Crítica | Jim & Andy: The Great Beyond

Em determinado momento de Jim & Andy, o espectador começa a levantar dúvidas sobre o que exatamente aconteceu nos míticos bastidores de O Mundo de Andy. Jim Carrey realmente entrou em seu personagem a ponto de não sair mais dele nem mesmo durante os intervalos de gravação ou tudo é uma bem engendrada construção que quer nos fazer crer nisso? Afinal, conhecendo Andy Kaufman e o quanto ele inspirou a carreira do ator, uma pegadinha dessas não estaria fora de cogitação. Aliás, muito ao contrário, ela é até bastante crível.

A história do documentário começou durante a produção do filme dirigido por Milos Forman. Carrey combinou com Lynne Margulies e Bob Zmuda, respectivamente a namorada e melhor amigo de Kaufman que os dois seriam responsáveis pela produção de filmagens de bastidores, a serem utilizadas posteriormente em um making of ou material semelhante. No entanto, como Carrey começou a agir como Kaufman (ou Tony Clifton, claro) 24 horas por dia, irritando – e assustando – praticamente todo mundo no set, a Universal determinou que toda essa filmagem não poderia ver a luz do dia para que, segundo Carrey, “as pessoas não achassem que ele é um babaca”, reduzindo as chances de sucesso da obra no cinema. E assim foi feito: as fitas ficaram guardadas com Carey até que, bem recentemente, a produção do documentário, dirigido por Chris Smith, começou a todo o vapor.

No entanto, Jim & Andy é mais do que um estudo sobre a transformação de Carrey em Kaufman. No lugar de exclusivamente usar as filmagens de Margulies e Zmuda, há também material original em que vemos o próprio Andy Kaufman em suas performances bizarras, além de muita coisa do começo de carreira do próprio Carrey, antes ainda do ator despontar em Ace Ventura – Um Detetive Diferente e O Máskara em 1994 e alguma cenas especialmente do excelente O Show de Truman, do ano anterior a O Mundo de Andy, que ganha outra dimensão ao ser colocado em contexto. E isso tudo sendo intercalado por uma entrevista com Jim Carrey, barbado e com um casaco de couro, lembrando de suas experiências como Kaufman.

Dessa forma, Smith vai contando uma fascinante semi-fábula em que compreendemos o grau de paralelismo entre as carreiras de Kaufman e Carrey, com o segundo tendo no primeiro sua fonte principal de inspiração e, talvez mais do que isso, uma devoção especial, quase transcendental, a Kaufman. Conhecemos, sem dúvida, o Carrey careteiro, capaz de fisicamente transformar-se em celebridades, algo que ele usou com grande em sua época de comediante de stand-up. Mas o Carrey “kaufmaniano”, transgressor, irritante, com performances inesperadas e completamente fora da curva é, de certa forma, uma interessante novidade que ecoa diretamente seu “muso” inspirador. É como ver duas carreiras evoluindo ao mesmo tempo, com uma convergência realmente bizarra nos bastidores de O Mundo de Kaufman, em sequências que desafiam a credulidade de qualquer um que as assistam.

Afinal, não é sempre que podemos ver um diretor do porte de Milos Forman praticamente implorar para que Carrey “se comporte” e faça a cena da forma que ele quer ou tendo que falar com Andy ou Tony Clifton para que um dos dois “passe o recado” para Carrey. Ou mesmo as reações realmente confusas de Danny DeVito e Paul Giamatti a essa transformação de Carrey em Kaufman e sua recusa em sair do personagem. Sinceramente, chega a ser desrespeitoso com todos ao redor, chegando ao cúmulo de Carrey/Kaufman mais uma vez arrumar briga séria com o ex-lutador de luta livre Jerry Lawler, que chega às vias de fato, literalmente levando Carrey ao hospital. Ao mesmo tempo, porém, esses momentos são preciosos de tão surreais, de tão verdadeiros, de tão assustadores.

Em determinado ponto, fora do âmbito da produção, chegamos a ver Tony Clifton (Zmuda maquiado e paramentado como em sua época fazendo dupla com Kaufman) penetrando em uma mega-festa na Mansão Playboy, com direito à presença desconcertante de um Hugh Hefner que, de repente, se vê diante do próprio Jim Carrey/Andy Kaufman ao lado de Clifton em uma reedição das pegadinhas clássicas que a dupla fazia nos anos 70 e 80. E é por essas e outras várias que aquela sensação de que estamos vendo, na verdade, um mockumentary na veia do espetacular Isto É Spinal Tap, permeia toda a projeção.

É perfeitamente possível duvidar de Carrey 100% do tempo. Afinal, vamos às pistas: ele é o único ator entrevistado nos dias atuais. Todos os demais só aparecem em filmagens de arquivo. Ou seja, temos a versão unilateral de Carrey que afirma que “Kaufman tomou o controle”. As filmagens foram, como dito, fruto do trabalho de Margulies e Zmuda e especialmente o segundo era o braço direito de Kaufman justamente em criar situações bizarras, verdadeiras fraudes de longo prazo, como foi a de Kaufman com Lawler. Portanto, essa reencarnação de Kaufman em Carrey durante a produção de O Mundo de Andy pode ter acontecido somente diante dessas câmeras, unicamente naqueles momentos.

E reparem que não estou dizendo que foi isso que aconteceu, apenas que essa é uma possibilidade, algo que está em perfeita consonância com a carreira de Andy Kaufman e também com a de Jim Carrey. Além disso, de forma alguma essa possível conclusão tira o brilho do documentário. Aliás, diria que o efeito é justamente o contrário: Jim & Andy consegue ser ainda mais sensacional justamente por essa dúvida.

Se existe um pequeno problema na obra, este se limita à constância com que Smith volta ao Carrey no presente, com comentários que começam interessantes, mas que, depois, acabam soando repetitivos e um pouco propagandísticos do ator. Claro, não esperava de forma alguma – e nem este deveria ser o objetivo – algo balanceado e distante, mas em alguns momentos Carrey se deixa levar por balbucios que mais parecem ter sido ditos sob efeito de drogas, ainda que sua emoção quando fala de Kaufman e especialmente de seu pai, pareça mais do genuína. É, portanto, um breve incômodo que não detraem da obra como um todo, ainda que me impeçam de dar a nota máxima.

Jim & Andy (o hilário título completo está aqui embaixo na ficha técnica) é um inusitado documentário sobre uma inusitada situação que é usada de trampolim para estudar as inusitadas carreiras de Kaufman e Carrey. Um presente para os fãs de Cinema em geral e dos dois comediantes em particular.

Jim & Andy: The Great Beyond – Featuring a Very Special, Contractually Obligated Mention of Tony Clifton (EUA/Canadá, 17 de novembro de 2017)
Direção: Chris Smith
Com: Jim Carrey e, em cenas de arquivo, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti, Gerry Becker, Leslie Lyles, George Shapiro, Richard Belzer, Melanie Vesey, Michael Kelly, Vincent Schiavelli, Peter Bonerz, Michael Villani, Bob Zmuda, Hugh Hefner, Andy Kaufman, Janice Kaufman, Stanley Kaufman, Milos Forman, Jerry Lawler, David Letterman
Duração: 94 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.