Crítica | Jackie Brown (Trilha Sonora Original)

estrelas 4,5

Obs: Leiam as críticas dos filmes dirigidos por Tarantino, aqui e das trilhas sonoras de seus filmes, aqui.

Saído do sucesso avassaldor de Pulp Fiction, ainda considerado como seu melhor filme até hoje, Quentin Tarantino tinha uma grande pressão para seu próximo trabalho. Optando por adaptar uma obra já existente (única ocasião de toda a sua carreira) com Jackie Brown, a intenção de realizar um longa com espírito dos anos 70 se repete, mas dessa vez voltado ao blaxploitation. Com isso, a trilha sonora se reflete em uma música voltada para o soul e o R&B.

O próprio Tarantino afirmou em entrevistas que já escrevia o roteiro pensando nas músicas, e a que mais difícil de se escolher era a dos créditos iniciais. E na sequência inicial de Jackie Brown, onde temos um longo plano inspirado no de A Primeira Noite de um Homem, o filme já começa com o pé direito ao apostar em Across 110th Street, de Bobby Wacky and Peace (que já havia debutado no longa A Máfia Nunca Perdoa), canção soul que já estabelece o clima cool e de “trapaça” que a instrumental de Wacky sugere. Sem falar que a letra já explicita a dura sobrevivência em meio a guetos e tráfico de drogas, temas estes que serão abordados no longa; especialmente com o personagem e Beaumont.

Por falar nele, o traficante de Samuel L. Jackson é responsável por um dos momentos mais memoráveis, musicalmente falando. É um clássico exemplo Pulp Fiction, no qual a cultura pop humaniza e caracteriza um criminoso. Com um colega trancafiado no porta-malas do carro, Beaumont logo liga o rádio para se deparar com a suave Strawberry Letter 23, dos The Brothers Johnson, canção que ouvimos enquanto o personagem segue para uma matança, e a trilha ajuda a impactar de forma irônica quando descobrimos quem de fato era sua vítima.

O fator mais interessante em toda trilha, é como ela circunda a personagem central de Pam Grier. Em outro ponto da narrativa, temos Letters from the Firm, de Foxy Brown, para a cena em que Jackie passa uma noite na cadeia, e considerando que é um hip/hop, torna-se até uma escolha um tanto óbvia . Pouco tempo depois, o antológico primeiro encontro entre Jackie e Max Cherry é embalado por Natural High, do Bloodstone, um R&B suave e sexy que preenche o silêncio do olhar hipnotizado e rapidamente apaixonado de Robert Forster. É a atmosfera perfeita, representando todo o poder e influência que Brown poderá ter sobre este. Uma cena chave que estabelece o relacionamento dos dois, e com a música agindo como elemento diegético (ou seja, dentro da trama, ao invés de ser apenas um fator da trilha sonora), é quando Jackie o recebe em seu apartamento e coloca Didn’t I Blow Your Mind this Time, premiada balada soul/pop do The Delfonics. Nem precisa dizer que é uma escolha certeira devido ao contexto, certo?

Durante o grande golpe final, Tarantino mantém sua tacada de boas escolhas. Durante a grande ação de Jackie, temos o jazz-funk Street Life, de Randy Crawford, que ajuda a conferir um certo poder à personagem, ao mesmo tempo em que tempera e antecipa seu momento de agir durante o clímax. Também é inteligente retomar Across 11oth Street na sequência final do longa, fornecendo assim uma sensação de ciclo fechado para a personagem de Jackie Brown.

Ao embarcar em uma homenagem ao subgênero do blaxploitation, a trilha sonora típica foi uma grande aliada para Quentin Tarantino. Felizmente, não seria a única vez que o diretor brincaria com esse estilo musical.

Jackie Brown (Music from the Miramax Motion Picture)
Compositor:
Various Artists
Gravadora: Maverick Records/A Band Apart
Ano: 1997
Estilo: Soul, R&B

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.