Crítica | Jersey Boys, em Las Vegas

estrelas 3,5

The Four Seasons é um grupo de pop/rock americano, que surgiu e floresceu na década de 60, lançando seu primeiro single, Bermuda/Spanish Lace, pela Gone Recordes, em 1961. Sem sucesso algum, Bob Gaudio, um dos alicerces do grupo, insistiu na empreitada e compôs Sherry, mas também não encontrou tração imediatamente. Foi apenas depois da insistência de Frankie Valli – o outro alicerce do grupo – perante Randy Wood, da Vee-Jay Records, que eles conseguiram gravar seu primeiro álbum tendo Sherry como carro-chefe. O resultado? Bem, o resultado é que Sherry não só apareceu nas listagens, como se tornou a música número 1 dos EUA na época.

Mas a história do grupo é muito mais rica e muito mais complicada do que isso. Começa, na verdade, na década de 50 e tem ramificações até os dias de hoje. Essa mistura de fracassos, decepções, sucessos e, especialmente, de músicas inesquecíveis foi transformada em livro por Mashall Brickman e Rick Elice, encomendado por Bob Gaudio para servir de base a um musical da Broadway que acabou sendo intitulado Jersey Boys, fazendo referência à origem dos componentes do The Four Seasons (bem, pelo menos isso é verdade no caso de Valli).

A ideia original era pegar os grandes sucessos do grupo, músicas como Can’t Take My Eyes Off You, Rag Doll, Stay, Big Girls Don’t Cry, Sherry, My Eyes Adored You e Working My Way Back e usá-los como trilha sonora de uma história independente, bem no estilo do musical Mamma Mia!, baseado nas músicas do grupo sueco Abba. No entanto, os autores contratados tiveram a ideia que usar as músicas sim, mas para contar a história do The Four Seasons, desde quando Frankie Valli era do The Four Lovers e Bob Gaudio do Royal Teens, nos anos 50.

O resultado foi um musical meio documentário, meio jukebox que, inspirado pelo nome do grupo, se divide em dois atos, cada um formado por duas estações do ano (season é estação, em inglês) e mais um finale, um epílogo mesmo, não um terceiro ato. Estreando primeiro em San Diego em uma montagem teste que se manteve de outubro de 2004 a janeiro de 2005, o musical teve sua montagem nobre na Broadway garantida, abrindo em novembro de 2005 para uma calorosa recepção, continuando até hoje. E, nesse meio tempo, Jersey Boys foi montada em Londres, Auckland, Toronto, Cingapura e outras, além de diversas cidades dos Estados Unidos, ganhando um segundo lar “definitivo” em Las Vegas a partir de maio de 2009, que é a montagem objeto da presente crítica e que continua até os dias de hoje também.

Com produção e músicas do próprio Bob Gaudio, a peça é uma versão açucarada do drama vivido pelos membros do grupo e contados, de estação em estação, por cada um deles, com perspectivas diferentes. O primeiro a narrar – na primavera – é Frankie Valli (Travis Cloer, na versão que assisti) que interrompe o rap Ces soirées-là, gravada pelo rapper francês Yannick, em 2000, afirmando que é um cover da obra do The Four Seasons.

Voltamos no tempo e Valli narrando e vivendo a história, nos conta o nascimento da banda, especialmente de sua participação na banda e antes da banda, com visitas várias à prisão e sua relação com Nick Massi (Jeff Leibow) e Tommy DeVito (Deven May), ligação com a máfia e até mesmo com Joe Pesci (sim, ele mesmo). No verão, a narração é trocada para Bob Gaudio (Jason Kappus) que rasga ceda para o lado de Valli (e todos nós sabemos que a história não é bem assim) e conta a efetiva formação do grupo, a escolha do nome e a composição dos grandes hits.

No outono, já no segundo ato, Nick Massi é o narrador e a estrutura narrativa da peça começa a sofrer um pouco, talvez pelo fato de Valli e Gaudio serem efetivamente os mais importantes personagens. A ligação do grupo com a máfia começa a criar problemas e nós vemos o vislumbre do começo do fim da era de ouro.

E, de fato, no inverno, Valli volta para narrar, contando a “conversão” do grupo em um ato de uma pessoa só, com a alteração do nome para Frankie Valli and the Four Seasons. Mas, apesar dos acontecimentos negativos, a narrativa é positiva, energética e alegre, com um Finale iniciado por Bob Crewe (John Salvatore), que dá oportunidade a cada um dos membros contar sobre o que é ter participado da grupo e o que aconteceu dali em diante.

O Finale é estranho, artificial e expositivo demais, quase como se fosse um capítulo apressado de um livro. Afinal de contas, assim como um filme, uma peça de teatro musical normalmente recorre às palavras e ao visual para contar uma história e ter os personagens substancialmente parados nos contando o que aconteceu com eles não funciona e acaba adicionando tempo demais à peça que poderia já ter sido encerrada.

Em termos cenográficos, estamos falando de uma super-produção da Broadway com teatro próprio em Las Vegas (tão próprio que o nome do teatro é Jersey Boys Theatre, no hotel The Palazzo. O cenário é grandioso, bem feito e com uma estrutura que permite a transição de um cenário para o outro de maneira muito suave, quase imperceptível. A direção usa muito bem esse espaço, com um equilíbrio agradável entre props e atores.

Mas o que realmente chama atenção e empolga são as canções. Todas muito bem interpretadas com emoção e relevância dentro da narrativa. A história mais para o lado do comum ganha vida e cor, tornando até difícil ficar sentado na cadeira do teatro.

Jersey Boys diverte, encanta e as músicas nos fazem esquecer seus defeitos. Mas eles estão lá, por debaixo, especialmente o mencionado final expositivo e arrastado, além de toda a narrativa ser parcial demais, elogiosa demais, reverente demais.

Mas não dá para tirar os olhos do palco.

Jersey Boys (Idem, EUA – 2005 ao presente)
Montagem: Las Vegas, Jersey Boys Theater, desde 2009
Autor: Mashall Brickman, Rick Elice, Bob Gaudio, Bob Crewe
Direção: Des McAnuff
Elenco: Travis Cloer, Deven May, Jeff Leibow, Jason Kappus, John Salvatore, Joe Barbara, Megan Nicole Arnoldy, Candi Boyd, Kris Coleman

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.