Crítica | Jessica Jones: Alias – #1 a #10

estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica dos demais arcos de Jessica Jones: Alias, aqui.

jessica_jones_alias_v1_marvel_plano_criticoPodem falar o que quiser, mas a carreira de Brian Michael Bendis nos quadrinhos Marvel é impressionante. Começando nos independentes (Cabiber, Image e Oni Comics), o autor logo chamou a atenção de Joe Quesada que, por sua vez, recomendou seu nome a Bill Jemas, então presidente da Marvel Comics. Assim, no ano 2000, Bendis começou seu longo run do Homem-Aranha do Universo Ultimate da Marvel, que literalmente catapultou essa bem-sucedida empreitada da editora (tão bem sucedida que, apesar de esse universo paralelo ter perdido a importância editorial, teve vários de seus conceitos carregados para o Universo Marvel comum, chamado Terra-616 e também para o Universo Cinematográfico Marvel).

Logo no ano seguinte, porém, Bendis expandiria seus horizontes dentro da editora, combinando seu trabalho com o Homem-Aranha com um dos mais consagrados mega-arcos do Demolidor, em parceria com o sensacional Alex Maleev na arte e com uma minissérie de Elektra, com Chuck Austen. Também em 2001, Bendis criaria Jessica Jones, personagem com absolutamente todas as características de uma criação autoral independente que simplesmente não poderia ter lugar em uma editora mainstream como a Marvel Comics.

Originalmente, sua ideia era usar uma personagem pré-existente – Jessica Drew, a Mulher-Aranha – mas acabou optando por uma personagem “zerada”. Seu trabalho acabou sendo responsável pela criação de um selo na Marvel somente para ele, o Marvel Max ou Max Comics que, assim como o Epic Comics dos anos 80 e começo dos anos 90, abria as portas para uma pegada mais realista, violenta e explícita dentro da editora. E é justamente esse tipo de liberdade que Bendis precisava para sua personagem, uma super-heroína que largou o “uniforme” para abrir uma agência de detetive de uma pessoa só chamada Alias (ou Codinome, em português).

Mas o que tem de especial nisso, alguns podem perguntar. Bem, a resposta é: absolutamente tudo. Primeiro, trata-se de material arriscado, pesado, certamente não recomendável para menores vindo de uma editora grande e não de uma independente, algo raro. Segundo, Bendis é genial ao já criar Jessica Jones como um personagem “retconado” no Universo Marvel, ou seja, o roteirista utilizou-se do artifício da continuidade retroativa para inserir Jessica Jones dentro do universo super-heroístico comum Marvel sem criar marolas ou afetar verdadeiramente o passado. Ela tem poderes, mas não muitos e, claramente, passou e passa por traumas passados. Largou sua persona de Safira (Jewel, no original) em algum momento incerto no passado, quando lutou brevemente junto com os grandes heróis da editora sem uma razão muito clara, a não ser uma espécie de sentimento nihilista geral que sente, ao ponto de entregar-se ao sexo violento com Luke Cage apenas para “sentir alguma coisa”.

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Uma das poucas splash pages de Gaydos e o que vemos? Jessica Jones no banheiro e não sensualmente tomando banho. Sensacional, não?

Parem para pensar na dificuldade de se fazer isso de maneira crível. Retcons são normalmente complicados e atabalhoados, além de serem usados e abusados tanto pela Marvel como pela DC apenas para o efeito do choque. Exemplo recente disso é a saga Pecado Original. Mas, nas mãos de escritores hábeis, o retcon pode ser um artifício milagroso, como o trabalho de Ed Brubaker com o Capitão América e o Soldado Invernal . Alias é outro exemplo magnífico disso, mas que acrescenta ao mero retcon camadas e mais camadas de complexidade e de humanidade.

Nada de gigantescos feitos heroicos aqui. Jessica Jones é uma mulher sozinha que não gosta realmente de seus (poucos) poderes e tem em sua micro-agência de detetive uma válvula de escape que a permite esquecer-se dela mesmo. O submundo em que ela transita é o reflexo do que ela pensa, do descaso que ela sente de si mesma. Nesses dez números iniciais, Bendis não se preocupa em explicar nada sobre a “origem” da personagem. Ela apenas é e o leitor é jogado no meio da narrativa, sem cerimônias e somente muito aos poucos é que vamos mergulhando na psiquê dessa fascinante personagem.

Dentro dos números que são objetos da presente crítica, há dois arcos de quatro números e dois one-shots. Mas, diferente do que se pode esperar, não há ação. O foco é o texto, é o quanto Bendis consegue imprimir de personalidade em sua personagem e o quanto ela soa real, palpável, como alguém que existe de verdade, mesmo considerando seu entorno super-heroístico.

