Crítica | Jessabelle – O Passado Nunca Morre

estrelas 3,5

Jessabelle lembra um episódio de Além da Imaginação ou de Fear Itself. Trágico desde o começo, um tanto misterioso e com uma ou outra reviravolta interessante, diverte e até consegue um ou outro frio na nuca do expectador, mais pelos rumos inusitados do que por sustos. Pena que careça em atuações e, principalmente, de um melhor desenvolvimento dos personagens, que nos acompanham durante um longa de noventa minutos e não de um episódio de quarenta.

Como bom terror psicológico, o filme coloca a protagonista, Jessie (Sarah Snook) numa situação desesperadora ainda no primeiro minuto de fita. Após sofrer um acidente automobilístico em companhia de seu namorado, com o qual ia morar, já esperando um bebê do homem, descobre que perdeu a criança, o companheiro e que, devido a uma fratura vertebral, está impossibilitada de andar por pelo menos três meses. Assim, durante o período de fisioterapia Jessie tem de ir para a casa interiorana do pai, em St. Francis, Louisiana, que deu a filha para uma tia quando a esposa faleceu após seu nascimento.

Aqui reside o primeiro problema do longa. As circunstâncias exigem, mais do que nunca, uma boa presença de câmera da atriz principal, mas não é o caso da australiana Sarah Snook. Como é recorrente em produções do gênero, mesmo uma boa história de horror beira à banalidade com a pouca expressividade de atores às sequências de desgraças mais mirabolantes. Sim, porque apercebendo-se de uma presença sobrenatural na casa – a começar por uma cantiga na calada da noite que cumpre perfeitamente o seu papel -, descobrindo fitas de vídeo de sua mãe revelando uma suposta conexão entre o seu nascimento e a aparição, andando fisicamente sozinha em sua cadeira de rodas por uma morada cheia de barbaridade, além da dela própria – tendo como única companhia o sinistro espírito que se autodenomina Jessabelle e não parece nada amistoso à moça -, a jovem efetivamente não convence, lembrando a típica mocinha de filmes trash num filme que claramente quer ser levado mais a sério (embora seu posterior trabalho em Predestinado ateste o amadurecimento da atriz aos olhos da crítica). De fato, o veterano David Andrews, como o degradado pai de Jessie, é quem se destaca, e Chris Ellis, no papel de xerife, também se mostra uma presença bem-vinda, enquanto Mark Webber, no papel de um ex-namorado de Jessie, não poderia ser menos carismático apesar do esforço do roteiro para o contrário.

Embora pouco ou nada assuste, o longa, que conta na produção com o nome de Jason Blum, das franquias Atividade Paranormal, Uma Noite de Crime e Sobrenatural, consegue nos proporcionar um ou outro momento agoniante, como de praxe mais a partir do oculto, daquilo que não se vê, do que com o explícito – destaque para uma sequência na qual a assombração caminha de um lado para o outro, deixando-nos na angustiante espera pelo bote. O trabalho de trilha também é ótimo, tanto com o silêncio, apenas preenchido por sons ambiente, quanto com o instrumental, presente ponderadamente e que dialoga muito bem com a mitologia descortinada aos poucos pela trama.

Quem gosta de histórias de investigação também deve se entreter, porque ela está bem presente na solução do mistério entorno da genealogia de Jessie. Por outro lado, pouco sabemos acerca do referencial de vida da protagonista ou de seu pai entre os períodos focados pelo roteiro, para tanto bastaria um maior aproveitamento de diálogos ou mesmo a inserção de flashbacks pontuais.

Trata-se de um filme digno de Kevin Greutert, que dirigiu duas sequências da franquia Jogos Mortais – incluindo a sua conclusão. Produção que distrai e com um final à altura do gênero, que embora seja redondo na certa rende uma sequência. Com mais atuações maduras e um roteiro melhor aproveitado, porém, passaria do regular aos nossos piores pesadelos.

Jessabelle – O Passado Nunca Morre (Jessabelle), EUA – 2014
Direção: Kevin Greutert
Roteiro: Robert Ben Garant
Elenco: Sarah Snook, Joelle Carter, Mark Webber, David Andrews, Ana de la Reguera, Amber Stevens West, Chris Ellis, Brian Hallisay, Vaughn Wilson, Larisa Oleynik
Duração: 90 min.

LUCAS BORBA . . Gaúcho e estudante de jornalismo, vê nessa profissão a sua porta de entrada ao mundo artístico, uma de suas grandes paixões. Cinema, séries e seriados, animes e animações, literatura e até radionovelas compõe sua ânsia insaciável pelo vômito da arte. Opa, não, só por arte mesmo. Sem falar, é claro, em paixões como batata frita, panquecas (destaque para as de espinafre e de guisado, com bastante requeijão, e para as de chocolate), estrogonofe, navegação e otras cocitas más - repare que a comida ganha destaque, apesar da sua, sim, magreza.