Crítica | Jadotville

jadotville

estrelas 3,5

Talvez não haja um país que melhor encapsule a desastrosa expansão europeia sobre o continente africano do que aquele que hoje é a República Democrática do Congo, ex-Zaire, ex-Congo Belga, ex-Estado Independente do Congo, tudo em um intervalo de pouco mais de 100 anos que até os dias atuais mantém o país em constante instabilidade política. Com riquezas naturais quase sem paralelo, de cobre a urânio, de petróleo a diamantes, além de flora e fauna lendárias (é lar dos famosos gorilas da montanha, espécie em estado crítico – vide o documentário Virunga sobre o assunto), os interesses econômicos externos e internos dilaceram o país.

Jadotville (O Cerco de Jadotville, na tradução direta do título original) lida com um minúsculo conflito entre uma guarnição de soldados das forças de paz da ONU, em sua primeira incursão militar de larga escala, iniciada em 1960 que, cinco anos depois, evitaria a secessão forçada da região de Katanga, no Congo, e mercenários franceses e locais servindo aos interesses do golpista Moise Tshombe (Danny Sapani) que refletiam os dos países em lados opostos da Guerra Fria. O episódio narrado lida com o tal cerco a uma pequena base protegida por 150 soldados irlandeses comandados por Pat Quinlan (Jamie Dornan) que nunca antes haviam estado em combate.

Recém-chegados e, ato contínuo, praticamente abandonados em uma fortificação em frangalhos e taticamente indefensável (não consigo imaginar um local tão vulnerável quanto este, confesso), a angustiante e impossível história dos soldados ganha contornos políticos interessantíssimos com os mandos e desmandos de Conor Cruise “The Cruiser” O’Brien (Mark Strong), político irlandês que ganhou proeminência como representante especial de Dag Hammarskjöld (Mikael Persbrandt), então Secretário Geral da ONU, exatamente por ter sido enviado para lidar com os problemas em Katanga. Ainda que o foco seja no cerco em si, a fita ganha relevo quando o roteiro de Kevin Brodbin (Constantine), baseado em livro de Declan Power, desvela quase que passo-a-passo o descaso absoluto de O’Brien com seus compatriotas na linha de fogo e a mais completa “bateção” de cabeça que parece ter sido essa operação da ONU pelo menos em seu início.

Dirigido pelo escritor de quadrinhos Richie Smyth cujas experiências com direção se restringiam à videoclipes do U2, a fita é competente ao criar uma sensação claustrofóbica mesmo nos espaços abertos das filmagens em locação. A aproximação do exército inimigo, a inação da ONU, o constante e palpável medo sentido pelos soldados irlandeses, o estado precário do local que precisam proteger sem munição, comida ou água suficientes, além do jogo sujo dos mercenários (vários egressos da temida Legião Estrangeira) para alcançar seus objetivos estabelecem toda a tensão necessária para manter em alerta o espectador do começo ao fim da projeção. A fotografia é árida, sem filtros aparentes, com cores em tons de terra dando uma aparência quase documental à obra que triunfa com seu realismo e um mis-en-scène convincente nas sequências de combate que vão sendo escaladas cada vez mais sem perder sua força até um clímax de partir corações.

Aliás, fora dos combates e do foco secundário no irritante burocrata vivido por Mark Strong, Jadotville perde seu impulso e, por alguns minutos, periga descambar para um melodrama. Sequências como o estranho encontro de Quinlan com Madame LaFontagne (Emmanuelle Seigner) e o conflito verbal, regado à uísque, entre o comandante e o líder das forças mercenárias são forçadas e sem muita razão de ser a não ser estender o filme desnecessariamente, criando uma certa antecipação à vindoura guerra. As sequências com uma perdida Seigner são particularmente desnecessárias, pois não existe uma razão lógica dentro da estrutura narrativa para elas existirem. É como se elas fossem resquícios de alguma outra versão do roteiro que deixou de ser usada em algum momento da produção. Pelo menos são momentos breves, que não quebram completamente o fluxo da história.

Dornan tenta nos convencer como ator, mas, mais uma vez, falha miseravelmente. O Christian Grey de Cinquenta Tons de Cinza não carrega drama em suas expressões e sim constipação. Não fosse o roteiro, que felizmente distribui bem o foco entre vários outros soldados, notadamente o Sargento Jack Prendergast (Jason O’Mara, o Diretor Mace da quarta temporada de Agents of S.H.I.E.L.D.), braço direito de Quinlan e Bill Ready (Sam Keeley), o sniper que descobre, para seu horror, que gosta de matar (outra ponta narrativa que, inexplicavelmente, não ganha desenvolvimento), teria sido complicado simplesmente sentar e aproveitar a fita. Mas, sendo um entre vários – mesmo que tecnicamente o protagonista – a “dureza dramática” de Dornan acaba sendo neutralizada, permitindo que prestemos atenção na sinuca de bico mortal em que se encontram os soldados.

Jadotville é um eficiente drama de guerra, ainda que não muito ambicioso, que conta um episódio “esquecido” na duvidosa atuação mundial da ONU e no barril de pólvora que era e continua sendo o Congo. Criando tensão do tipo “impossível parar de ver”, a produção cumpre sua função de abordar a politicagem de conflitos desta natureza e a determinação humana quando somos colocados contra a parede.

Jadotville (The Siege of Jadotville, Irlanda/África do Sul – 2016)
Direção: Richie Smyth
Roteiro: Kevin Brodbin (baseado na obra de Declan Power)
Elenco: Jamie Dornan, Mark Strong, Jason O’Mara, Mikael Persbrandt, Emmanuelle Seigner, Guillaume Canet, Ronan Raftery, Michael McElhatton, Fiona Glascott, Sam Keeley, Danny Sapani, Conor MacNeill
Duração: 108 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.