Crítica | Janela Indiscreta (1954)

estrelas 5

O que é assistir a um filme que não praticar uma forma de voyeurismo? Sentamos confortavelmente na cadeira do cinema ou no sofá da sala para ver, perante nossos olhos, as vidas de terceiros – fictícias ou não – passarem. Não podemos interferir. Podemos, apenas, torcer por elas, sofrer, xingar, aplaudir e, em casos de obras de mistério, tentar adivinhar o “culpado” ou o “grande segredo”. E, assim, dessa forma vicariante, continuamos vivendo e absorvendo experiências mil que, porém, não são nossas.

Janela Indiscreta, talvez o mais sensacional filme de Alfred Hitchcock, é voyeurismo puro. O diretor deixa às escâncaras nossa posição de observadores silenciosos ao nos colocar sobre os ombros de outro observador passivo, o fotógrafo trotamundos L.B. ‘Jeff’ Jefferies (James Steward), preso a uma cadeira em razão de um acidente de profissão que vitimou sua perna, deixando-a temporariamente imobilizada. Inquieto, Jeff está desesperado para sair de sua prisão e passa os dias observando seus vizinhos, ávido por notícias, momentos únicos que ele é tão acostumado a captar com suas lentes.

E quem procura acha, pois Jeff talvez muito mais querendo arrumar algum “problema” do que qualquer outra coisa, passa a desconfiar que um vizinho teria assassinado a esposa. Ele não tem provas, mas seu faro diz que há algo errado e seus olhos penetrantes e aumentados por potentes lentes passam a focar na vida desse homem. Nessa tarefa, ele é ajudado com suas duas principais comunicações com o exterior: a enfermeira sem papas na língua Stella (Thelma Ritter) e sua dedicada namorada Lisa (Grace Kelly).

O janelão de Jeff dá para um conjunto de pátios interiores cercados por outros prédios e esse é um ponto de absoluto destaque no trabalho de set design. Filmado integralmente em estúdio na Paramount, Janela Indiscreta depende desse cuidadosamente construído cenário, que representa um microcosmo da sociedade. E, em conjunto e nesse contexto, esse magnífico cenário é um personagem vivo na narrativa, inteiramente construído em apenas um mês no soundstage 18 do estúdio, depois de um intenso estudo de como ele deveria ser. Esse estudo, aliás, é objeto de diversos ensaios e livros sobre Hitchcock e seu detalhismo e, portanto, alguns comentários são necessários.

Como é evidente, tudo é dependente do ponto-de-vista da narrativa, ou seja, de onde Jeff vê seu limitado mundo, já que toda a ação acontece dentro de seu apartamento ou é vista a partir de seu apartamento. Além disso, como ele é obrigado a sempre ficar sentado, vemos a câmera a meia altura e, portanto, toda a ação – e o cenário – tem que ser vista desse exato ângulo. O mundo de Jeff é conectado ao de seus vizinhos, mas separado por uma barreira invisível de aparente individualidade que é vagarosamente demolida pela câmera indiscreta de Hitchcock representando a câmera do próprio fotógrafo e, em última análise, nossa vontade e curiosidade de saber o que acontece na vida dos outros. Cada detalhe do set é criado pensando nessa prisão imposta ao protagonista e de certa forma lembra a mobilidade cerceada pelos aspectos técnicos que Hitchcock se auto-impôs em Festim Diabólico. Temos as saídas de incêndio usadas pelo casal calorento donos de um pequeno cachorro, a janelona devassada da bailarina, chamada por Jeff de Miss Torso (Georgine Darcy), o estúdio do pianista com bloqueio criativo, a janela com cortina baixada do casal recém-casado, o pouquinho de rua que é possível ver entre as quinas de prédios e, claro, os jardins comunicantes que formam o pátio comum no térreo.

Tudo é funcional, tudo serve para fins narrativos diretos – como o casal que dorme na escada de incêndio – e também para fins narrativos indiretos, como alegorias que criticam e cutucam a sociedade – como é a construção narrativa da vida percebida como “devassa” da bailarina. Como mencionei antes, todo esse absolutamente fantástico cenário funciona, literalmente, como uma parcela de nossa sociedade (ao menos à época, mas hoje não seria muito diferente). E nós participamos de tudo isso diretamente pelos olhos curiosos de Jeff que nos faz passear por cada canto desse seu diminuto mundo, procurando, sempre procurando e encontrando, quase que feliz, um problema para lidar, uma investigação para fazer.

