Crítica | Jogo do Dinheiro

estrelas 2,5

Há quem diga que o mundo avança ou retrocede de acordo com aqueles que os comandam. Se há um retrocesso deveras apontado por nossa sociedade consciente (ou não), é na extrema banalização e espetacularização da informação, ou seja, do jornalismo. Enquanto que os fatos se tornam um anexo, o que importa é o grafismo daquele conteúdo, o espetáculo como forma de capturar a atenção de um público para além da veracidade dos fatos. É nesse aspecto que se apoia Jogo do Dinheiro, novo filme da diretora e já vencedora de dois Oscar como atriz, Jodie Foster.

Lee Gates (George Clooney), nesse contexto, é dono e um popular programa chamado Money Monster, onde presta uma espécie de consultoria financeira para seus espectadores da forma mais debochada: canta, dança, pula, se veste de rapper, entra ao lado de dançarinas de palco, um autêntico homem de espetáculos. Diante da ingenuidade dos espectadores diante do circo do programa, um deles, Kyle Budwell (Jack O’Connell) perde muito, muito dinheiro devido a uma das dicas financeiras esdrúxulas de Lee e, buscando vingança e explicações, faz do apresentador um refém em seu próprio programa ao vivo. Lee conta com poucas pessoas para ajudá-lo a sair da situação, sendo a principal delas sua produtora Patty (Julia Roberts).

Sem a disposição em perder tempo desenvolvendo personagens (uma escolha arriscada, é preciso ressaltar), o roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf nos joga na situação sufocante de Lee já em poucos minutos de projeção, num notável interesse em se preocupar com os desdobramentos dentro daquele minúsculo cenário. Essa rapidez narrativa é ideal para que Foster, num impressionante domínio de câmera e informações (difícil esperar isso de alguém responsável pelo indigesto Um Novo Despertar), trabalhe com bastante dinamismo em cima de questões como ganâncias corporativas, a superficialidade da mídia numa forte metalinguagem sobre como a notícia chega até aqueles que irão consumi-las. É um exercício de estilo engajado, acelerado, que brinca com o excesso de informações e relatos sobre a notícia, tal qual como vemos hoje. Sim, Jogo do Dinheiro é entretenimento com um quê latente de conteúdo denunciativo.

Há de ser ressaltado, entretanto, que a velocidade é tamanha que em dado momento (leia-se, o clímax), Foster se deixa engolir justamente pelo entretenimento banal que tanto critica e entrega seu filme ao espetáculo generalizado, exagerado e exibicionista, perdendo aí o apoio da verossimilhança que tanto lhe ajudava. O clímax, longo além da conta (isso para um filme com míseros 90 minutos), resvala em uma lógica superficial que diminui o impacto da mensagem crítica, e ainda ovacionando os “heróis” errados da história.

Mas é de se louvar tanto o talento de Foster na condução e na sua forma de falar sobre o jornalismo de hoje (e nossa subserviência a ele) quanto pela notória forma com que seus atores se fazem presente em cena, e mesmo distantes um do outro na maioria do tempo, Clooney e Roberts seguram uma química que, a despeito da falta de desenvolvimento dos personagens, nos fazer torcer de alguma forma por eles. E Jogo do Dinheiro é isso, um espetáculo crítico e ácido, não exatamente memorável, mas certamente com algo a dizer.

Jogo do Dinheiro (Money Monster, EUA, 2016)
Direção: Jodie Foster
Roteiro: Jamie Linden, Alan DiFiore, Jim Kouf
Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O’Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Lenny Venito, Emily Meade
Duração: 97 minutos.

RAFAEL OLIVEIRA. . . .Cinéfilo ainda em construção, mas que já enxerga na Sétima Arte algo além de apenas imagens e som. Amante de Kubrick e Hitchcock e viciado em música indie, cético e teimoso, mas sempre aberto para novas experiências e estranhas amizades.