, como um forte e gráfico sinal de aviso sobre a importância dos exames preventivos do câncer de mama (chega a ser um pouco panfletário neste ponto, mas não há algo inerentemente errado nisso) e do que essa doença devastadora pode causar. Na obra, a britânica Milly (Colette), uma glamourosa relações públicas é diagnosticada com o câncer e, a partir daí, vemos o efeito da doença sobre ela, sua família e, claro, sua forte amizade com a americana radicada em Londres Jess (Barrymore), funcionária de uma ONG ecológica.

O roteiro, escrito por Morwenna Banks (em seu segundo trabalho para o cinema), é maniqueísta desde as caracterizações das amigas. Lógico que Milly, preocupada ao extremo com sua imagem, um tantinho egoísta, é a que sofre da doença que a destrói fisicamente. Se fosse o contrário, com o câncer atacando a desleixada Jess, o impacto não seria o mesmo, pelo menos não na estrutura montada por Banks que sabe perfeitamente bem apertar os botões para manipular a audiência, carregando no sentimentalismo e, com a direção de Catherine Hardwicke (do tematicamente semelhante Aos Treze, seu longa de estreia), no apelo gráfico da doença, com agulhas em close-up e cabelo caindo em razão da quimioterapia.

Além disso, Banks dá pouco tempo para o espectador entender a verdadeira natureza e profundidade da amizade entre as duas, fiando-se em uma montagem inicial (eficiente, mas insuficiente) contando como elas se conheceram. Ela até abre caminho para um filme que pode genuinamente divertir e emocionar em medidas iguais, mas há desequilíbrio entre as duas partes, com forte peso na doença e em seu aspecto gráfico e pouco peso dramático na vida das duas, que estão logo casadas e com 40 anos, Milly bem-sucedida e com dois filhos e Jess vivendo em uma casa-barco e tentando de tudo para engravidar. Repararam nessas oposições óbvias? Vida feliz destruída e vida pouco ambiciosa que vai se completando? Mais uma vez a mão pesada no roteiro em criar antíteses clichê derrubam e enevoam o propósito do filme.

Mas claro que, para quem gosta de emoção mais para o lado “barato” da coisa, encontrará aos borbotões em Já Sinto Saudades / Já Estou com Saudades (nem o título é delicado e discreto). E, como disse, as atuações de Barrymore e Colette merecem destaque, ainda que carreguem o peso da manipulação lacrimal que Hardwicke impões assim que Milly é diagnosticada com câncer. Considero que Barrymore em especial, alcançou um excelente grau de amadurecimento e honestidade em seu personagem, vivendo-o do jeito que ela é na verdade e após uma gravidez dupla. Seu ar meigo, sua beleza natural (não sei se 100%, mas, ao lado da plastificada Colette, ela parece completamente ao natural) e seu olhar cativante montam uma personagem que, se não é particularmente complexa, laça o espectador com grande facilidade.

Se Hardwicke e Banks tivessem sabido dosar melhor o chick flick com o “filme de doença”, trabalhando a relação das amigas com mais detalhes e deixando a doença vir sorrateira e discretamente, o resultado possivelmente seria melhor. Do jeito que ficou, a obra acabará arrancando lágrimas forçadas que, não muito tempo depois, não deixarão muitas saudades.

Já Sinto Saudades / Já Estou com Saudades (Miss You Already, Reino Unido – 2015)
Direção: Catherine Hardwicke
Roteiro: Morwenna Banks
Elenco: Drew Barrymore, Toni Collette, Dominic Cooper, Paddy Considine, Tyson Ritter, Mem Ferda, Noah Huntley, Jacqueline Bisset, Janice Acquah, Charlotte Ubben, Shola Adewusi, Honor Kneafsey, Anjli Mohindra, Ryan Lennon Baker
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.