Crítica | Jessica Jones: Alias – #22 a #28

estrelas 5,0

Obs: Leia a crítica dos demais arcos de Jessica Jones: Alias, aqui.

É ao mesmo tempo um enorme alegria e uma enorme tristeza ler – e escrever – sobre os últimos dois arcos de Jessica Jones: Alias, criação com sabor independente de Brian Michael Bendis e Michael Gaydos em plena Marvel Comics. A alegria vem de 28 edições próximas da perfeição, tão próximas que fiquei agora até com remorso de ter dado “apenas” quatro estrelas para Intimidade, o arco anterior. A tristeza, claro, é simplesmente pela revista ter acabado, sendo substituída por The Pulse, com uma pegada bem menos indie e que durou metade do tempo de Alias.

Os últimos sete números da publicação lidam com dois arcos, ambos ligados pelo fato de tratarem do passado de Jessica Jones.

No primeiro deles – A Origem Secreta de Jessica Jones – vemos o que o título promete, mas não da maneira usual. A grande verdade é que, ao ler o título do arco, fiquei com receio que, com a revelação, Bendis estragaria o “mistério” por trás de Jones, como ela conseguiu os poderes e o que a transformou no que ela é. Imaginei que ao conhecer o passado, minha percepção do presente mudaria e logo de cara torci o nariz. Mas foi um receio infundado. Completamente infundado.

O mini-arco de apenas dois números é, para resumir, sensacional. A origem dos poderes de Jessica Jones em si? Ora, absolutamente padrão, nenhuma novidade ali. O que é magistral é a forma como Bendis costura a narrativa com a origem do Homem-Aranha (Jessica era secretamente apaixonada por Peter Parker na época da escola) e, suspeito, com a do Demolidor, quando ela é salva por um transeunte de ser atropelada por um caminhão contendo elementos químicos. Além disso, o autor não doura a pílula e estraçalha a vida pacata de Jones (ou Campbell) tornando-a efetiva e diretamente envolvida no acidente que a transformou para sempre. É um exemplo de narrativa simples e direta que funciona em todos os níveis, por desglamourizar o conceito de “origem de super-heróis” e por “retconar” Jessica Jones até os primórdios do Universo Marvel.

E a cereja do bolo é a arte de Michael Gaydos que abandona seu estilo autoral e passa a adotar – com os devidos créditos, claro! – os traços de Steve Ditko, co-criador do Homem-Aranha. Chega a ser assustadora a fidelidade. Com isso, Gaydos empresta um ar retrô ao arco, algo que é seguido pelas cores mais primárias e, portanto, excepcionalmente mais alegres utilizadas por Matt Hollingworth. Na medida, porém, que a história se desenvolve, aos poucos a dupla vem trazendo o lado sombrio de Jessica Jones novamente para os traços, mas sem alcançar o estágio depressivo e nihilista da fantástica arte padrão de Alias.

O arco seguinte, já no presente, é dividido em cinco partes e tem o nome original Purple que, no Brasil, ganhou a tradução Névoa Púrpura. Nele, Jessica Jones tem que enfrentar o fantasma de seu passado, o vilão Zebediah Killgrave, conhecido como Homem-Púrpura, capaz de fazer qualquer pessoa fazer o que ele comandar. Originalmente criado com vilão do Demolidor, ele é perfeitamente inserido na história pregressa da heroína, sendo usado como uma absurdamente dolorosa justificativa para ela ter abandonado a persona de Safira e se tornado uma detetive particular depressiva. Falar mais é estragar o prazer da leitura para quem porventura ainda não o tenha feito (eu o invejo!), mas confie em mim quando digo que Brian Michael Bendis é cruel com o passado de Jessica Jones.

No entanto, no lugar de um grande confronto, algo que seria completamente fora do espírito dessa série, o autor apresenta o conflito indiretamente, com Jessica Jones, por intermédio de Carol Danvers, assumindo, muito a contra-gosto, o caso de diversa famílias que querem ouvir de Killgrave que ele foi efetivamente o responsável pela morte de seus entes queridos. O vilão está preso na super-prisão da S.H.I.E.L.D. e o confronto verbal entre Jones e ele é um primor de meta-linguagem, com Killgrave quebrando a quarta parede e tratando Jones como uma personagem de quadrinhos. Tudo a partir dali – já na quarta parte da história – é justificado por esse trabalho de manipulação da narrativa, fazendo com que o leitor entre e saia da história constantemente, com diversos artifícios interessantes, inclusive dois deus ex machina que, em circunstâncias normais, seriam execráveis, mas que, aqui, funcionam cirurgicamente nessa meta-história.

E a conclusão do conflito carrega o estilo que vinha sendo determinado por Bendis desde o primeiro número de Alias: a simplicidade, quase banalidade. Mas os leitores da publicação certamente não aguardavam pirotecnia e o fechamento é uma joia que deve ser guardada com carinho. No epílogo, Bendis aproveita e abre caminho para uma nova fase na vida de Jones, uma espécie de luz no fim do túnel na conturbada vida da jovem. Não costumo gostar de reviravoltas felizes, mas essa faz sentido ao ser contrastada com os horrores que lemos ao longo dos 28 números dessa que é, sem dúvida alguma, uma das melhores séries mainstream de super-heróis dos últimos anos.

No quesito arte, novamente Michael Gaydos deixa sua marca registrada ao retratar Jones e todos ao redor de maneira crua, visceral, sem embelezamentos. Mas, assim como foi feito mais discretamente em números anteriores, Mark Bagley também ajuda ao retratar a vida heroica passada com seus traços “padrão” de quadrinhos do gênero, com ações exageradas, roupas coladas no corpo e curvas nos corpos de super-heróis e super-heroínas, que, na verdade, funciona para aprofundar o choque de realidade que é o traço de Gaydos.

Névoa Púrpura é o clímax do trabalho de Bendis e Gaydos com Jessica Jones e, de certa forma, é sempre melhor uma série acabar quando está em seu ápice.

Jessica Jones: Alias #22 a #28 (EUA – 2003/4)
Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Michael Gaydos, Mark Bagley
Arte-final: Michael Gaydos, Mark Bagley
Cores: Matt Hollingsworth, Dean White
Letras: Cory Petit
Capas: David Mack
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: julho de 2003 a janeiro de 2004
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: maio e junho de 2005 (nas edições #21 e #22 do mix Marvel Max) e julho de 2005 (Marvel Max Especial #1)
Páginas: 161

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.