Crítica | Jean-Claude Van Johnson – 1ª Temporada

Lembro-me muito claramente que a última vez que assisti a um filme de Jean-Claude Van Damme no cinema foi, junto com amigos, na véspera da mais importante prova de vestibular de minha vida. A obra era a razoavelmente obscura Cyborg, O Dragão do Futuro, em que o ator, claro, fazia o papel de um lutador marcial em um mundo pós-apocalíptico. Como é a marca da filmografia do ator, o baixo orçamento e a pancadaria estilizada – sempre com impressionantes espacates – cumpriram sua função de me fazer rir desbragadamente da tosquice em cena, relaxando-me para o complicado dia seguinte.

E, olhando para trás e reexaminando aquilo que Van Damme representou para mim, acho que o que descrevi acima resume tudo muito bem: momentos divertidos e descompromissados que não são mais do que um “blip” em minha memória. Mas um “blip” daqueles que vem acompanhado de um sorriso de aprovação, seja pela simpatia do ator, seja por suas habilidades marciais, seja por suas feições exageradas e em câmera lenta a cada grande momento de seus  filmes.

Mas o que eu não sabia é que, esse tempo todo, atrás de sua carreira como ator-brucutu, Van Damme era, também, Jean-Claude Van Johnson, um espião de uma agência secreta disfarçada de agência de atores de Hollywood que passou as décadas levando a cabo as mais perigosas missões. Seus filmes, na verdade, eram apenas uma forma de acobertar sua  verdadeira vocação.

Ou é isso que a série de TV produzida pela Amazon Video procura estabelecer, em uma divertida auto-paródia que brinca com os estereótipos do tipo de filme que Van Damme fazia, diversas vezes citando-os diretamente (como na intraduzível, se quisermos manter o significado, if you have nowwhere to run, you run to nowhere…) ou até usando sequências de icônica obra do ator para servir de reviravolta narrativa. Em outras palavras, aqui vemos Van Damme sendo humilde o suficiente para reconhecer sua estatura de outrora e o quase que completo fim de sua carreira cinematográfica, usando esses exatos elementos para achincalhar-se e fazer o mesmo com alguns colegas de profissão na mesma situação (Nicolas Cage é citado em inspirado momento) e, simultaneamente, deixar às escâncaras um pouco da maldade hollywoodiana com atores que perdem sua importância por esse ou aquele fator.

A metalinguagem é a regra na série e sua premissa é espalhada na vida real. Jean-Claude Van Damme vive ele mesmo, agora em sua rica, mas solitária aposentadoria em mansão com encanamento que faz jorrar água de coco (sim!) no lugar de água. Reencontrando sem querer Vanessa (Kat Foster), o amor de sua vida e também agente secreta, ele decide voltar à ativa como Van Johnson, sua persona agente secreto, usando a filmagem de uma adaptação michaelbayana de Huckleberry Finn (impossível não querer ver esse filme acontecer de verdade) como disfarce para investigar uma rede de tráfico de drogas na Bulgária. Lá, ele e Vanessa se reúnem com o franzino cabeleireiro Luis (Moises Arias) e a ação começa.

Falar mais é começar a caminhar para o lado dos spoilers. No entanto, a comédia autoconsciente que o criador da série Dave Callaham põe na telinha acaba divertindo justamente pelo besteirol com fundo de verdade que ela é. A investigação e as sequências de ação em si são detalhes, ainda que muitas vezes funcionem – a grande exceção fica justamente com o clímax, que é muito fraco, mal executado e arrastado ao extremo – muito mais pela curiosidade da coisa o que por qualquer outro fator. Todas as grandes marcas registradas de Van Damme são usadas em fartas doses nas mais diferentes situações, começando, claro, pelo icônico (e impossível) espacate, passando por seu rosto de dor/triunfo em câmera lenta de O Grande Dragão Branco e toda aquela melancolia cômica que se pode ver em JCVD, o filme de 2008 que parece ser a grande inspiração para a estrutura da série.

Ainda que fique evidente que a narrativa não tem sustentação para se segurar por uma temporada inteira, havendo inclusive uma espécie de “recomeço” do quarto para o quinto episódio, a grande verdade é que, com 30 minutos cada um e um total de seis capítulos, a brincadeira passa rápido e quando a fatiga ameaça chegar, tudo acaba. Foi, definitivamente, a escolha mais certa para o tamanho da temporada, mesmo que o cliffhanger de praxe dê as caras no último segundo do sexto episódio. Mas isso faz parte.

Jean-Claude Van Johnson é o que é: uma divertida auto-paródia simples e honesta de um dos mais esquecidos brucutus oitentistas. Há charme para dar e vender aqui e alguns bons momentos que arrancarão risadas especialmente dos espectadores que, como eu, se esbaldaram com as tosquices do ator lá bem por antigamente.

Jean-Claude Van Johnson – 1ª Temporada (EUA – 15 de dezembro de 2017)
Criação: Dave Callaham
Direção: Peter Antencio
Roteiro: Dave Callaham, Ashley Wigfield, Wes Tooke, Vinnie Wilhelm, Kevin Costello
Elenco:  Jean-Claude Van Damme, Kat Foster, Moises Arias, Phylicia Rashad, Bar Paly, Tim Peper, Carlo Rota, Deren Tadlock, Winston James Francis, Filip Van Damme, Alex Carter, Richard Schiff, Edouard Holdener
Duração: 30 min. aprox. por episódio (6 episódios no total)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.