Crítica | Jesse James – Lenda de Uma Era Sem Lei

estrelas 4,5

As primeiras produções realmente importantes sobre a vida de Jesse James no cinema se deram pelas mãos do cineasta Franklin B. Coates, nos filmes Jesse James Under the Black Flag e Jesse James as the Outlaw, ambos de 1921 e estrelados por Jesse James Jr. (isso mesmo!). Até o final da década seguinte, poucas foram as obras que voltaram a abordar o tema, o que talvez tenha animado Darryl F. Zanuck a investir dinheiro em uma produção que contasse a história da vida desse famoso fora da lei, produção que entregou a Henry King, um diretor em quem confiava bastante.

Para o papel principal foi escalado Tyrone Power, ator que havia começado a carreira ainda criança e já era bastante conhecido, um galã arrasta-público. Para o papel de Frank James, o irmão mais velho do protagonista, foi escalado Henry Fonda, que vinha construindo uma exemplar carreira desde 1935. O filme foi rodado em Missouri e no Estúdio da Fox, na Califórnia, contando com grandes tomadas de perseguição e a famosa cena em que dois atores (Power e Fonda) e seus respectivos cavalos saltam de um penhasco e um dos animais morre (Zanuck, no entanto, afirmou categoricamente que o bicho teve sua queda amortecida e saiu do rio são e salvo). O resultado foi que a American Humane Association mandou uma comitiva para fiscalizar o restante das filmagens e garantir que nenhum animal saísse ferido.

Mas a dor de cabeça valeu a pena. Jesse James – Lenda de Uma Era Sem Lei foi a 4ª maior bilheteria de 1939 nos Estados Unidos, ficando atrás apenas de …E O Vento Levou, O Mágico de Oz e O Corcunda de Notre Dame.

O início do longa traz um motivo dramático de cunho social muito forte, palmilhando o território que geraria, na versão do roteirista Nunnally Johnson, o surgimento do “grande bandido”. Seu texto aqui não traz o cunho ideológico que ele usaria em As Vinhas da Ira (1940), mas é visivelmente uma versão que pende para a esquerda, posta como forma de denúncia aos métodos utilizados pelo empresário da Ferrovia Transnacional – um modelo curioso de abordar o contexto das Union Pacific e ranch stories, mesmo que brevemente – e como a figura de uma perigosa ameaça à nação é forjada, construindo aí uma excelente outlaw story.

Sem exageros dramáticos e equalizando com admirável equilíbrio diversas abordagens dentro do western, Johnson cria uma versão inicialmente familiar de Jesse James, para em seguida esmagá-la, destacando a influência do meio sobre o indivíduo. Então, o roteirista faz com que o personagem passe por diversas fases de comportamento, como a do bandido aprendiz, do cidadão traído, do marido abandonado, do homem desesperançoso e do pai consciente de seu papel. Essas facetas exigiram um grande esforço do ator Tyrone Power, que as cumpre quase inteiramente bem, perdendo-se brevemente em alguns pontos da trama mas retomando as rédeas da atuação logo em seguida, principalmente quando contracena com Henry Fonda.

A direção de Henry King é bastante objetiva, seguindo uma linha cronológica simples mas filmada com grande apuro formal, com destaque para os ângulos precisos e, algumas vezes, bastante ousados. A bela fotografia em Technicolor destaca e contrasta bem a paisagem com os interiores dos ambientes, a diferenciação mais impactante da fita. O ambiente geográfico não é o “deserto selvagem” que John Ford cunharia como identidade fixa do western nesse mesmo ano em No Tempo das Diligências, por isso, o filme tem uma agradável cor verde em praticamente todas as tomadas em exteriores, resultado das locações nos terrenos das Planícies Fluviais do Mississippi. Os interiores, por sua vez, são identificados por tons térreos em diferentes tonalidades, uma “compensação” fotográfica que agrada aos olhos e cria por si só um parâmetro dramático importante.

O final trágico anunciado não impede que o espectador se emocione com o que acontece, até porque Henry King prepara algumas surpresas no decorrer dos eventos e o texto de Nunnally Johnson tem várias camadas a serem consideradas, seja na versão individual dos personagens (com abertura para a excelente incursão do humor com a catchphrase: “Vamos escrever um editorial!”), seja na somatória de todas elas, fechando o filme com um bem vindo ponto de interrogação que, no ano seguinte, animaria Zanuck contratar Fritz Lang para dirigir uma sequência, focada, então, na vida de Frank, em um filme chamado A Volta de Frank James, ainda com Henry Fonda no papel. O resultado, no entanto, não seria nem de perto parecido com o obtido por Henry King neste aqui.

Jesse James – Lenda de Uma Era Sem Lei (Jesse James) – EUA, 1939
Direção:
Henry King, Irving Cummings
Roteiro: Nunnally Johnson
Elenco: Tyrone Power, Henry Fonda, Nancy Kelly, Randolph Scott, Henry Hull, Slim Summerville, J. Edward Bromberg, Brian Donlevy, John Carradine, Donald Meek, Johnny Russell, Jane Darwell
Duração: 106 min.

LUIZ SANTIAGO. . . .Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.