Crítica | Jessica Jones: Alias – #16 a #21

estrelas 4

Obs: Leia a crítica dos demais arcos de Jessica Jones: Alias, aqui.

Tenho sentimentos conflitantes sobre The Underneath ou, como traduzido no Brasil, Intimidade, arco em seis partes contido em Alias #16 a 21. Jessica Jones, certamente uma das mais sensacionais criações dos quadrinhos mainstream nos últimos 15 anos, é uma personagem essencialmente humana, extremamente próxima do dia-a-dia de pessoas comuns, apesar de possuir alguns super-poderes que são raramente utilizados ou mesmo sequer mencionados nas histórias de Brian Michael Bendis. Sua inserção “retconada” no Universo Marvel é uma das mais bem feitas dos quadrinhos, rivalizando com a transformação de Bucky Barnes em Soldado Invernal pelas habilíssimas mãos de Ed Brubaker.

Com isso em mente, meu mergulho (mais recente, claro, pois estou fazendo uma nova leitura em preparação para as críticas) nesse universo intimista de Jones passou a partir da premissa que a personagem vive em seu mundo essencialmente normal, com casos mundanos, típicos de filmes noir em que os monólogos internos e os diálogos afiados e realistas preponderam sobre qualquer outra consideração, mesmo havendo uma perfeita mescla do ambiente em que ela vive com o fato de existirem super-heróis ao seu redor. Com isso, mesmo a personagem, a essa altura, já tendo tido um caso com Luke Cage, ter sido defendida por Matt Murdock, ter jantado com Carol Danvers e assim por diante, o foco é mesmo na banalidade desses super-heróis e não em seus lados mais, digamos, barulhentos.

Em Intimidade, Bendis muda um pouco esse enfoque, o que acabou gerando os tais sentimentos conflitantes que mencionei logo no início. Logo no primeiro número, depois de uma completamente desglamourizada ação “super-heroística” de Jones impedindo um assalto a uma loja de conveniência – momento “marca registrada” de Bendis em Alias, aliás (ha, ha, viram o que fiz aqui?) – ela volta para seu apartamento somente para dar de cara com Mattie Franklin, mais conhecida como a terceira versão da Mulher-Aranha, completa, de uniforme, e aparentemente drogada, confundindo Jessica Jones com outra Jessica (a Drew, Mulher-Aranha original e que foi a primeira escolha de Bendis para protagonizar Alias, antes de ele decidir criar sua própria personagem). Assim com ela surge, a jovem desaparece e suas investigações a levam ao carrancudo J. Jonah Jameson, pai adotivo de Mattie, que não perde tempo em acusar Jessica (a Jones, não a Drew) de sequestrar sua filha.

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Bagley e seu comando absoluto dos quadros. Duas estruturas idênticas usadas em momentos completamente diferentes, o primeiro mostrando uma das razões de a série não ser recomendada para menores e o outro coroando o surreal diálogo entre Jones e Madame Teia.

Até aí, nenhum problema, mas os acontecimentos seguintes do arco levam Jessica a cada vez mais enfronhar-se com personagens pouco característicos de sua jornada até este momento. Para se ter uma ideia, ela chega a lidar com a mística Madame Teia e com o amalucado Speedball, além da própria Jessica Drew mais para o final (sou só eu, ou Michael Gaydos a desenhou com as feições de Jennifer Connelly?). Mas meus sentimentos conflitantes ganharam profundidade de verdade não com o mero fato de super-heróis “de verdade” terem se envolvido na narrativa de Jessica Jones, mas sim por que Bendis mantém incólume sua extrema capacidade em criar diálogos críveis e extremamente relevantes, além de claramente auto-críticos. Mas eu chego lá em breve.

Primeiro, gostaria de abordar os momentos em que vemos Jones sendo caracteristicamente Jones, mesmo travando diálogos com personagens super-heroísticos. É absolutamente irretocável, por exemplo, a forma como Bendis lida com o pessimismo da personagem, como ela busca o sexo com Scott Lang (o segundo Homem-Formiga)  como uma forma de fugir dos seus problemas e, quando Scott tenta enfrentá-los, ela o rechaça, fechando-se completamente. É também extremamente eficiente o monólogo interior de Jessica, aguardando Matt Murdock na escadaria de seu apartamento, em que ela discute a questão da revelação da identidade secreta do Demolidor e se Matt é ou não é, afinal de contas, o herói, somente para, depois, Bendis iniciar um diálogo entre os dois em que podemos ouvir a veracidade de cada palavra, que desce já nos convencendo de que aquilo é quase uma degravação de algo que Bendis entreouviu nas ruas de Nova York. Há roteiros de muitos filmes conceituados por aí que não lidam com diálogos tão realistas e interessantes.

