Crítica | Jersey Boys: Em Busca da Música

estrelas 3

Vamos logo de cara deixar uma coisa muito clara: é impossível sair desse filme sem um sorriso no rosto e sem estalar os dedos ao ritmo das músicas, quiçá cantando-as. O novo trabalho de Clint Eastwood na direção é enérgico, divertido e cativante. Isso se explica, talvez, não só por seu extenso trabalho de direção ao longo de décadas, mas, também, pelo seu amor à música, já que ele tem uma história pessoal muito próxima à essa arte, tendo dirigido Bird, a cinebiografia de Charlie Parker, um de seus músicos favoritos, e todo o seu trabalho na composição de diversas trilhas sonoras para seus filmes, como Sobre Meninos e Lobos e Menina de Ouro.

Mas nem a música do famoso grupo sessentista The Four Seasons, liderado pelo vocalista de voz inconfundível Frankie Valli (John Lloyd Young), nem a direção de Eastwood torna a fita imune à armadilhas narrativas trazidas pelo roteiro mal estruturado para o cinema. No entanto, por que começar com o lado negativo se a música continua reverberando em minha cabeça enquanto escrevo?

Jersey Boys (vou ignorar o dispensável subtítulo em português) é a cinebiografia do mencionado grupo, começando em 1953, com seus integrantes ainda sem rumo e comandados pelo persuasivo Tommy DeVito (Vincent Piazza), com ligações estreitas a um mafioso de Nova Jersey, Gyp DeCarlo, vivido deliciosamente por Christopher Walken. Baseado no musical da Broadway homônimo de enorme sucesso mundial, produzido pelos próprios integrantes principais da banda (que também figuram como produtores executivos do filme), Eastwood não filma um musical propriamente dito, mas uma biografia com música, tendo o cuidado de inserir números musicais de forma diegética dentro da narrativa, sem precisar recorrer à canções começando do nada.

Com isso, a conta gotas, o diretor vai apresentando os grandes sucessos da banda, começando com Sherry, composta literalmente “nas coxas” até a balada das baladas, Can’t Take My Eyes Off You. Há um bom arco de desenvolvimento da banda como um todo, começando humilde em Nova Jersey, tomando os EUA de assalto com seu primeiro hit, a queda e a reconstrução. O que faltou nesse quesito foi um aprofundamento da dimensão do sucesso do The Four Seasons ao longo dos anos. Não fica claro, especialmente para quem porventura não conheça as canções, o quão importante foi o grupo na história da música americana e o quanto esse sucesso significou em termos financeiros para seus membros. Vemos um vislumbre disso quando a dívida de Tommy DeVito é discutida, mas é algo muito rápido, quase como se houvesse sido inserido lá de último minuto.

Aliás, falando da dívida de Tommy DeVito, esse é um aspecto do roteiro que muito me incomodou. Tudo é tratado em um longo flashback narrado por Nick Massi (Michael Lomenda) em uma daquelas trocas de ângulo da narração que, apesar de funcionarem bem na peça, ficam estranhas na fita. Acontece que essa volta ao passado para nos contar como DeVito contraiu suas dívidas e como isso afetou a banda soa artificial demais, solapada no meio do filme como se os roteiristas – que, aliás, são os autores do livro encomendado por Bob Gaudio para dar base ao musical – tivessem acabado de escrever o roteiro e aí se lembrado que esqueceram desse pedaço. Eastwood até tenta tornar o momento interessante, trabalhando a partir da apresentação do grupo no Ed Sullivan Show, momento no mínimo inusitado para se inserir o flashback, mas ele é longo demais, didático demais e, em última análise, acaba empobrecendo o que o espectador já havia subentendido desde o começo da projeção.

Em termos de duração, Eastwood também erra no começo, ao empregar tempo demais na fase “pré-The Four Seasons”. Vemos a relação inicial entre DeVito, Valli e Massi e, depois, a chegada do essencial Bob Gaudio, vivido com coração por Erich Bergen (Gaudio foi o maior responsável pelo sucesso do grupo, com seu trabalho de composição e, também, pela peça de teatro e pelo filme ora criticado) e trazido para o grupo por Joe Pesci (Joseph Russo – e sim, é o Joe Pesci ator). É claro que o que se pretende com o tempo empregado nesse período de formação é mostrar o quão juntos esses “garotos de Jersey” são, algo que, mais para a frente, se mostrará importante. Mas, acontece que Eastwood parece demorar demais nessa construção, introduzindo elementos pouco importantes, ou melhor, pouco explorados adiante, como a relação de Valli com seus pais e até mesmo a namorada e futura esposa de Valli.

O filme realmente engrena quando os quatro jovens começam a trabalhar com Bob Crewe (Mike Doyle, hilário) e ouvimos, pela primeira vez, Sherry. Talvez tenha sido a empolgação de ver as músicas sendo finalmente executadas, talvez tenha sido pela “demanda reprimida” causada pelos longos 40 minutos iniciais, mas o fato é que a narrativa encontra seu caminho da mesma maneira e no mesmo momento que Valli e seus amigos finalmente encontram “sua voz”. Seria até a redenção completa do filme, não fosse o soluço que o flashback para DeVito e seus problemas e, também, o quanto o roteiro reluta em abordar as questões pessoais de seus membros, focando no conjunto, mas, com isso, tirando o impacto de eventos futuros.

Com um final parecido com o musical, vemos os personagens, de maneira desagradavelmente expositiva, contando o que aconteceu com eles depois do que vemos na projeção. É como se aqueles textos finais, comuns em cinebiografias, fosse lidos por cada um dos envolvidos. Mas, no filme, o problema se agrava, pois os quatro são mostrados mais velhos, porém sem troca de atores e, portanto, com uma pesada – e terrível – maquiagem que não funciona em momento algum. Chega a ser constrangedor.

Acontece que o estalar dos dedos, a batida de pés, o cantar baixinho (no cinema) e alto (já do lado de fora) e a empolgação de conhecer a origem de canções tão inesquecíveis,  quase que apaga todos os defeitos da história. Quase. Trata-se de um trabalho menor de Eastwood no alto de seus muito bem vividos 84 anos, mas é inegável a empolgação do diretor com o projeto, ainda que ele tenha tido a tarefa inglória de driblar um roteiro equivocado.

Jersey Boys: Em Busca da Música (Jersey Boys, EUA – 2014)
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Marshall Brickman, Rick Elice
Elenco: Vincent Piazza, John Lloyd Young, Steve Schirripa, Christopher Walken, Johnny Cannizzaro, Michael Lomenda, Renée Marino, Joseph Russo, Erich Bergen
Duração: 134 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.