Crítica | Jack Ryan – 1ª Temporada

John Krasinski está com tudo e não está prosa. No mesmo ano de estreia do muito bem sucedido Um Lugar Silencioso, que produziu, dirigiu e estrelou, ele volta para uma série de televisão, desta vez da Amazon Studios, encarnando a quinta versão de Jack Ryan, personagem criado pelo romancista americano Tom Clancy em 1984 e que protagonizou uma coleção de livros do chamado “ryanverso”, além de cinco longas cinematográficos.

E é bem possível que a série desenvolvida por Carlton Cuse e Graham Roland revele-se como o lar mais adequado para o personagem, que mostra potencial logo de início, em uma história que é, em linhas gerais, batida, ou seja, o bom e velho “CIA versus terrorismo islâmico”, mas que é trabalhada de maneira muito eficiente, com Krasinski acertando o tom de seu personagem no momento em que ele aparece remando pela manhã nos segundos iniciais do primeiro episódio de uma temporada de apenas oito. Um ex-marine que sofreu um trauma no Afeganistão, Ryan usa sua genialidade como analista financeiro de operações potencialmente terroristas da agência de inteligência americana que, graças à sua forma de pensar e sua coragem de falar o que pensa sem preocupar-se com a rígida estrutura hierárquica, acaba caindo de para-quedas em missões de campo nos mais variados lugares do mundo juntamente com seu chefe Jim Greer , vivido por um também muito bom Wendell Pierce, na caçada a Mousa Bin Suleiman (Ali Suliman), um novo Bin Laden como Ryan mesmo classifica.

A temporada inaugural começa prometendo uma diferenciação na estratégia do grande vilão, mas que nunca na verdade é concretizada. No final das contas, apesar de uma introdução muito bem estruturada e esbanjando na grandiloquência da sequência de ação final do primeiro episódio, Suleiman é, “apenas”, mais um extremista islâmico que tem o Ocidente como inimigo nº 1. Já vimos isso antes uma centena de vezes, mas é inegável que a história, por mais familiar que ela possa ser, funciona de verdade graças a roteiros coesos e inteligentes e trabalhos de direção que mantém constantemente um alto grau de suspense daquele de roer as unhas até o sabugo mesmo que saibamos que Ryan, por ser o personagem-título, no máximo sairá com algumas escoriações e mais algumas cicatrizes para sua já extensa coleção.

E o melhor é que os showrunners não recorrem a sequências de ação que transformam Ryan – ou qualquer personagem, na verdade – em um super-herói. Ele é mesmo um cara comum – ok, não tão comum em razão de sua genialidade analítica – que Krasinski, mantendo sua imponência física em xeque, relativiza com expressões discretas de medo, insegurança e descontrole emocional comedido. Longe de tentar repetir peripécias no estilo de séries cinematográficas como a franquia Bourne ou Missão: Impossível, Jack Ryan mantém tudo mais emudecido, mais realista, mais relacionável, só que sem perder o ritmo e, quando foca em sua própria forma de encarar a ação, tudo é muito menos explosivo e próximo – pelo menos em tese – do que poderia ser na realidade, com bom equilíbrio entre os “momentos de escritório” e os “momentos em campo”.

No entanto, nem tudo se encaixa suavemente. Se a subtrama da fuga de Hanin (Dina Shihabi), esposa de Suleiman, com suas duas filhas, funciona com precisão para evitar que só vejamos o lado ocidental ou o de Suleiman da história, o mesmo não pode ser dito da narrativa paralela envolvendo o piloto de drone Victor Polizzi (John Magaro) que, sentindo-se culpado pelo que faz, tem uma crise de consciência completamente deslocada da história que começa tangenciando a narrativa maior somente para, depois, perder-se e diluir-se, desperdiçando o bom ator no processo.

Além disso, a abordagem do passado de Suleiman e seu relacionamento com seu irmão Ali (Haaz Sleiman) começa de maneira relevante e organicamente inserida no contexto da história e, em seguida, passa a perigosamente soar como uma tentativa de justificar os atos terroristas do vilão. Claro que é sempre interessante humanizar aquele que vemos como o inimigo, mas essa tarefa já tinha ficado indiretamente ao encargo da nova versão de Jim Greer (a anterior foi James Earl Jones), convertido ao islamismo e que, por isso, transita entre esses dois mundos. Ao carregar nas cores do passado sofrido de Suleiman, quando vemos flashbacks dele já adulto em Paris, os roteiros tentam relativizar suas ações, mas, ainda bem, param a tempo de deixar quase que completamente ileso o personagem vivido intensamente por Ali Suliman.

Por outro lado, há espaço para romance, com o início claudicante do namoro de Ryan com Cathy Mueller (Abbie Cornish), já que há cuidado em não exagerar nas doses de “love is in the air“, além de o roteiros conseguirem fazer uma razoável integração da personagem no arco principal mais para o final da temporada. Não é, claro, a melhor coisa do mundo, já que para muitos pode soar conveniente e forçado, mas a questão é que Cathy tem pouco envolvimento efetivo e direto, funcionando muito mais como um artifício extra para dar estofo ao suspense bem carregado do encerramento da temporada.

A primeira temporada de Jack Ryan mostra grande potencial na telinha, sendo mais um acerto de monta para a Amazon. Com uma segunda temporada já em produção, muito material literário para servir pelo menos de inspiração para o desenvolvimento do personagem titular (algo que Clancy não se furta a explorar profundamente) e Krasinski de cara já completamente a vontade no papel, as aventuras de Ryan prometem boas doses de diversão, ação e suspense do mais alto gabarito.

Jack Ryan – 1ª Temporada (Idem, EUA – 31 de agosto de 2018)
Desenvolvimento/showrunners: Carlton Cuse, Graham Roland (baseado em personagem e romances de Tom Clancy)
Direção: Morten Tyldum, Daniel Sackheim, Patricia Riggen, Carlton Cuse
Roteiro: Carlton Cuse, Graham Roland, Stephen Kronish, Daria Polatin, Patrick Aison, Annie Jacobsen, Nazrin Choudhury, Nolan Dunbar
Elenco: John Krasinski, Wendell Pierce, Abbie Cornish, Ali Suliman, Dina Shihabi, John Hoogenakker, Karim Zein, Nadia Affolter, Arpy Ayvazian, Haaz Sleiman, Amir El-Masry, Goran Kostić, Timothy Hutton, John Magaro
Duração: 42 a 64 min. (8 episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.