Depois, quando Jessica Jones aprofunda-se em sua investigação sobre o paradeiro de Mattie, tendo que literalmente ir contra seus princípios ao vestir-se “como uma vagabunda” só para entrar em uma boate da moda (é a primeira vez que vemos maquiagem, pernas e decotes na personagem!), suas ações atabalhoadas e pouco preparadas revelam sua humanidade por cima de seus aparentemente irrelevantes poderes. Por um momento, esquecemos dos arredores e focamos no terrível “uso” de Mattie pelo malandro local e sua pequena gangue e Jones fica tão aterrorizada quanto nós, leitores.

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Dois dos melhores momentos do arco. A impagável “transformação” de Jessica Jones (sim, essa aí de barriga de fora é mesmo Jones!) e a magnífica entrada de Jessica Drew (ou seria Jennifer Connelly?) na história.

Esses momentos são Alias em toda sua plenitude. Mas, quando Bendis escolhe trazer para sua narrativa outros super-seres, a coisa muda um pouco de figura e seu trabalho ganha outros contornos. Contornos esses que, confesso, são incríveis de sua própria maneira. De longe, o mais interessante momento “não-Alias” é o diálogo entre Jessica Jones e Madame Teia, em seu apartamento em um arranha-céu novayorkino. A surrealidade da conversa é o que a retira da lugar comum. Madame Teia vê o passado e pode prever os futuros mais prováveis e Jones só quer saber se a senhora sabe de Mattie, mais nada. É como uma versão mais pé-no-chão da conversa messiânica entre Oráculo e Neo em Matrix, mas com uma boa dose de palavrões no meio, ou seja, é um momento cômico impagável que só poderia vir mesmo da mente de Bendis.

Menos inspirados são as outras conversas, uma entre as duas Jessicas depois do desentendimento inicial padrão (vale nota o fantástico traço de Gaydos para trabalhar a entrada triunfal de Jessica Drew na história) e a outra no meio da ação final com Speedball. A primeira é mal-aproveitada e mal-desenvolvida dentro do contexto da história e a segunda é completamente desnecessária e descolada, como aliás é toda a presença de Speedball nesse arco. É como o proverbial “bode na sala” que, quando ele é retirado, tudo fica maravilhoso. Mas o cheiro do que o bode fez continuou contaminando a história para mim, até que, novamente voltando ao “normal”, Bendis nos brinda com um belíssimo dénouement que espelha o começo do arco, com Jessica e Scott novamente conversando.

Como todo o trabalho até agora, Michael Gaydos na arte garante o tom realista e pesado de toda a narrativa, ainda que nem ele consiga fazer com que Speedball tenha qualquer semblante de seriedade. Seu universo noir é fascinante e a forma como ele trabalha a escuridão para sempre esconder as feições e anatomia de Jones é exemplar e é justamente isso que causa o choque quando ele decide – ou Bendis decide, na verdade – mostrá-la de maneira sensual na sequência da boate ou quando Mark Bagley entra nos traços para criar uma sequência de delírio em que Jessica se vê diante dos Defensores com seu uniforme de Safira (sua primeira persona super-heroística – a segunda foi Paladina).

Intimidade é ainda altamente recomendável, mas é um arco diferente do que o leitor de Alias talvez espere. Mas vamos combinar que mudanças podem não ser sempre bem aceitas, mas que são quase que obrigações de todo o artista que não se contenta com apenas “mais do mesmo”.

Jessica Jones: Alias #16 a #21 (EUA – 2003)
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Michael Gaydos
Arte-final: Michael Gaydos, Mark Bagley, Al Vey
Cores: Matt Hollingsworth, Dean White
Letras: Jason Levine, Cory Petit
Capas: David Mack
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: janeiro a junho de 2003
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: dezembro de 2004 a abril de 2005 (nas edições #16 a #20 do mix Marvel Max)
Páginas: 138

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.