Crítica | “Jennifer Hudson” – Jennifer Hudson

estrelas 1,5

Você já ouviu falar nessa tal de Jennifer Hudson? Espero que sim. Vale a pena conhecê-la. Sua presença é tão marcante e sua voz tão boa que, tenho certeza, pouquíssimas cantoras se sentiriam a vontade em dividir o palco com ela. Christina Aguilera (Grammys 2011 – homenagem a Aretha Franklin, lembram?) que o diga! Mas não é só de voz, de presença e de alcance de três, cinco, vinte (!!!) oitavas que a música é feita. Discos são fundamentais para estabelecer um cantor ou uma cantora como artistas capazes de produzir arte. O que quero dizer é: não adianta se esgoelar diante de uma plateia abismada com seus talentos sobrenaturais, para depois entrar em um estúdio de gravação e fazer um disco industrializado, sem alma, sem energia, sem pegada, sem música boa. Infelizmente, esse é o caso de Jennifer Hudson. É por essas e outras que minha relação com ela segue dicotômica: respeito-a como voz, mas não como cantora, e muito menos como artista. Mas vamos com calma!

Eu seria muito injusto se colocasse a culpa toda nela. Pra falar a verdade, a Jennifer é a menos culpada nessa história. A galerinha que está por trás dela é que deve ser responsabilizada pelos tremendos erros deste álbum de estreia. E essa “galerinha” a qual me refiro são todos os quinhentos produtores que se meteram no disco, além, é claro, dos “executivos invisíveis” que você nunca sabe quem são, mas que estão ali, sempre presentes, não possuem qualquer tino para música – mas entendem muito de negócios – e tratam de esculhambar com o potencial dos artistas que gerenciam, ao inibi-los para que suas táticas capitalistas sejam colocadas em prática com sucesso. É, amigos: “venda, venda, venda. Seja o que o mercado quer que você seja. Seja pop, pop, pop. Seja uma diva”. É mais ou menos a partir dessa ótica que eu enxergo essa bagunça que é o primeiro trabalho de Jennifer Hudson. Querem que eu “bata a real”? Jennifer não é Rihanna. A personalidade exuberante da cantora, tão bem demonstrada nos palcos (e no filme DreamGirls, pelo qual levou um merecido Oscar) praticamente não se manifesta neste álbum. Parece que a poderosa mulher da goela de ouro se encolheu e desceu dos saltos assim que entrou no estúdio e se deparou com a artilharia da pesada que iria lhe “auxiliar” a gravar o disco. Não podemos julga-la, afinal, ela estava em minoria. Ponto para a “galerinha”!

Agora chegou o momento de sermos específicos e nos focarmos no que há de verdadeiramente ruim neste álbum. Vamos às canções: Spotlight é um pop genérico (1), muito produzido e pouco verdadeiro. If This Isn’t Love é genérico (2), de melodia fraca e um refrão no pior estilo dreamy teen pop. Pocketbook é ótima (sério!), dançante, moderna, cheia de atitude (aí sim um material digno de Jennifer Hudson!), que é ancorada por um beatbox de responsa e tem até mesmo uma parte de rap satisfatória por Ludacris. Depois ainda vem Giving Myself, composta por Robin Thicke especialmente para Hudson. O que eu tenho a dizer desta? É bonita, singela, interpretada pela nossa estrela com convicção e sem maneirismos artificiais. Que alívio! Mas não se anime, pois voltamos à estaca zero com a faixa de número cinco. Zero? Me expressei mal. A verdade é que, com What’s Wrong (Go Away) – que grande ironia é esse título, hein? – somos impiedosamente atirados direto para a estaca –100, se é que isso é possível. A música já é ruim de doer, e ainda inventam de colocar o T-Pain (nada mais justo, afinal ele compôs a porcaria, não é mesmo?) com aquele seu inseparável e horroroso autotune para fazer um dueto com a pobre Jennifer. Como não poderia deixar de ser, T-Pain soa como um jumento gripado tendo suas bolas espremidas por um caminhão. Pra piorar, ele não cala a boca ou o focinho durante os (quase) 4 minutos da “canção”, atropelando Hudson e repetindo tudo o que sai da boca dela, porém com aquele jeitinho peculiar de cantar, que só um jumento gripado tendo suas bolas espremidas por um caminhão seria capaz de providenciar. Esse aí bem que poderia aprender a sofrer calado, nossos ouvidos agradeceriam! Mas chega de falar em T-Pain, T-Sem, T-Si, T-Man, T-Col.

