Crítica | Jerry Before Seinfeld

Stand-up comedy não é algo que costumo apreciar. Não só não gosto do formato, como todas as apresentações que vi até hoje – foram poucas, confesso – não funcionaram bem no quesito básico de me fazer rir, com alguns raros momentos que, claro, só confirmam a regra para mim. O Netflix, porém, vem investindo pesado nessa área que é tão adorada especialmente nos Estados Unidos e, quando soube que Jerry Seinfeld seria o alvo de uma das produções, fiquei curiososo por eu o considerar – junto com Larry David – o grande responsável por aquela que, até hoje, reputo como a melhor sitcom já feita, Seinfeld, que foi ao ar entre 1989 e 1998, ao longo de nove gloriosas temporadas. Portanto, minha visão sobre Jerry Before Seinfeld certamente será influenciada ao mesmo tempo por meu desgosto por stand-up comedies e minha apreciação por Jerry Seinfeld. Ajustem suas expectativas de acordo.

A proposta do Netflix, pelo menos a que transparecia da divulgação, do trailer e do próprio título da produção, era de mergulhar no começo da carreira do comediante, dando-nos uma visão biográfica potencialmente chapa branca, por ser apresentada pelo próprio. Não que o canal de streaming tenha escondido que haveria uma apresentação nova dele, pois isso também fica evidente do material publicitário, mas a impressão que tive era de um equilíbrio maior do que efetivamente vemos na telinha. Dos 62 minutos de projeção, algo como 50 lidam com a apresentação em si, que marca a volta de Seinfeld ao mítico The Comic Strip, de Nova York, onde começou sua carreira na segunda metade da década de 70 e de onde partiria para o estrelato depois que foi chamado para o show de Johnny Carson, na NBC, em 1981. Nos minutos restantes, que são intercalados ao longo do telefilme, vemos relances de sua infância e juventude, com fotografias e filmagens antigas que ilustram um pouco – mas realmente só um pouquinho – do tal “Jerry antes de Seinfeld”.

Isso, de forma alguma, em si, depõe contra o programa. Se o Netflix marketeou a produção de forma enganosa ou se eu entendi errado, pouco importa. O que realmente importa é que o conteúdo da apresentação de Seinfeld é uma mescla de seu material clássico – inclusive seus dois primeiros bits, o primeiro bem melhor do que o segundo – com piadas novas, preparadas para esse show, com casa obviamente lotada, mas sem tentar embelezar o local além dos dois apoios de livros do Superman que o comediante, famosamente fã do personagem, trouxe para “decorar” o palco bem básico, com a clássica parede de tijolos aparentes atrás. Com um paletó brilhante e calça jeans, o carismático artista toma de assalto o palco e mesmeriza o espectador imediatamente com seus maneirismos saudosos que, ao longo de anos – e até hoje! – vimos em sua sitcom. Sem dúvida, aquele ali ainda é o Seinfeld de outrora em aparência, gestos e voz.

Deixando o semi-improviso de sua websérie Comedians in Cars Getting Coffee, que está no ar desde 2012 e que conta com fantásticos convidados (e carros) variados, começando com Larry David e muito recentemente trazendo Christoph Waltz(!!!), o que vemos é um show amarradinho, simpático pela presença magnética do comediante, completamente apolítico e de tom família, sem que seja necessário recorrer a palavrões e mais palavrões como é costume em diversos comediantes atuais (não que eu seja pudico, mas isso cansa) que poderia ser resumido como seguro demais para o seu próprio bem ou, em uma palavra só: morno. De piadas que lidam com a gramática novayorkina, até momentos em que Seinfeld indaga porque raios os partidos Republicano e Democrata (que ele jamais menciona pelos nomes) têm, respectivamente, um elefante e um burro como símbolos, vislumbramos aquelas bobagens sobre o dia-a-dia que ele muito bem capturava e exagerava em seus esquetes de sua antiga série. Não há, porém, nenhum momento particularmente hilário, de doer a barriga de tanto rir, ao longo de toda a curta apresentação. Também não há nada ferino ou transgressor – dentro de seu estilo – ou memorável fora sua própria presença ali, muito claramente se divertindo no pequeno palco.

Talvez tenha faltado tempo. A curta duração e a montagem claudicante chegam a atrapalhar não a compreensão das piadas, mas a fluidez narrativa, tornando a produção quebradiça e contribuindo, assim, para o amornamento de alguns momentos aqui e ali que poderiam realmente trazer de volta a acidez crítica de outrora. Certamente ainda é Seinfeld, mas é um Seinfeld domado, preso a um modelo que não arrisca momento algum.

Mas Jerry Before Seinfeld ainda é uma diversão leve e descompromissada, especialmente se o fator saudosismo entrar nessa equação (e, se você gostava da série, ele entrará, pode ter certeza). Diria que é impossível parar o programa no meio mesmo quando o espectador percebe o caminho mais “seguro” que ele toma. Ao final, porém, dá aquela vontade de ver o comediante de volta à sua sitcom ao lado de Elaine, Kramer e George Costanza, nem que seja por mais um ou dois episódios especiais e inspirados.

Jerry Before Seinfeld (EUA, 19 de setembro de 2017)
Direção: Michael Bonfiglio
Roteiro: Jerry Seinfeld
Com: Jerry Seinfeld, Jimmy Brogan, Mark Schiff
Duração: 62 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.