Crítica | “Joanne” – Lady Gaga

estrelas 3

“I’m not flawless, but I gotta diamond heart.”

Se observar cada capa de disco de Lady Gaga até seu recém lançado quinto álbum, Joanne, (batizado com o nome de sua tia artista que faleceu cedo) a foto da cantora calmamente posando com um chapéu rosa contrasta com as demais bizarrices e caretas estampadas nos outros trabalhos. E muito dessa fotografia é explicada na audição do trabalho, não só por alguma influência country que há no disco, mas por uma obra que é consciente de si mesma, procurando bem menos exageros ou saídas fáceis de canções pop.

O primeiro single, Perfect Illusion, se por um lado pode soar genérico nas primeiras audições (principalmente pela letra simplória e o forte apelo ao repetido refrão), pode ser, sim, considerada uma ótima canção pop. O estilo de produção de Kevin Parker (Tame Impala), junto do badalado Mark Ronson, é muito efetivo nas batidas e na riqueza de efeitos incorporados, assim como os bons arranjos de vozes que lembram a melhor fase de Madonna. Por outro lado, a segunda faixa feita pra vender o álbum, Million Reasons, é fraquíssima, incorporando o que há de mais clichê e estereotipado no country, sendo efetiva apenas em seus versos chicletes que grudam na mente do ouvinte com uma velocidade assustadora.

Há um contraste muito nítido observado em Joanne. Enquanto The FameBorn This Way e principalmente o péssimo Artpop falhavam em sua produção um tanto over, regados a instrumentais exagerados demais, sempre com volumes no talo e pouca dinamicidade, o novo disco aposta em uma mescla bem mais certeira de orgânico e sintético. É fortemente calcado em cordas, seja ela nas guitarras vibrantes do pop A-YO, ou no ar introspectivo do belo folk/country da faixa homônima. Arranjos orgânicos como o abre-alas de Diamond Heart mostram a duvidosa orientação rockeira disfarçada em Born This Way. A clareza das guitarras e potência da bateria na faixa de abertura ilustram aquilo que pode finalmente ser chamado de performance rock n’ roll vindo de Gaga.

Seguindo a cartilha dos últimos lançamentos pop, Lady Gaga – assim como Rihanna, Beyoncé e até Adele – tenta demonstrar multiplicidade de influências, voltando grande parte do marketing para o country, gênero que tem sim amostras fortes no disco. Se trata de uma esperta atitude de marketing se você considerar que, investindo no country sem perder sua veia pop, ela extende seu público para um mercado americano consideravelmente grande (de onde acha que Taylor Swift explodiu?). Sobra até para sonoridades latinas na fraca Dancin’ In Circles, faixa que soa como resquício de trabalhos anteriores e destoa completamente de tudo em Joanne. Já seu famoso amor pelo Jazz surge na excelente Come To Mama, canção de arranjo riquíssimo, cheio de guitarras ferozes, belas linhas de baixo, metais incendiantes e os melhores vocais do álbum.

Ainda no caminho das “novas empreitadas”, a maior surpresa vem em Hey, Girl, investimento no cenário indie que presenteia o ouvinte com um dueto belíssimo entre Gaga e a convidada Florence Welch. A química entre as duas segue perfeita, o revezamento vocal fluido é muito bem acompanhado de um arranjo que pontua brilhantemente os sintetizadores em cima da bateria orgânica. O resultado é uma espécie de balada que evoca os maiores acertos do AOR na década de 80.

Joanne não vai agradar tanto os “little monsters” a procura apenas de um pop mais escrachado, mas é notoriamente o trabalho da cantora mais conciso, melhor produzido e inspirado.  Pois talento já é notório que a artista possui, mas o essencial é que ela seja orientada pelas pessoas certas, algo que finalmente ocorre aqui. Joanne é um mérito não apenas de Gaga, mas de toda a ótima equipe de produtores (Mark Ronson, Kevin Parker, Josh Homme, Jeff Bhasker, por aí vai).  Embora a cantora mostre pouquíssima evolução no que tange a letras (todas mantendo um padrão de mediano a fraco), temos aqui seu melhor e mais sólido álbum.

Aumenta!: Hey, Girl
Diminui!: Dancin’ In Circles

Joanne
Artista: Lady Gaga
País: Estados Unidos
Lançamento: 21 de outubro de 2016
Gravadora: Interscope
Estilo: Pop, Country

HANDERSON ORNELAS. . . Estudante de engenharia química, fascinado por música, cinema e quadrinhos. Um fã de ficção científica e aventura que carrega seu fone de ouvido por todo lado e se emociona facilmente com música, principalmente com "The Dark Side Of The Moon". Enquanto não viaja pelo tempo e espaço em uma TARDIS, viaja pelo mundo dos livros e da música.