A faixa que se segue, My Heart é mais um pop genérico (3), porém com algumas sacadas melódicas interessantes, mas nada que faça dela uma canção boa de verdade. E You Pulled Me Through é melodrama barato que não possui nenhum atrativo. Triste. Mas em meio a esse panorama desesperador, de burocracia total acima do quesito “diversão”, eis que surge algo para nos entreter: I’m His Only Woman, o dueto de Jennifer Hudson com Fantasia, outra jovem cantora de distinta voz surgida no American Idol. Não vou dizer que a música é boa, porque não é. Mas pelo menos não tem como ficar indiferente ao ouvi-la. A faixa segue aquele clichê que determina que quando duas cantoras negras de muita atitude se juntam em uma canção, elas precisam estar disputando um homem. Fantasia liga para Hudson e diz que é a namorada do Tony. Hudson diz que a namorada do Tony é ela. E aí – você já deve imaginar – começa a gritaria. Ao ouvir o assíduo embate, tudo o que eu pensava era: “esse Tony se envolveu com duas da pesada, tá ferrado o coitado”. Bom, mas pensando bem, pelo menos ele foi poupado da gritaria. Resumindo, o dueto é uma bagunça previsível, mas divertida, em que as duas ficam gritando uma com a outra coisas do tipo “ele é meu homem!” e “não, é meu!” e “acho que ele tá confuso!” (observação: creio que qualquer ser com o mínimo de sanidade não ficaria confuso, muito pelo contrário!, fugiria decidido no primeiro sinal de histeria dessas duas aí…). Considerando que a voz de Fantasia parece a de uma mulher de setenta anos, penso que Hudson deveria ter ficado ainda mais chocada, e me surpreende o fato dela não ter gritado ainda mais com a pobre coitada. Ufa! Próxima: de Can’t Stop the Rain, tudo o que eu tenho a dizer é o mesmo que já foi devidamente expressado quando me referi a My Heart – ou seja, pop genérico (4). We Gon’ Fight – que seria um título mais apropriado para o dueto com Fantasia do que para essa música sem graça e melodramática – é descartável como a grande maioria do disco. Invisible é um pop genérico (5) – e não reclamem por eu estar sendo repetitivo, estou apenas fazendo jus ao objeto de revisão…

Eis que depois de onze faixas chegamos a And I Am Telling You I’m Not Going. Aqui é o grande momento da cantora onde sua voz transita entre Aretha Franklin, Whitney Houston e Mary J. Blige, com a dramaticidade na interpretação de uma Barbra Streisand (eita, me empolguei). O resultado é uma música tão intensa, mas tão intensa, entregue por uma Jennifer Hudson tão Jennifer Hudson, mas tão Jennifer Hudson, que você fica pensando: “será que eu ainda estou ouvindo o mesmo disco?”. Apesar da interpretação de Hudson ser muito semelhante a de Jennifer Holiday (a intérprete original), o brilho da canção está ali, sem dúvidas, intacto. E às vezes parece mais um rock n’ roll do que qualquer outra coisa. Diante de toda essa qualidade fui obrigado a tirar o chapéu – finalmente, porque meu cérebro já estava começando a mofar. E fechamos então com Jesus Promised Me a Home Over There, que tem cara de Gospel, mas não é. Seria apenas se Jennifer não cantasse no automático, e se prontificasse a tentar provocar algum efeito significativo ao invés de apenas proferir as palavras com alguns melismas corriqueiros e aquela coisa toda. Tudo o que eu tenho a dizer sobre isso é: se for cantar pra Jesus, então canta, mas canta mesmo! Grita o mais alto que você puder, porque aparentemente é só assim que ele ouve! Agora falando sério: por ser a última faixa, acho que a cantora desperdiçou a oportunidade de botar o gogó pra funcionar mais uma vez, no mesmo nível da canção anterior, para pelos menos nos deixar com uma impressão melhor dos seus esforços. Mas não é o que acontece, infelizmente. Dito isso, considero And I Am Telling You I’m Not Going uma experiência muito mais divina do que a “proporcionada” por este último ato do álbum de Hudson. Que pecado, hein! Pelo menos tudo tem um fim, Graças ao Senhor!

Jennifer Hudson
Artista: Jennifer Hudson
País: EUA
Lançamento: 27 de setembro de 2008
Gravadora: Arista Records
Estilo: R&B, Soul

KARAM . . . Desde 1992, o ano em que foi apresentado ao mundo por duas admiráveis criaturas que logo se identificaram como "pais", Karam vem se aventurando pelos caminhos da Arte, da maneira que pode. Na música, Aretha Franklin é a sua pastora. Na Literatura, andou se entendendo muito bem com Clarice Lispector e Oscar Wilde. Embora faça faculdade de Cinema, não esconde que seu filme preferido – ao contrário do que muitos poderiam presumir – não é nenhum cult de Bergman ou Fellini, mas sim O Rei Leão; é!, aquele lá mesmo, da Disney. Um dia leu, em Leminski, que "isso de ser exatamente o que se é ainda vai nos levar além" e, assim, resolveu investir na ideia proposta pelo poeta para, quem sabe um dia, chegar ao além sem precisar passar pelo infinito – que é a pra não ter a infelicidade de esbarrar com o Buzz Lightyear no meio do caminho (fora, concorrência!).