Crítica | Jessica Jones: Alias – #11 a #15

estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica dos demais arcos de Jessica Jones: Alias, aqui.

A realidade é tão bizarra que parece ficção.
Rebecca (por Brian Michael Bendis)

O terceiro arco completo de Alias, a sensacional criação de Brian Michael Bendis que introduziu a detetive particular com (alguns) super-poderes ao Universo Marvel, foi batizado simplesmente de Rebecca, Please Come Home (“Rebecca, Por Favor Volte para Casa”) e lida com o desparecimento de uma adolescente de uma cidadezinha americana no estado de Nova York. Um caso trivial não fossem os rumores que cercam a menina: ela seria uma mutante.

jessica_jones_vol_2_capa_plano_criticoOs leitores que acompanharam minha crítica dos números #1 a #10 da publicação ou que já leram a história, saberão que Alias tem narrativa muito adulta e realmente desaconselhada para menores. Brian Michael Bendis, literalmente com esse título, inaugural o selo Max Comics justamente para esse tipo de obra “independente” dentro de uma editora mainstream. E, mais interessante ainda, Jessica Jones vive ostensivamente dentro desse universo maior povoado por personagens “maiores que a vida” como Homem-Aranha, Capitão América e Capitã Marvel. Ou seja, muito longe de trabalhar um universo apartado, Bendis, com sua obra, nos permite um olhar mais maduro para pequenos eventos que fogem e muito do escopo das publicações comuns da Marvel, em uma fusão perfeita que só alimenta o charme irresistível de sua personagem beberrona, sem papas na língua e que usa o sexo violento como válvula de escape para sua vida aparentemente sem rumo.

Com isso, uma história aparentemente banal (em termos de originalidade, pois sumiço de pessoas, especialmente criança nunca é desimportante) ganha contornos noir que transpõem o dia-a-dia do mundo real aos quadrinhos. Afinal, o arco lida fundamentalmente com o preconceito, seja que de natureza for, aqui representado pelo eterno paradigma do preconceito nos quadrinhos: o ódio em relação aos mutantes. Mas o leitor não deve esperar aquela história que apenas perfunctoriamente aborda a questão muitas vezes mais como uma desculpa para apresentar novos e excitantes heróis. Em Alias, o mundo em geral tem heróis, mas não o de Jessica Jones. Jessica Jones vive na realidade longe – mas perto – desse mundo glamouroso e colorido dos super-heróis e seus problemas intergaláticos e o que vemos é uma mulher problemática tentando, como pode, fazer o bem, ainda que, no processo, ainda que inadvertidamente, tenha que tomar decisões que não necessariamente seriam universalmente aceitas.

O sumiço de Rebecca é a oportunidade que Brian Michael Bendis tem de mergulhar na chamada small town USA, mesmo que literalmente dentro do estado mais cosmopolita daquele país. Algumas horas de viagem e os conceitos de igualdade racial, sexual voam pela janela e entram o preconceito pesado, ainda que velado, ainda que repleto de hipocrisia. Na verdade, o próprio uso de uma cidade menor já funciona como uma crítica, já que há, ali, um estereótipo que Bendis não deixa escapar: a percepção de que moradores do interior são meros “caipiras” cujo conceito de vida em sociedade é algo bem limitado. Bendis poderia ter contado a mesmíssima história em Manhattan, mas ao deslocar Jones para um ambiente em que ela está quase que literalmente sozinha, tudo torna-se mais saliente, mais forte e brutal. E não falo aqui somente sobre o preconceito, mas sobre os hábitos e costumes que alguns poderiam interpretar como “impróprios”. Afinal, a heroína está longe de ser o ideal da perfeição humana, aspecto que é talvez o pilar dessa criação de Bendis. A atitude desleixada de Jessica Jones e a forma como ela é a “fêmea alfa” assusta os habitantes locais, em especial o simpático xerife que, em impagável cena, não sabe como reagir ao “tipo de sexo” que Jones quer praticar. E isso em uma publicação de uma editora mainstream!

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Gaydos e sua marca registrada: a repetição de quadros para efeitos quase viciantes.

