Crítica | Jogo de Intrigas (2001)

Jogo de Intrigas é um filme com subtexto complexo. Pode parecer, à primeira vista, um suspense adolescente hollywoodiano, subgênero muito comum na época de seu lançamento, mas o filme consegue ir além e assumir com responsabilidade o texto ponto de partida, isto é, a tragédia Otelo, O Mouro de Veneza, de Shakespeare, material dramatúrgico canônico que dialoga bem com o contexto contemporâneo graças ao eficiente Tim Blake Nelson, cineasta que consegue extrair da sua equipe de produção e do roteiro de Brad Kaaya um ótimo trabalho.

Em Jogo de Intrigas, o enredo é tecido com um dos fios condutores da tragédia clássica: a inveja, sentimento visceral que ao corroer e atormentar alguns personagens, acaba por ganhar ressonância na vida de outros, o que transforma a “existência” em algo insuportável ao passo que a narrativa avança. Para trazer o enredo ao tempo atual, Otelo se chama Odin (Mekhi Phifer), um jogador de basquete em ascensão, destaque do time de basquete da instituição de ensino. Virtuoso como o navegador da obra clássica, o personagem esférico é uma fera na quadra de esportes, mas sofre o preconceito social por ser um dos poucos negros a estudar no local.

O ciúme e a vingança, temas principais que gravitam em torno da narrativa, acentuam-se graças ao subtexto de segregação racial e ao contexto histórico que na época começava o processo de cicatrização após a tragédia em Columbine, em 1999. Odin namora Desi (Julia Stiles), a garota loira e branca, filha do gestor da instituição, o que demonstra mais uma ruptura com os sufocantes laços tradicionais de uma sociedade pouco preparada para deixar os preconceitos raciais de lado. Ambos poderiam sobreviver aos problemas já descritos, mas infelizmente são vítimas da ira de Hugo (Josh Hartnett), filho do treinador do time de basquete que é viciado em drogas e infeliz por conta do desleixo no que tange ao olhar de seu pai. Hugo é praticamente invisível diante da figura paterna que mais se importa com os resultados do campeonato de basquete, não exercendo a função social de pai regida pelas leis que comandam nossos “contratos sociais”.

Para atingir o casal, Hugo vai usar o melhor amigo de Desi, Michael (Andrew Keegan), parceiro de time de Odin. O lenço da peça de Shakespeare aqui é tratado como uma relíquia que está na família de Odin há mais de cem anos e pertenceu a sua avó e mãe, peça que vai parar nas coisas de Michael graças ao tenebroso “jogos de intrigas” do invejoso que deseja ter o status social do colega, bem como o prestígio e dedicação que o seu pai, Duke Goulding (Martin Sheen) não lhe dá. É a partir de pequenos detalhes que a trama se imbrica por um caminho sem volta, com desfecho trágico para todos os envolvidos.

Musicalmente guiado por diversos estilos musicais, da ópera ao rap, Jogo de Intrigas é bem dirigido no que diz respeito aos aspectos fotográficos, além de contar com uma montagem equilibrada e um elenco de jovens atores que dão conta do recado sem tornar a narrativa um desfile de bobagens estudantis, produto típico das comédias hollywoodianas. Psicologicamente perverso, o filme segue um ritmo dinâmico e não atropela as críticas sociais em favor da burocracia narrativa.

Graças aos estudos no campo da Tradução Intersemiótica, podemos analisar obras deste quilate sem se preocupar com o “legítimo”, o “verdadeiro”, o “natural”, algo que há algum tempo era tido como uma obra para facilitar o acesso ao clássico para as plateias menos favorecidas intelectualmente. Com novos significados para atender as demandas da cultura de massa, o filme inclusive brinca com Shakespeare durante uma cena em sala de aula. Um dos personagens é questionado pela professora e ao responder, alega que “achava que Shakespeare era um cara que fazia filmes”.

Jogo de Intrigas — (O) Estados Unidos, 2002.
Direção: Tim Blake Nelson
Roteiro:  Brad Kaaya, baseado na peça Otelo – O Mouro de Veneza, de Shakespeare
Elenco:  Josh Hartnett, Julia Stiles, Mekhi Phifer, Martin Sheen, Andrew Keegan, Rain Phoenix, John Heard, Elden Henson, Christopher Jones
Duração: 175 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.