Crítica | “Jazz” – Queen

estrelas 5,0

Sétimo álbum de estúdio do Queen, Jazz (1978) é uma provocação sem fim, a começar pelo título. Como se disse tempos depois, era muita petulância uma banda de rock lançar um disco chamado Jazz e não colocar um único jazz nele. Tem até uma canção chamada More of That Jazz, que fecha o disco, mas ela é uma new wave experimental (proto-Hot Space — só que com qualidade — juntamente com Fun It) baseada em ostinatos de vocais deliberadamente não melódicos e montagem-sumário que aparece e some de forma abrupta, apresentando-nos pedaços de Dead On Time, Bicycle Race, Mustapha, If You can’t Beat Them, Fun It e Fat Bottomed Girls.

Não é de se espantar que um crítico como Dave Marsh tenha se sentido tão bravo e tão “agredido” pela banda que não se fez de rogado em publicar um dos textos mais agressivos que já escreveram sobre o Queen (revista Rolling Stone, fevereiro de 1979). Ele simplesmente comprou e levou a sério toda a provocação musical que o quarteto da rainha fez em Jazz.

Gravado na França e na Suíça, Jazz foi o primeiro disco do Queen realizado fora do Reino Unido, uma medida encontrada pelo contador do grupo para que eles fugissem dos altos impostos de sua terra natal. Contando o período de turnê e os 4 meses de trabalho em estúdio, a banda passou praticamente um ano longe de casa.

O conceito para a capa veio de um grafite visto por Roger Taylor no Muro de Berlim, em 1978.

O conceito para a capa veio de um grafite visto por Roger Taylor no Muro de Berlim, em 1978.

Voltando a trabalhar na produção com Roy Thomas Baker, o Queen seguia de forma mais ambiciosa com a virada de jogo feita em News of the World (1977), quando se afastaram do operístico e abraçaram vertentes próximas ao pop e novidades dos gêneros e questões populares que então chamavam a atenção da cena musical na década. É assim que explicamos, por exemplo, a presença de um funk em Jazz, a canção Fun It, de Roger Taylor; ou o belíssimo tributo de Brian May a Elvis Presley, falecido um ano antes, em um blues de arranjos jazzísticos chamado Dreamers Ball.

A mudança de produção musical permanece aqui, em um nível bem mais alto, mais pomposo, quase flertando com os intricados discos da fase operística. Mas, diferente de NOTW, a banda não estava mais tão insegura quanto aos novos rumos. Talvez pela presença de Roy Thomas Baker na co-produção ou talvez porque eles eram verdadeiros camaleões, mas o fato é que à exceção de Fun It, que é uma canção muito boa, mas causa algum estranhamento na maioria dos ouvintes, não existem desacertos ou desníveis musicais em Jazz, mesmo se considerarmos a grande “estranheza-surpresa” do álbum, Mustapha, cantada em inglês, árabe e persa e com um arranjo misto de cantos árabes e rock, com direito a longos ciclos executados vocalmente em ritmos “desorientados”. Trata-se de uma faixa curiosíssima, perfeita para abertura do disco, um pequeno eco dos experimentos da banda até A Day at the Races.

Mas as faixas que mais marcam a presença do Queen fora do Reino Unido e mostram influências do ambiente em que estavam morando ou a gigantesca fama que gozavam nesse momento de sua carreira vem com uma tríade aberta por Fat Bottomed Girls, uma das “músicas de seções” de Brian May, com elementos de rock, um pouco de blues & coro em ritmo intricado, apesar da melodia simples; seguida por Bicycle Race, que gerou polêmica pelo vídeo com as ciclistas nuas no Wimbledon Stadium, um clipe que é quase uma piada pronta:

_ Ei, quer ouvir uma música sobre corrida de bicicletas?

_ Nah, to de boas.

_ Tem mulher pelada no clipe.

_ Quero.

