Crítica | Jessica Jones: Os Segredos de Maria Hill

  • Leia, aqui, todo nosso material – quadrinhos e série – sobre Jessica Jones. Há spoilers do arco anterior.

Pouco antes da publicação da presente crítica, Brian Michael Bendis anunciou que estaria se despedindo da Marvel Comics, depois de começar por lá no ano 2000 com o fantasticamente bem-sucedido Ultimate Homem-Aranha que iniciou todo um novo universo na Casa de Ideias. Sua prolífica carreira inaugurou uma era de sagas encadeadas umas nas outras que, para o mal ou para o bem, moldaram a editora nas quase duas décadas que ficou por lá. Mas seu trabalho autoral foi também de nota, começando com sua parceria com Alex Maleev no título do Demolidor de 2001 a 2006 e em Cavaleiro da Lua de 2011 a 2012, além da obra que considero o ponto mais alto de sua carreira: Alias.

Alias não só inaugurou o selo Marvel Max, que permitia uma pegada mais adulta e pesada, como apresentou para o mundo dos quadrinhos uma de suas mais fascinantes heroínas: Jessica Jones. Claro que, hoje, ela é muito mais conhecida em razão da série da Marvel/Netflix, mas a pegada realista e pessimista de Bendis marcou época, juntamente com a magnífica arte de Michael Gaydos, as marcantes cores de Matt Hollingworth e as memoráveis capas de David Mack. Em preparação à primeira temporada, o time voltou em 2015 – menos o colorista – para uma edição especial dentro da continuidade do Universo Cinematográfico Marvel, e, em 2016, com o sucesso obtido pela empreitada no canal de streaming, toda a equipe reuniu-se mais uma vez para uma nova série solo de Jessica Jones, agora batizada com o nome dela, cujo primeiro arco – Uncaged! – analisei aqui.

Apesar de inserida completamente dentro de um complexo universo Marvel de super-heróis, algo bem diferente de quando a personagem debutou em 2001, Bendis conseguiu criar uma interessantíssima trama que partia da premissa que, deixando Luke Cage e sua filha Dani de lado, a heroína mergulhou profundamente em uma missão secreta para sua amiga Carol Danvers, a Capitã Marvel que exigiu que ela começasse presa, algo usado para permitir que ela se infiltrasse em uma organização inimiga. Ao final da história, essa questão se resolve, mas os danos para o lado pessoal de seu relacionamento com Cage ficam e é esse o trampolim para o segundo arco, Os Segredos de Maria Hill.

Tendo que lutar para não só achar Luke Cage, que levara a filha deles embora, Jessica Jones recebe a visita de ninguém menos do que Maria Hill, a ex-diretora da S.H.I.E.L.D. que caiu em desgraça depois do fiasco em Pleasantville. Tendo esgotado suas fontes, Hill, ferida, contrata Jones para descobrir quem está tentando assassiná-la. Como se pode notar, trata-se de uma premissa profundamente dentro do universo comum de super-heróis da Marvel, o que, em mãos menos hábeis, descaracterizaria completamente a personagem-título. Mas Bendis, quando se dedica a algo – e Jessica Jones é sua cria do coração – escreve de maneira muito inspirada, algo que é muito presente aqui.

Primeiro, ele aborda as questões maiores ao redor de Jessica Jones de maneira clara o suficiente para permitir que qualquer leitor – mesmo aqueles que não saibam quem é Maria Hill ou o que foi Pleasantville – mergulhe na narrativa sem encontrar obstáculos intransponíveis. Claro que ter lido o arco imediatamente anterior é importante para dar contexto ao que o roteirista faz aqui, já que a vida pessoal da heroína é elemento fundamental. Mas, além disso, ele escreve com uma incrível naturalidade e realismo ao ponto de efetivamente conseguirmos acreditar que aquele mundo em que Jessica Jones vive é um mundo real e possível. Sua maestria em costurar elementos “fora desse mundo” de super-heróis como Capitão América, Demolidor, Punho de Ferro e outros é tão boa que chega a ser invisível e, por isso, completamente não-intrusiva. Com isso, o foco fica todo na história macro – o relacionamento de Jones com Cage – e na micro – o caso de Maria Hill – com elementos que se entrelaçam harmonicamente e que chegam a uma resolução lógica e perfeitamente dentro da estrutura construída tanto aqui, na nova revista, quanto em Alias.

No quesito arte, não há muito mais o que dizer que eu já não tenha afirmado diversas vezes ao longo dos arcos originais da publicação solo da personagem. Gaydos empresta uma qualidade terrena necessária ao texto de Bendis, ao mesmo tempo que, com enorme habilidade, maneja a progressão narrativa como ninguém, lidando com as necessidades de alguns textos mais longos do roteirista de forma elegante e funcional, maximizando a fluidez e evitando que sua arte seja prejudicada no eterno conflito com os balões de fala e pensamento que marcam a Nona Arte.

Como se isso não bastasse, Gaydos ainda consegue fazer belas auto-homenagens, como a “reedição” de sua icônica página inteira em Alias em que vemos Jessica Jones no vaso sanitário ou a profusão de quadros pequenos para lidar com diálogos curtos e entrecortados entre dois personagens. Para quem já leu as edições originais, tratam-se de belas piscadelas que marcam a provável última vez (há mais um arco apenas ainda não encerrado na data de publicação do presente artigo) em que o time completo escreverá o título, já que Bendis está saindo para a DC Comics em contrato exclusivo.

Os Segredos de Maria Hill é um excelente arco de uma das melhores heroínas da Marvel Comics. Uma volta completa à forma original de uma equipa de quadrinhos imbatível.

Jessica Jones: Os Segredos de Maria Hill (Jessica Jones: The Secrets of Maria Hill, EUA – 2017)
Contendo: Jessica Jones (2016 – ) #7 a #12

Roteiro: Brian Michael Bendis
Arte: Michael Gaydos
Cores: Matt Hollingsworth
Letras: Cory Petit
Capas: David Mack
Editora original: Marvel Comics
Data original de publicação: junho a novembro de 2017
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: ainda não publicado no Brasil (nada data de publicação da presente crítica)
Páginas: 128

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.