O primeiro arco lida mais com Jones, seus medos e suas paranoias. A trama é típica de filmes noir, com a detetive sendo contratada para descobrir o paradeiro uma mulher, somente para descobrir que há algo mais por trás da aparentemente inocente investigação. Os pensamentos de Jones quando ela começa perceber que há algo errado são provas da qualidade do texto de Bendis, que alia a realidade com pequenas resvaladas no mundo fantástico da Marvel. E, em um crescendo desesperador, vemos que ela não tem saída, a não ser encarar a ameaça velada e descobrir quem armou para ela. No entanto, muito diferente do que poderíamos esperar, não há lutas, planos mirabolantes ou sequências de tirar o fôlego da maneira tradicional. Tudo é discreto e se resolve em diálogos que desvelam a realidade da situação redor de Jessica Jones e todo o mundo sombrio – bem mais sombrio do que ela imaginava – que a engolfa. Chega a ser difícil descrever o que Bendis faz aqui, mas é mais ou menos como ver um filme de David Mamet ou, antes ainda, de John Huston.

Logo depois desse arco, Bendi dedica um número inteiro da publicação única e exclusivamente a uma conversa entre Jessica Jones e Carol Danvers (a Ms. ou Capitã Marvel, uma de suas poucas amigas remanescentes da época em que era heroína de uniforme) em uma mesa externa de uma cafeteria. Só. Mais nada. Nada como ter liberdade criativa para fazer o que quiser e, no processo, encantar os leitores que se deixarem levar pelos diálogos inteligente e relevantes que Bendis cria.

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Página dupla de Gaydos mostrando seu absoluto controle sobre a diagramação de uma profusão de quadros.

O arco seguinte inverte um pouco a lógica do primeiro e transfere o tanto da paranoia de Jessica para seu investigado da vez, o eterno sidekick Rick Jones, cuja esposa a contrata para achá-lo, de quebra revelando que os dois Jones têm parentesco. O encadeamento do raciocínio de Bendis, ao mesmo tempo desconstruindo Rick Jones e construindo Jessica Jones é de se tirar o chapéu. Mais do que o arco anterior, este lida com situações absolutamente mundanas, quase rasteiras, mas sempre dentro de uma lógica maior que jamais trai todo o Universo Marvel ao redor. Assim, Alias exige não só um alto grau de maturidade para ser apreciada (não é mesmo recomendada para os muito jovens), como também um bom conhecimento de toda a mitologia dos heróis. Não que a publicação não possa ser compreendida sem isso, mas certamente aqueles que conhecerem o passado dos heróis entenderão como Bendis consegue costurar tudo muito bem.

E, fechando esse magnífico começo, Bendis faz outro one-shot, com Jessica Jones sendo contratada por J. Jonah Jameson (editor do Clarim Diário) para descobrir a identidade secreta do Homem-Aranha. Em estilo diferente, com o roteiro sobreposto a painéis de Michael Gaydos, a história é a mais leve de todas, mas não menos cativante.

Mas uma crítica de Alias jamais seria completa sem comentários sobre a arte de Michael Gaydos, o principal desenhista de toda a série. Seu estilo rústico empresta a crueza que a história exige, retratando um mundo sujo, podre, triste, em que a depressão e o nihilismo imperam. Não há mulheres voluptuosas e homens de musculaturas perfeitas. Há apenas a vida como ela é, sem enfeites, sem firulas, sem pasteurização. A própria Jessica Jones não tem traços de beleza estonteante, o que por si só é um banho de frescor e originalidade dentro de um universo de quadrinhos em que as super-heroínas, aparentemente, precisam sempre ter peitos enormes e bundas perfeitas dentro de roupas justas e reveladoras para fazerem sucesso. Como disse, o foco é o diálogo, os pensamentos de Jessica e a arte não nos distrai, não prejudica a leitura. Muito ao contrário, ela nos faz focar ainda mais no que é verdadeiramente importante em histórias dessa natureza: o lado psicológico.

Não que a arte de Gaydos não seja bonita por si só, pois ela é, especialmente com o trabalho fenomenal de cores mudas tendentes ao sombrio de Matt Hollingworth. Mas Gaydos realmente se destaca é na soberba utilização dos quadros para fazer a narrativa progredir. Carregado de diálogos – internos ou não – e com apenas breves pitadas de ação,  Alias não poderia se beneficiar de artes chamativas, com uso constante de splash pages. Muito ao contrário, a profusão de quadros é elemento essencial e Gaydos parece ser um mestre em sua diagramação, nunca deixando a leitura ficar enfadonha ou repetitiva.

Jessica Jones: Alias é uma publicação essencial para qualquer leitor da Nona Arte, gostando ou não de super-heróis. É a prova que os quadrinhos mainstream têm enorme valor autoral quando a editora é corajosa o bastante para bancar algo diferente (Gavião Arqueiro, de Matt Fracion e David Aja é outro exemplo bem recente de brilhantismo autoral no mainstream).

Jessica Jones: Alias #1 a #10 (EUA – 2001/2002)
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Michael Gaydos, Bill Sienkiewicz (#7 e #8)
Arte-final: Michael Gaydos, David Mack, Bill Sienkiewicz (#7)
Cores: Matt Hollingsworth, David Mack
Letras: Richard Starkings, Oscar Gongora, Wes Abbott
Capas: David Mack
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: novembro de 2001 a agosto de 2002
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: setembro de 2003 a junho de 2004 (nas edições #1 a #10 do mix Marvel Max)
Páginas: 204

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.