Assim como Jeff tem certeza do assassinato, nós também somos levados a essa certeza pelos detalhes que são nossos (e de Jeff) enquanto Lisa e Stella não entram na narrativa ou quando ainda duvidam do que Jeff (nós!) havia visto. E a sofreguidão de Jeff para provar sua teoria é também a nossa sofreguidão desesperante para que as duas sejam finalmente convencidas. Hitchcock, com sua câmera intrusiva, nos faz viver a vida de Jeff, mas, diferentemente do protagonista, nós realmente só podemos observar, conjecturar, torcer e sofrer. Não podemos chamar ajuda, ligar para o apartamento do possível assassino ou chamar nosso amigo policial. Só podemos observar e ficar dolorosamente cientes que nada podemos fazer.

Esse mergulho de Hitchcock na vida de Jeff e suas duas “ajudantes” é um dos mais profundos mergulhos narrativos na Sétima Arte. Somos cúmplices escondidos durante todo o desenrolar da projeção, durante cada conversa travada. Nosso interesse pela história do protagonista e também a do vizinho potencialmente assassino – e sim, as de todos os demais vizinhos, até mesmo o casal de pombinhos que mal aparecem – é quase viciante e completamente inebriante. Janela Indiscreta é uma lição de cinema que pode e merece ser visto dezenas de vezes somente por seus aspectos técnicos, especialmente o comentado cenário e pelo uso constante de sons diegéticos, que emanam do próprio mundo objeto da narrativa e que funcionam perfeitamente bem para dar vida a esse microcosmo que se torna nossa casa.

No entanto, seria um crime não mencionar as atuações e, em assim fazendo, tratar também de um sub-tema que Hitchcock deixa transparecer de maneira muito convincente em seu trabalho: a emancipação feminina (não gosto da palavra “feminismo”, pois a considero mal concebida – mas isso é uma outra história, sem relação com a crítica). James Stewart, em sua segunda colaboração com Hithcock (a primeira foi em Festim Diabólico) nos brinda com uma atuação que muito facilmente nos transmite quem ele é: um fotógrafo dinâmico, sem raízes que está desesperadamente preso em sua cadeira de rodas. É claro que o roteiro esperto e econômico de John Michael Hayes, baseado no conto It Had to Be Murder de Cornell Woolrich, escrito em 1942, é também responsável por trabalhar os elementos de sua personalidade, além da câmera de Hitchcock que nos faz vislumbrar sua vida fora do apartamento por intermédio de suas fotografias, inclusive e especialmente a que o fez ter o acidente.

Grace Kelly é a deslumbrante Lisa, rica socialite apaixonada por Jeff, apesar de Jeff dar pouca bola para ela. Mas é no diálogo entre os dois que vemos muito mais sobre suas verdadeiras personalidades. Jeff, na verdade, foge de relacionamentos, talvez por achar que não está preparado para eles ou que precisa de mobilidade em sua profissão. Ao mesmo tempo, porém, apesar do desdém com que ele trata Lisa, ele a adora. Na verdade, seu desdém é proporcional ao quanto ele a ama e ao quanto ele está determinado a esconder isso. Lisa, por sua vez, apesar de seus vestidos da moda, de seus jantares sofisticados e de uma vida em tese fútil, é extremamente inteligente, corajosa e segura de si. Sabe o que quer e também compreende e de certa forma aceita a relutância de Jeff em se contentar com uma vida mais quieta. E vemos em Lisa, muito facilmente, a representação da força feminina que significa, de certa forma, uma tentativa de quebra de paradigma em relação a personagens femininos frágeis e dependentes do homem. Ao contrário, agora: é Jeff quem literalmente depende de Lisa, especialmente em sua investigação da vizinhança.

E Stella, maravilhosamente bem retratada por Thelma Ritter, é uma espécie de “grilo falante” que não se esquiva de falar o que pensa para Jeff e, claro, para nós, espectadores. Stella é a enfermeira da seguradora de Jeff que está lá para garantir que ele está seguindo o tratamento, mas ela acaba sendo sua confidente e, também, investigadora. Sua forte presença em cena ajuda na noção de que as mulheres devem ser independentes e seguras, algo que Hitchcock, na verdade, sempre soube trabalhar bem.

Janela Indiscreta é uma viagem para dentro de um pequeno e particular mundo, que é estranhamente familiar a todos nós. É Hitchcock olhando para trás em um intervalo de sua filmagem e dando uma gostosa piscadela aos seus tão estimados espectadores, observadores passivos que só podem realmente, depois de contemplar seu trabalho, aplaudir o Mestre do Suspense e agradecer de coração mesmo sendo totalmente incapazes de interferir no trabalho ou de ouvir um “de nada”.

Janela Indiscreta (Rear Window, EUA – 1954)
Direção: Alfred Hitchcock
Roteiro: John Michael Hayes (baseado em conto de Cornell Woolrich)
Elenco: James Stewart, Grace Kelly, Wendell Corey, Thelma Ritter, Raymond Burr, Judith Evelyn, Ross Bagdasarian, Georgine Darcy, Sara Berner, Frank Cady, Jesslyn Fax
Duração: 112 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.