Mercury escreveu a letra enquanto gravavam o disco. Sua inspiração veio após assistir ao Tour de France 1978, e ele aproveitou a ocasião para adicionar um grande número de referências culturais à canção, como os files Tubarão e Star Wars, além de citar o caso Watergate, a Guerra do Vietnã e aos personagens Peter Pan, Frankenstein e Superman. Mas para além da letra interessantíssima, Bicycle Race é uma aula de como unir sessões de diferentes escalas, tempos e estilos; uma verdadeira corrida musical que se tornou, merecidamente, um instantâneo hit.

A “trilogia da estadia no estrangeiro” termina com Don’t Stop Me Now, outra de Mercury, que além de ter uma letra metricamente perfeita, possui bons detalhes de produção (destaque para o coro de arranjos instrumentais de diversas fontes) e se constitui um dos mais queridos piano-rock desde então. E ainda nesse ambiente, é necessário citar a bela e obscura Jealousy, que não só é uma das melhores músicas do disco como também uma das melhores representações do ciúme que já tivemos na história do rock. May usou aqui o mesmo efeito para violão acústico que usara em White Queen, criando vibrações nas cordas que dão um efeito sonoro parecido com o de uma cítara, tornando a balada ainda mais rica e “exótica” musicalmente, indo de encontro ao complexo estado de sentimentos do eu-lírico.

Perceba que o conjunto das faixas de Jazz é perfeitamente digerível por todos os públicos, não só pela enorme variedade de gêneros musicais como também pela qualidade técnica das canções, que, sendo nos vocais de Mercury, Taylor ou May, possuem interpretações inspiradas, bem realizadas e muito bem integradas.

Dentre as mais calmas do disco, por assim dizer, há duas do Lado B para citar, In Only Seven Days, a delicada balada de “fim de verão” de John Deacon, a única das 13 canções sem harmonias vocais do disco. Esta e a outra composição dele para Jazz, If You Can’t Beat Them, possui um um encanto vocal e harmônico impressionantes, tendo a última um dos mais longos solos de guitarra da banda. A outra faixa dentre as “mais calmas do disco” é também uma delicada balada, só que no gênero folk, chamada Leaving Home Ain’t Easy.

A versatilidade de composição, em forma e estilo, já tinha alcançado maturidade em Brian May a essa altura de sua carreira e isso é perceptível não só na diferença gigantesca entre as canções — e não me refiro apenas ao básico mas em toda a concepção das faixas –, basta ouvir à já citada Leaving Home Ain’t Easy e ao originalíssimo rock Dead on Time que porta um dos melhores trabalhos instrumentais de May e uma das definitivas performances de Roger Taylor em estúdio. Sério. Ouçam com atenção a bateria dessa música.

Para muitas pessoas, Jazz dificilmente estará na lista de “grandes álbuns” do Queen (e quero deixar claro, embora creio que não precise, que eu não sou uma delas). A “concessão” que faço quanto a um possível “ponto fraco” é ao funk de Roger Taylor, que até cito no “Diminui!” abaixo com um grande TALVEZ, mais como olhar crítico geral do que como opinião pessoal.

Acho que o segredo para mergulhar com tudo nesse disco é ouvir de verdade o que Mercury pede em Let Me Entertain You, seu hard rock cíclico com dois tempos pesados e dançantes, dirigidos à plateia e com referência ao próprio estilo da banda, trazendo até uma menção nas entrelinhas a Teo Toriatte, de A Day at the Races: deixe-se entreter. E impressione-se.

Aumenta!: Don’t Stop Me Now
Diminui!: TALVEZ Fun It, dependendo do ouvinte. Eu, particularmente, adoro a música, mas sei que tem muita gente que a acha a pior do disco.
Minha canção favorita do álbum: Jealousy

Jazz
Artista: Queen
País: Reino Unido
Lançamento: 10 de novembro de 1978
Gravadora: EMI, Parlophone
Estilo: Rock

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.