 E a investigação do desaparecimento da menina permite que a protagonista passeie e conheça os mais “diferentemente iguais” personagens, como a mãe, tia e pai da menina, o preconceituoso-como-Marco-Feliciano padre local, o já mencionado xerife e o repórter da cidadezinha, o único que é lúcido o suficiente para perceber que seus concidadãos são a pior estirpe de gente retrógrada que pode existir. Assim, a menina em si, é apenas um MacGuffin que Bendis usa para nos fazer viajar por uma realidade não só americana, mas mundial, em maior ou menor grau, mais uma vez usando sua forte personagem como um conduíte de denúncias.

O texto altamente realista de Bendis é novamente o destaque nesse arco, pois cada diálogo, cada interação soa genuíno, como se fosse a transcrição de conversas entreouvidas aqui e ali. Não há nenhuma tentativa de se concluir o assunto para o leitor e não há uma solução fácil e simplista. Sim, muitos poderão dizer que o final é previsível, mas previsibilidade não é e nunca deveria ser padrão para se atestar a qualidade de alguma coisa. O que interessa é a jornada e a jornada, mais uma vez, é absolutamente cativante e urgente.

No último número – o arco fica restrito aos números 11 a 14 – Bendis faz uma espécie de continuação do one-shot anterior (#5) em que Jones e Carol Danvers (a Capitã Marvel) travam uma conversa em um restaurante e Danvers insiste que Scott Lang, o segundo Homem-Formiga (o que foi usado no filme) seria um bom par para Jones. Ele ligara para Jones durante sua investigação na cidadezinha e esse novo one-shot, novamente em um restaurante, lida com o primeiro encontro entre os dois. Há, também, logo antes, um divertido e bem expícito tête-à-tête entre Jones e seu caso de uma noite Luke Cage, ambos servindo como guarda-costas de Matt Murdock, cuja identidade super-heroística fora revelada na publicação do herói. Vejam, em ambos os casos não há nem um semblante de ação, só diálogos, mas a humanidade das conversas travadas é impressionante, como se observássemos um roteiro de Woody Allen.

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A repetição de quadros elevada à sexta potência: Gaydos despudoradamente repete essa página, com mínimas variações, por seis vezes seguidas! Que artista em publicação mainstream teria essa coragem hoje em dia?

 A arte de Michael Gaydos mantém os “pés no chão” como nos primeiros dez números, sem embelezar nada. Jessica Jones parece ter belos traços, mas ele não os valoriza, não tenta sexualizar a personagem. Nem de longe eu diria, pois ela está sempre coberta com roupas nada reveladoras e  seu rosto aparece muitas vezes entre sombras, em postura mais curvada do que tentando parecer uma modelo que acabou de subir em uma passarela. E, novamente, seu comando dos quadros é de se tirar o chapéu. Não é sempre que vemos um artista gastar seis páginas seguidas de uma única edição com os personagens em uma única posição, a partir de um único ângulo, travando uma conversa relevante.

Além disso, ainda no quesito arte, e em um jogada brilhante, Bendis internaliza, na história do desaparecimento de Rebecca, as icônicas capas de David Mack, que, desde o primeiro número, usa colagens para formar imagens avassaladoras. Jones acha, no quarto de Rebecca, álbuns com colagens artísticas que ela leva para estudar eventuais mensagens escondidas e aprendemos que ela própria se valia de colagens quando mais jovem, o que empresta outro significado às artes do capista.

Mais uma vez, a dupla Bendis-Gaydos acerta em cheio no retrato do mundo super-heroístico sob um enfoque minimalista e realista, trazendo para a mesa de discussão assuntos importantes sem qualquer tipo de verniz. Alias é um achado e uma obra para se ter na cabeceira.

Jessica Jones: Alias #11 a #15 (EUA – 2002)
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Michael Gaydos, Mark Bagley
Arte-final: Michael Gaydos, David Mack
Cores: Matt Hollingsworth, David Mack
Letras: Jason Levine, Richard Starkings, Wes Abbott
Capas: David Mack
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: setembro a dezembro de 2002
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: julho a novembro de 2004 (nas edições #11 a #15 do mix Marvel Max)
Páginas: 117

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.