Crítica | João das Fábulas: Vol. 1 – A Grande Fuga (Frustrada)

estrelas 4

Obs: Há spoilers dos volumes anteriores de Fábulas, a série principal, cujas críticas você pode ler aqui.

Já estabelecido como um dos mais importantes autores da Vertigo Comics graças a Fábulas, que já chegara ao número 50 sem esmorecer nas vendas, Bill Willingham partiu para o primeiro spin-off de verdade, focado em Jack Horner ou João das Lorotas, talvez o mais cretino personagem criado por ele. João foi um dos primeiros fábulas apresentados em Lendas no Exílio, como parceiro e cúmplice de Rosa Vermelha, irmão de Branca de Neve e participou com maior e menor proeminência de alguns volumes posteriores, até receber tratamento VIP novamente no volume 6, Terras Natais, no mini-arco João, Seja Ágil.

joao_das_fabulas_1_panini_capa_plano_criticoNesse arco, Willingham já preparava sua série derivada, contando uma história que colocava João como um magnata de Hollywood, produtor dos três filmes mais rentáveis da História do Cinema com o  único objetivo de fortalecer sua “lenda” diante dos mundanos e, com isso, tornar-se o mais poderoso fábula. Para o leitor que talvez não saiba, nesse universo fabulesco Willingham estabeleceu uma regra que dita que, quanto mais famoso for o personagem perante os humanos comuns (ou “mundanos”), mais poderoso – ou imortal, resistente, chame como quiser – ele é. É por essa razão que Branca de Neve não morre depois de levar um tiro na cabeça de Cachinhos Dourados em A Revolução dos Bichos ou por que a própria Cachinhos Dourados não morre depois de levar uma machadada na cabeça, ser atropelada por um caminhão, cair de um abismo e permanecer dentro d’água por semanas ou meses, talvez até anos (eventos que vimos em  O Livro do Amor, mas cuja sobrevivência só é revelada agora, em João das Fábulas: Vol. 1).

E, pegando justamente do ponto em que João, Seja Ágil parou, vemos João na estrada, pedindo carona, com apenas a roupa do corpo e uma maleta cheia de dinheiro, depois que o Fera o expulsou de seu estúdio e se apossou, em nome da Cidade das Fábulas, de todos os seus bens, além de tê-lo expulsado para sempre da comunidade. E, não demora, e a ação começa, com João sendo sequestrado por seres estranhos e uma jovem de óculos chamada Priscilla Página em uma van preta. No processo, João perde todo o seu dinheiro, mas não a valise. O que querem os sequestradores? A explicação é que torna essa história inaugural do spin-off particularmente interessante e há uma relação direta com essa correlação entre fama e poder que expliquei acima: João é levado para uma comunidade cercada chamada Golden Boughs em que fábulas capturados vivem em paz para que sejam esquecidos pelos mundanos e, com isso, percam sua “mágica”.

Essa comunidade, que é uma prisão na verdade, é comandada pelo misterioso Sr. Revisor e João imediatamente o desafia ao começar a montar um plano de fuga, algo nunca antes conseguido com sucesso. Ao reunir o tema “esquecimento” com ação do tipo Fugindo do Inferno ou Um Sonho de Liberdade, Willingham e Matthew Sturges (é a primeira vez que o autor original divide os créditos de uma história desse seu universo) montam uma divertida e cruel história que funciona muito bem tanto superficialmente como uma crítica forte a determinados aspectos da cultura de massa. O Sr. Revisor é uma espécie de “censor” universal que impõe sua visão de mundo ao sufocar as histórias de diversos fábulas ao ponto de fazer com que os humanos os esqueçam completamente.

Para ilustrar perfeitamente seu ponto, os roteiristas nos apresentam a um personagem negro chamado Sam que parece ser apenas o faxineiro do local. Ele é encarregado de apresentar João aos demais prisioneiros e a “enturmá-lo”. Mas esse Sam é da pouquíssimo conhecido livro de crianças The Story of Little Black Sambo, de 1899, escrito por Helen Bannerman, e que foi tachado como tendo conteúdo racista, praticamente retirando-o completamente das prateleiras americanas literalmente até hoje. Willingham, por intermédio do Sr. Revisor menciona o “exagero do politicamente correto” que, se pensarmos aqui no Brasil, já ameaçou clássicos como as obras de Monteiro Lobato. Portanto, por mais superficial que esse volume de João das Fábulas pode parecer, ele, na verdade, estabelece e revive discussões interessantes que não devem ser perdidas de vista.

Mas Sam não é o único personagem introduzido no universo das fábulas. Há vários outros, dentre eles Dorothy, Toto, Espantalho, Leão e Homem de Lata, de O Mágico de Oz, além de Humpty Dumpty, Fada do Dente, Paul Bunyon e a Vaca Azul, além do misterioso Joca Travesso (Wicked John), que parece ser a versão do “lado negro” de João das Fábulas e outros mais obscuros. Descobrimos, também, que a fogosa e “revolucionária” Cachinhos Dourados está viva e somos introduzidos às irmãs Página, Pricilla, Robin e Hillary, que são as responsáveis pelo comando diário da prisão e “braços direitos” do Sr. Revisor. Além disso, o curioso Falática Patética surge como alguém que consegue animar objetos inanimados.

Os leitores repararão que Willingham e Sturges preparam o terreno para algo muito maior e mais amplo, especialmente com a introdução de personagens que saem diretamente não da literatura, mas da gramática ou, em geral, da arte de escrever. Temos as irmãs “Página” e o Sr. “Revisor” e o “Falácia Patética”, que nada mais é do que a expressão literária que engloba toda e qualquer forma de antropomorfização de objetos e animais (o termo foi criado originalmente por John Ruskin, no século XIX, para condenar essa prática, o que explica seu tom pejorativo), todos fundamentais em volumes seguintes da saga de João das Lorotas.

Tony Akins, na arte, é eficiente em emular, de certa forma, o trabalho de Mark Buckingham no título principal, mas dando uma roupagem mais dinâmica para toda a estrutura, sem se preocupar com os esmeros do desenhista padrão da série. Com isso, os quadros ganham em fluidez e perdem um pouco em detalhes, em um resultado final muito satisfatório, com muita imaginação na recriação de personagens literários.

João das Fábulas começa bem e é mais um acerto de Willingham dentro de sua criação mais importante.

João das Fábulas: Vol. 1 – A Grande Fuga (Frustrada) (Jack of Fables: Vol. 1 – The (Nearly) Great Escape)
Contendo: João das Fábulas #1 a #5, publicados originalmente entre setembro de 2006 e janeiro de 2007
Roteiro: Bill Willingham, Matthew Sturges
Arte: Tony Akins
Arte-final: Andrew Pepoy
Cores: Daniel Vozzo
Letras: Todd Klein
Editora original: Vertigo Comics
Editora no Brasil: Panini Comics (publicado em forma encadernada em dois volumes em outubro e novembro de 2011)
Páginas: 104

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.