Crítica | Jason X

estrelas 3

Obs: Leia sobre os demais filmes da franquia, aqui.

Esqueça que Jason está no inferno ao lado de Freddy Krueger. Nesta incursão espacial do antagonista que assassinou mais de uma centena de pessoas em Crystal Lake (e em Nova Iorque também), não há ligação direta com Jason Vai Para o Inferno – A Última Sexta-Feira, episódio anterior da franquia. Não sabemos como e porque, mas Jason parece ter escapado do inferno e amarga os seus últimos dias em um Centro de Pesquisa em Crystal Lake.

No local, o moço encontra-se sob a supervisão de Rowan (Lexa Doig), mas os seus superiores desejam mover Jason do local por conta de alguns investimentos financeiros. Essa soberania surge na pele do excepcional David Cronenberg, cineasta responsável por clássicos como A Mosca e Scanners, que aqui, faz uma ponta para dar credibilidade aos seus colegas de atividade cinematográfica.

O que já esperávamos acontece: Jason consegue escapar e Rowan vai ter de enfrenta-lo, até que após um procedimento inseguro, ambos terminam em um compartimento de suspensão criogênica, tornando-se dois espécimes congelados e encontrados apenas em 2455, graças à incursão do arqueólogo Lowe (Jonathan Potts) e a sua trupe de estudantes. Eles habitam a Terra 2, haja vista que o nosso planeta encontra-se destruído.

Jason é levado para o espaço, juntamente com Rowan. Ambos passam pela tentativa de reanimação. Com a moça o processo é bem sucedido. Jason, como a máquina de matar que conhecemos e amamos desde os anos 1980, também ressuscita, fazendo a festa logo na cerimônia de chegada, ao atacar a pesquisadora Adrienne (Kristi Angus), personagem criado em homenagem à final girl do primeiro filme da franquia. A morte tornou-se uma das mais comentadas da série: ele primeiro congela o rosto da moça, para depois esmagá-lo em vários pedaços, como um cristal. Insano, mas não menos divertido.

Desta vez Jason está mais sedento por sangue, afinal, são mais de 400 anos de férias. Para afirmar essa vontade de matar, o mascarado massacra nada menos que 28 pessoas diante das câmeras, fora as mortes causadas por conta da sua presença destruidora (suicídios e vítimas de explosões na nave). Do meio para o final há um procedimento tecnológico que provoca uma mutação no corpo do personagem, transformando-o numa espécie de Robocop.

O Jason metálico que surge em cena é mais forte e turbinado. A cena de surgimento do personagem com a nova roupagem é uma das mais hilárias do filme. Se levado na base da brincadeira, é uma das melhores coisas que surgiram no gênero naquela época, demarcada pela falência dos subprodutos de Pânico. O filme, inclusive, chegou ao Brasil e na Europa primeiro que nos Estados Unidos. Os fatídicos acontecimentos ocorridos em 11 de setembro de 2001 atrasaram o lançamento estadunidense, o que não impediu que a produção faturasse o necessário para cobrir pelo menos o orçamento.

Ao mesclar elementos do terror, dos filmes de ação e de ficção científica, Jason X assume logo de cara o seu ideal metalinguístico: referenciar os filmes anteriores, sem deixar de ser autocrítico, o que torna a produção mais interessante e aceitável que as duas últimas incursões em Nova Iorque e no inferno. A produção também fez história na série ao ser a última participação de Kane Hodder como Jason, o intérprete mais famoso e querido pelos fãs da franquia.

Conforme aponta Sean S. Cunnigham, no documentário Segredos Por Trás do Massacre, de Donald R. Beck, o show de mágicas envolvendo a primeira noite de terror em Crystal Lake foi substituído pelos efeitos especiais e CGI deste episódio, o que o tornou mais fácil de ser concebido em aspectos estéticos. O cineasta ainda afirma que a produção foi um passo à frente, afinal, diferente do acampamento, é mais complicado imaginar o que acontecerá numa trama situada em um espaço totalmente diferente do tradicional.

Jason X veio na esteira do interesse pela renovação da série. Não funcionou. O desfecho com a “cena obrigatória” envolvendo uma estrela cadente e uma máscara no fundo de um lago prometia mais uma versão no espaço, mas pelo menos após 14 anos do lançamento da primeira empreitada galáctica de Jason, os detentores dos direitos autorais não manifestaram interesse algum em dar continuidade à ideia.

Em 2009, a refilmagem comandada por Marcus Nispel assinalou a última (até agora) incursão do antagonista mascarado nos cinemas. E para finalizar, deixo a resposta para a pergunta lá no início do texto: do espaço, é possível sim ouvir os gritos não apenas da final girl, mas das demais jovens assassinadas ao longo dessa divertida produção.

Jason X (Jason X, Estados Unidos – 2001)
Direção: James Isaac
Roteiro: Todd Farmer
Elenco: Kane Hodder, Lexa Doig, Lisa Ryder, Jonathan Potts, Melyssa Ade, Peter Mensah, Chuck Campbell, David Cronenberg, Kristi Angus, Todd Farmeriee
Duração: 90 minutos

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.