Crítica | Jason Bourne

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estrelas 3,5

Como aprendemos em nossa retrospectiva sobre a Trilogia Bourne, é inegável que o gênero de espionagem e de ação nunca mais foi o mesmo após a passagem do espião sem memória vivido por Matt Damon. Com três filmes excelentes e um derivado terrível que nem merece a menção, Jason Bourne assumiria o papel que James Bond tomou um dia, fazendo até mesmo com que a MGM rebootasse o personagem e lhe oferecesse um caráter mais realista e remanescente de Bourne. Agora, eis que Damon e o diretor Paul Greengrass retornam para mais uma aventura, batizada simplesmente de Jason Bourne.

A trama começa quando a CIA sofre um ataque de hacker cometido por Nicky Parsons (Julia Stiles), em mais uma tentativa de expor os programas cruéis da agência e atrair a atenção de Jason Bourne (Matt Damon), que vive uma vida isolada trocando socos do outro lado do mundo. O ataque faz com que o diretor Robert Dewey (Tommy Lee Jones) coloque a durona Heather Lee (Alicia Vikander) na liderança de uma operação que visa capturar Bourne e trazê-lo de volta para o programa, ao mesmo tempo em que Dewey conspira para aprovar um novo sistema de vigilância.

Acho que até o maior fã de Jason Bourne concordaria ao dizer que este filme não precisava existir. A trilogia era redonda e encerrava o arco do protagonista de forma perfeita, com a icônica imagem do personagem nadando ao fim de O Ultimato Bourne, mas a falta de ideias em Hollywood e o fracasso absoluto de O Legado Bourne nos trouxe de volta aqui. Não há muito o que Jason Bourne tenha a fazer, tendo o roteiro de Greengrass e de Christopher Rouse (que curiosamente também assina a montagem!) colocando o agente em uma busca por respostas envolvendo a participação de seu pai no programa Treadstone e uma subsequente busca por vingança. Ou seja, um mero fiapo de história que desajeitadamente estende a investigação que o personagem conduziu nos filmes anteriores para um desfecho irrelevante e que não muda muito as coisas.

Porém, o que o roteiro da dupla acerta em cheio é o contexto político. Somos jogados em uma sociedade obcecada por vigilância e que ainda lida com os efeitos do escândalo de Edward Snowden. Por tais motivos, todos os momentos que passamos em um escritório ao lado de Robert Dewey e Heather Lee conseguem ser mais inspirados e envolventes do que o próprio Bourne, que misteriosamente acaba reduzido a um papel menor onde mal abre a boca. Damon permanece eficiente como sempre, mas é necessário destacar que seu personagem é justamente o mais descartável de toda a narrativa. Já o restante do elenco coadjuvante é favorecido com excelentes personagens que jamais ganham denominações maniqueístas, sendo todos compostos de uma duvidosa camada de cinza: todos agem sob uma motivação, desde o inescrupuloso Dewey até o sanguinário assassino vivido por Vincent Cassell.

Temos ali um pseudo Mark Zuckerberg na figura do ótimo Riz Ahmed, personagem menor mas que ganha um destaque importante dentro desse reflexo da sociedade que Greengrass e Rouse traçam tão bem, incluindo também a presença de manifestações políticas, a constante presença de hackers e até um personagem que surge como uma versão justiceira de Julian Assange. É um mundo orgânico e palpável criado pelo cineasta, que ganha tons sóbrios e quase documentais através da técnica de câmera na mão e da fotografia fria de Barry Ackroyd – nunca havia visto uma Las Vegas tão sem vida e sombria, e isso é bom.

Mas se Bourne acaba ficando em segundo plano, é mesmo a cada vez melhor Alicia Vikander que rouba os holofotes. Heather Lee é uma personagem que encanta pela bravura e o desejo de seguir uma bússola moral fácil de nos identificarmos, mas que fica mais interessante quando Vikander oferece uma interpretação dúbia para a personagem. Ao mesmo tempo em que parece decidida a ajudar Jason Bourne, somos apresentados a um lado ambicioso e de cujas intenções não temos tanta certeza, e eu definitivamente gostaria de ver aonde o arco de Lee vai culminar.

E claro, temos as cenas de ação. Confesso que esperava um pouco mais de Greengrass aqui, mas o diretor é capaz de conduzir sequências intensas e envolventes com habilidade. Os destaques absolutos ficam para a fuga de Bourne e Nicky da CIA em meio a uma caótica manifestação popular em Atenas, onde temos carros, motos e corridas em meio a bandeiras, coquetéis molotovs e uma tropa de choque policial, e uma tentativa de encontro em Londres que dá terrivelmente errado após uma inesperada traição – esta não é bem uma cena de ação, mas certamente empolga como tal. Já o clímax, que envolve uma perseguição de carros pela Las Vegas strip, peca por sua extensa duração e um nível de suspensão de descrença que não combina com a série. Por fim, a luta final entre Bourne e o assassino de Cassell decepciona ao apostar em algo menos coreografado e mais sem graça, mas ao menos temos a continuidade da piada do “objeto comum” sendo usada de maneira poderosa pelo protagonista.

Mesmo que seja um filme completamente descartável para o personagem, Jason Bourne funciona como um sólido thriller de espionagem, merecendo aplausos pelo cuidado em retratar um mundo real e moderno e povoá-lo com figuras fascinantes. Só precisam inventar uma justificativa melhor para que tenhamos Bourne aqui.

Jason Bourne (EUA, 2016)

Direção: Paul Greengrass
Roteiro: Paul Greengrass, Christopher Rouse (baseado em obra de Robert Ludlum)
Elenco: Matt Damon, Tommy Lee Jones, Alicia Vikander, Julia Stiles, Vincent Cassell, Riz Ahmed, Ato Essandoh, Scott Shepherd, Bill Camp, Vinzenz Kiefer, Stephen Kunken
Duração: 123 min.

LUCAS NASCIMENTO . . . Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.