Crítica | Jim: The James Foley Story

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estrelas 5,0

A era da informação já mais que nos deixou acostumados a recebermos notícias praticamente de forma imediata, a tal ponto que não chegamos a pensar nas pessoas cujos trabalhos possibilitaram nosso acesso a tais informações. A escalada de conflitos ao redor do mundo chegam a nós como algo praticamente imaterial, sabemos de bombardeios na Síria, Irã, Iraque e agimos com naturalidade, como se essas reportagens viessem automaticamente ao nosso encontro. Jim: The James Foley Story, documentário de Brian Oakes, produzido pela HBO e vencedor do Emmy 2016, vem, portanto, como um choque de realidade, colocando um rosto por trás da notícia e, acima de tudo, mostrando as dificuldades e horrores que muitos precisam passar para que tenhamos ao menos parcial consciência das tragédias que ocorrem do outro lado do mundo.

A obra acompanha, através de imagens de arquivo e relatos de familiares e amigos, a história de James Foley, um jornalista que atuava em zonas de guerra, se destacando primeiro por seu trabalho na Líbia, expondo os horrores dos conflitos locais. Assistimos relatos sobre a personalidade de Jim, suas aspirações e como ele inspirava e ajudava aqueles a seu redor até se tornar o primeiro cidadão americano a ser executado pela ISIS, que enviou uma mensagem gravada através de sua vítima.

Há um ponto levantado pelo documentário que certamente merece nossa atenção, em um momento um dos entrevistados fala sobre as pessoas que agem com naturalidade em relação à morte de James “mas ele sabia no que estava entrando” – certamente sabia, mas se um bombeiro morrer durante um incêndio? Esse é o trabalho do jornalista correspondente de guerra, é através dessas pessoas que podemos saber o que ocorre em tais lugares, não somente por curiosidade, mas para que algo seja feito a respeito ao redor do mundo. Jim: The James Foley Story faz o ótimo trabalho de expor o que há por trás da câmera, mostrar pelo que cada um deles passa e as loucuras que estão dispostos a fazer não só para serem pagos, mas para noticiarem a verdade.

Ao mesmo tempo, a obra funciona como uma perfeita homenagem a Jim, um homem que, mesmo nas piores situações, não deixava de ver o lado positivo das coisas, conseguindo encontrar um resquício de esperança mesmo na mais completa escuridão. Aprendemos, ao longo desses cento e onze minutos sobre essa pessoa, que foi responsável pela sobrevivência de inúmeros outros prisioneiros do Estado Islâmico. A canção The Empty Chair, de J. Ralph e Sting, indicada ao Oscar 2017, atinge esse ponto em cheio, com um tom de melancolia, como um réquiem para o jornalista.

O roteiro de Chris Chuang, Heather MacDonald e Brian Oakes segue uma estrutura linear, ocasionalmente retornando à infância ou juventude de James a fim de amenizar o angustiante tom que recai sobre a narrativa. Já iniciamos a projeção sabendo da morte do jornalista e, em seguida, acompanhamos toda sua trajetória. Os relatos são muito bem intercalados com as imagens de arquivo, transmitindo uma nítida fluidez à obra, que é bastante fácil de se assistir, ainda que contenha trechos com imagens pesadas. Por vezes sentimos como se a homenagem extrapolasse um pouco, mas, tendo em vista do conteúdo abordado, conseguimos relevar tal questão completamente – não é fácil encontrar alguém que tenha feito o que Jim fez e ele certamente merece qualquer homenagem recebida.

Brian Oakes definitivamente se destaca como documentarista, sabendo controlar a tensão no espectador. Do momento que Jim é capturado pelo ISIS, tudo se torna mais claustrofóbico, a iluminação é reduzida e mesmo os entrevistados são colocados em quartos mais escuros. As reproduções do cativeiro são verdadeiramente assustadoras e, ao mesmo tempo, respeitosas com todas as vítimas daqueles horrores. O trabalho de montagem de Aleks Gezentsvey é o que mais nos chama a atenção pela forma como reconhece a dor de todos os indivíduos envolvidos, ao ponto de sacrificar um pouco do dinamismo da obra a fim de valorizar a dor de cada pessoa entrevistada.

Jim: The James Foley Story é uma bela homenagem a um homem que foi capaz, através de sua personalidade, de salvar vidas e, com o seu trabalho, de trazer a verdade ao povo. Mais que isso, esse é um olhar sobre a vida das centenas de jornalistas que se dispõem a enfrentar verdadeiros horrores para que as notícias cheguem até nós, para que exista, ao menos, alguma esperança para as populações que sofrem diariamente com guerras civis e bombardeios. Trata-se de um documentário obrigatório, que certamente mereceu ter ganhado o Emmy em 2016.

Jim: The James Foley Story — EUA, 2016
Direção:
 Brian Oakes
Roteiro: Chris Chuang, Heather MacDonald, Brian Oakes
Com: James Foley, Unai Aranzadi, Zac Baillie, Manu Brabo, Ben Chase, Merritt Matthew Chase ,Charles DePiero
Duração: 111 min.

GUILHERME CORAL. . . .Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.